quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Por trás do ódio, uma grande reportagem


"Ela queria dar o furo. Ela queria dar o furo", disse o presidente Jair Bolsonaro, enquanto as pessoas em volta riam, divertidas. "Ela", no caso, é a repórter Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo. Dez dias antes do segundo turno da eleição presidencial, Patrícia publicou a reportagem "Empresários bancam campanha contra o PT pelo WhatsApp"
 https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/empresarios-bancam-campanha-contra-o-pt-pelo-whatsapp.shtml.

A matéria esclarecia que um grupo de empresários entravam de sola a favor do então candidato Jair Bolsonaro, disseminando fake news e atropelando a legislação eleitoral que proibia apoio financeiro de empresas a candidatos. 

Os contratos das empresas, participantes do lobby pró-capitão, chegavam até a 12 milhões de reais. Entre os empresários que tinham aderido à metralhadora digital, estava o senhor Luciano Hang, proprietário das lojas Havan, aquela rede que usa réplicas gigantes da Estátua da Liberdade, numa clara apologia ao cafona. 

O furo de reportagem não impediu a vitória de Bolsonaro, nem sua candidatura foi anulada pela Justiça Eleitoral. Livre, leve e solto, Bolsonaro conquistou 56 milhões de votos e chegou à Presidência da República. 

Esse foi o furo que ainda hoje provoca a ira da clã Bolsonaro. A repórter mostrou com fatos e evidências que a lei eleitoral foi desrespeitada. Portanto, o presidente deveria ter sua candidatura cassada.  

Hoje, no jogo de duplo sentido, o presidente provoca risos ao sugerir que "furo" seja, talvez, vagina. A repórter queria "dar o furo", ou seja, a vagina...Ao redor, as pessoas caem na gargalhada. É a cultura do botequim, da cafajestada, do baixo nível, da pobreza intelectual deprimente. 

Na prática, o presidente está se referindo ao depoimento de Hans River do Rio Nascimento, ex-funcionário de uma agência de disparos de mensagens. Terça-feira passada, dia 11, ele disse na CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) que Patrícia, quando fazia o levantamento para a reportagem, insinuou-se sexualmente. "Queria dar o furo".

Pacientemente, a repórter exibiu cópias de conversas, mantidas entre ela e Hans River, em que ficava claro que o rapaz afrobrasileiro de nome anglogermânico é que a havia assediado.

Em 2018, Hans estava em litígio com a empresa disparadora de mensagens e passou para a Folha informações confidenciais, que possibilitaram à repórter produzir a matéria que desmantelou o castelo digital bolsonarista.

Agora, graças à reportagem de Patrícia Campos Mello, a gente sabe que uma rede empresas - entre elas a Yacows - usou o nome e CPF de idosos, nascidos a partir de 1953 (olha eu aí gente!!), para registrar chips de celulares e promover o disparo de mensagens em benefício de determinados políticos, entre eles Jair Bolsonaro.

O incômodo constrangedor espalha-se como fedor de bode. Sob o coro de "fascista", o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) foi à tribuna e mandou as deputadas de partidos rivais a "raspar o sovaco, senão dá um mau cheiro do caramba".

Sua excelência também publicou no Twitter declaração antiga da jornalista, comentando que havia votado no PT. No vídeo em questão Patrícia aconselha jornalistas a jamais comentarem sua intenção de voto. Ela relembra que, em 2013, concedeu entrevista a alunos da PUC e disse ser eleitora do PT. A edição cortou explicações complementares. "E eu virei a putinha do PT", dizia. Veja a publicação: 
https://twitter.com/BolsonaroSP/status/1229771901649801218

Entenda como funciona a lógico bolsonarista. Eles nunca assumem a posição de réus. São sempre acusadores. Acusam sempre. A todo momento. "Fulano é comunista". "Fulana quer dar o furo". "Veja a ideologia dela".

O que os eleitores brasileiros querem saber é muito simples: a série de reportagens da repórter Patrícia Campos Mello provou que a eleição de Bolsonaro teve o apoio de empresas que pagaram os tubos para alavancar a candidatura do PSL à Presidência. Essa prática foi ilegal. Contrariou a Legislação Eleitoral. A CPMI vai comprovar isso? Se comprovar, Bolsonaro será afastado? Há elementos para impeachment?  

Sinceramente, tinha certeza que o governo Bolsonaro seria um pesadelo, mas nunca imaginei que fosse um pesadelo diário, com ataques diários, com crises a cada 24 horas. Não vejo a hora desse horror terminar. O problema é que, na última vez que tive essa mesma sensação, o pesadelo durou 21 anos. 






  

     

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Desculpe, Fernando Meirelles, mas Democracia em vertigem é melhor que Honeyland


Em entrevista ao Roda Viva, o cineasta Fernando Meirelles (Cidade de Deus e Dois Papas) disse que o documentário Honeyland é favorito ao Oscar. Honeyland seria o "grande filme", enquanto o representante brasileiro Democracia em vertigem, da cineasta Petra Costa, não estaria no mesmo patamar. 


 Honeyland, dirigido por Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov, conta a história da apicultora Hatidze Muratova, que vive em uma zona remota da Macedônia, país enfiado entre a Bulgária, Kosovo, Sérvia e Grécia, sem saída para o mar. Hatidze cuida da mãe doente. Tem uma existência solitária, cuidando de suas abelhas e produzindo mel que vai vender na capital Escópia. 


Para realizar Honeyland foram necessárias 400 horas de filmagem, que se arrastaram por três anos. O documentário mostra como a chegada de vizinhos - pai, mãe e uma penca de filhos de todas as idades - vai bagunçar a vida de Hatidze. 


Os novos vizinhos têm um rebanho de vacas e decidem investir na apicultura. O resultado é ecologicamente desastroso. As crianças - obrigadas a trabalhar - viram "pasto" para as abelhas. Eles são picados, inchados e revoltam-se contra os pais, no caso seus "patrões". 


Outras cenas mostram o nascimento de um novilho, arrancado do ventre da vaca por uma criança, que parece ter muito nojo do que está fazendo. São mostradas festas, reuniões locais e a ida de Hatidze à cidade para vender seu mel. 

Honeyland é um filme local. Trabalha na metáfora do frágil equilíbrio ambiental e como os seres humanos são especialistas em dizimar a natureza. Os "atores" são pessoas reais. Não há falas decoradas, nem texto a ser seguido. O filme retrata uma vida miserável de pessoas muito pobres e excluídas. 

Honeyland é um excelente documentário. Mas, peço desculpas a Fernando Meirelles, é menor, em comparação a Democracia em vertigem. 

O filme de Petra Costa não se resume a uma localidade, a um personagem, é amplo, macro. Discute o golpe de direita que derrubou uma presidente eleita. Democracia em vertigem foi selecionado pelo "comunista" The New York Times como um dos melhores filmes do ano. 

Petra Costa, 36 anos, adiciona ao documentário as contradições de sua vida. Ela é neta de um dos fundadores da construtora multinacional Andrade Gutierrez (empresa condenada por corrupção) e filha de pais guerrilheiros, presos e exilados, durante a Ditadura Militar.

Cai Dilma, entra Michel Temer e chega o capitão autoritário, favorável ao armamentismo, aos agrotóxicos, inimigo número 1 dos LGBTs, das reservas indígenas e dos quilombolas.

Com voz de alguém que sente muita dor, Petra encadeia as desgraças da política brasileira, esse buraco sem fundo em que nos encontramos.

Ontem, dando uma banana para o artigo 37 da Constituição, a Secom (Secretaria de Comunicação Social da Presidência) usou o dinheiro público para atacar a cineastra Petra e seu documentário. Chamando criadora e criatura de "anti-Brasil". 

O artigo 37 fala que o governo deve ter "impessoalidade". Não foi o caso da Secom, comandada por Fabio Wajngarten, investigado pela Polícia Federal por "peculato e corrupção passiva".  

No The Guardian, edição de hoje, um articulista menciona que, geralmente, governantes ficam felizes quando uma obra artística, que representa seus países, ganha uma honraria internacional. Não foi o caso do governo Bolsonaro em relação à Democracia em vertigem, menciona o jornal inglês.

Para defender Petra Costa e sua obra, Caetano Veloso e Chico Buarque divulgaram vídeos, falando da importância do filme, disponível pela Netflix. No campo adversário, um enciumado Pedro Bial, que perdeu dez anos de sua longa existência apresentando aquela porcaria de bês ao cubo, disse que Petra é "uma menina querendo dizer para a mamãe dela que fez tudo certinho". 

Estamos nesse cabo de guerra. Para os defensores do governo Bolsonaro, Democracia em vertigem é o inimigo da vez e deve ser ferozmente combatido. Já os 89 milhões, que não votaram no capitão, irão torcer pelo representante brasileiro no Oscar. 

De minha parte, gostaria que Democracia em vertigem levasse a estatueta. Entre outros motivos, porque é um documentário excepcional e representa um soco bem dado no fígado de bolsominions e companhia bela.    
  

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Filme Whisky, Tarantino, Coringa e que tais

Esta é a imagem que vai dar título ao filme

Todos os dias ajoelho e agradeço Reed Hastings e Marc Randolph por terem inventado a Netflix. A TV por streaming nos permite assistir joias como esse filme Whisky. Realizado pelos cineastas uruguaios Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll, em 2004, foi considerado pelos críticos como "o melhor filme latino-americano dos últimos 20 anos". Rebella morreu jovem, aos 32 anos. Suicidou-se e não concluiu o roteiro do que seria seu próximo filme, em parceria com o colega da faculdade Pablo Stoll.

A Netflix tem uma vantagem sobre a TV por assinatura. Não exibe comerciais. Quando você assina a TV por assinatura, assina também seu atestado de imbecilidade. Além de pagar uma vez, você engole comerciais, que, em tese, não deveriam ser exibidos, porque são os comerciais que pagam a TV aberta. Se você paga pela TV por assinatura, com que direito eles lhe enfiam, goela abaixo, os comerciais? Só mesmo sendo um imbecil para não fazer nada a respeito.

Graças à Netflix também nunca mais assisti a uma novela da Globo.  O único defeito da Netflix é ser conservadora e moralista. Falta na programação a pimenta, o ardido. Quem sabe um dia... Duvido.

Whisky fala de três pessoas que se juntam, em determinado momento da vida, sem ter nada em comum. Bem produzido, roteiro excelente, direção impecável, você mergulha de cabeça na história. O solitário dono de uma fábrica de meias, caindo aos pedaços, precisa se preparar para receber o irmão, que também produz meias, e vive no Brasil. Para não parecer o que é - um velhote ranzinza e solteirão - pede para uma funcionária fazer o papel de sua esposa. A decadente fábrica de meias espelha o seu proprietário: é sombria, áspera e a caminho da esterilidade. Os três seres díspares vão parar no balneário de Piriápolis, fora de temporada, desértico. 

Se você gosta de perseguição de carros, tiroteios, violência sanguinolenta, não assista Whisky. Se você quiser qualidade, roteiro de excelência e interpretação nota dez, veja Whisky.

Por falar em violência, Quentin Tarantino está no pedaço com Era uma vez em Hollywood. Queria saber o que ele quis dizer com essa produção? Tarantino tem um problema psíquico grave. Ele não consegue aceitar a história. Quer mudá-la. Descontente com a Segunda Guerra Mundial, a barbárie dos campos de extermínio, e o nazismo, Tarantino decide matar Hitler no pior filme de guerra (Bastardos inglórios) já produzido pelo cinema. Imagine o Führer, em território inimigo (França), indo a uma exibição teatral em Paris, guardado por DOIS guarda-costas. Somente uma mente infantil para imaginar algo parecido. 

Em Era uma vez..., Tarantino, inconformado com o assassinato brutal de Sharon Tate, revê a história e salva todo mundo do maluco Charles Manson. Freud diria que, assim como os sonhos são a realização de um desejo, Tarantino faz filmes que concretizam, de forma vicária, seus desejos de menino mimado. 

O Coringa foi percebido por incautos como "um filme de esquerda". Sinto muito. Não há nada mais direitista que O Coringa. Se fosse feito um paralelo com Chê Guevara, a gente entenderia melhor por que O Coringa é um filme conservador e de direita. 

Chê era médico, guerrilheiro e viveu a sua vida a serviço dos pobres e explorados. Combateu ditaduras. Ajudou a derrubar Fulgêncio Batista, em Cuba. Participou de lutas semelhantes na África e foi executado na Bolívia no dia 8 de outubro de 1967. Chê Guevara é um legítimo herói da esquerda. Há algo de cristão em sua existência. "Morreu por nós". 

O Coringa é um sujeito maluco, idolatrado pela massa. O herói dos fracos e oprimidos é doido de carteirinha. Como se o filme dissesse: os pobres, os famintos, os miseráveis só podem mesmo idolatrar os loucos. 

O Coringa seria um filme "de esquerda" se seu protagonista fosse um médico, por exemplo, esclarecido e sensível à exploração do capital, capaz de pegar em armas e iniciar uma revolução. Como disse alguém outro dia nas redes sociais: "a cada nova revelação de conquistas econômicas, tropeço em mais gente vivendo na rua". 

Por falar em gente louca, ainda pela Netflix, assisti no dia da estreia ao novo filme de David Lynch, O que Jack fez? São 17 minutos de loucura plena. Lynch é um agente do FBI interrogando o macaco de Ross (Friends), que teria cometido um crime. 

Os dois supostos candidatos ao Oscar pelo Brasil, em 2019, eram Bacurau - indigesto, violento, inverossímil -  e A vida invisível (um amigo me disse ser o filme mais chato desde Lumière. Talvez seja exagero da parte dele).
  
Para encerrar, fica a pergunta: por que será que o Brasil não consegue criar uma geração de cineastas que façam filmes como esse Whisky uruguaio ou o argentino ganhador do Oscar O segredo dos seus olhos, estrelado pelo excepcional Ricardo Darin? Pode ser que o problema seja esse pessoal das comédias. Coisas do tipo Minha mãe é uma peça... Ou, quem sabe, o problema é mesmo o Brasil. A falta de educação, a incapacidade, a omissão, a elite obtusa...Por aí afora. 


      

    

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Rousseau, o Contrato Social e Paraisópolis


Por que a maioria das análises sobre a morte de nove jovens em Paraisópolis mirou apenas a Polícia Militar? Ouvi dezenas de "analistas" discorrendo sobre o episódio, ocorrido na semana passada, e nenhum deles mencionou o óbvio: quem são os organizadores dos "bailes" funk? Como eles se chamam? Onde eles moram? O "baile" seria o ganha-pão deles? 

É estranho ninguém mencionar os responsáveis pelas mortes. Os organizadores são os responsáveis pelo ocorrido. Se eu promovo uma festa em um local inadequado, reúno milhares de pessoas, com objetivo de ganhar dinheiro, é claro que, se houver pânico, pessoas vão morrer.

Se eu for abrir um bar, que terá música ao vivo, tenho certeza que os documentos exigidos pela municipalidade vão ocupar uns dois metros de altura. Vou precisar de alvará de funcionamento, autorização do Corpo de Bombeiros, cópia do Imposto de Renda, IPTU do imóvel, cópia do contrato de locação, CNPJ...Só para citar alguns.

Agora, para organizar um evento na favela, não preciso de nada disso. É só ligar os alto-falantes e que "comece la fiesta". Paraisópolis parece não fazer parte do mundo legal. É um lugar à parte. 

É estranho que, enquanto os corpos dos jovens estavam no chão, aguardando as viaturas do Instituto Médico Legal, os organizadores prosseguiam com a "festa".  Que tipo de gente é essa que não para um evento, com gente morta, com cadáveres espalhados no chão, bem ao lado deles?  Neste sábado, teve "festa" novamente. Os "responsáveis" fizeram um minuto de silêncio e, em seguida, botaram pra quebrar. 

Quando é que a gente vai saber quem são esses organizadores? Quando eles serão penalizados pela Justiça? Sua responsabilidade é a mesma dos proprietários da Boate Kiss, em Santa Maria (RS). Quem faz festa em local inapropriado, com objetivo mercantilista (nada é grátis), coloca em risco a vida dos participantes.  

As discussões sobre o ocorrido em Paraisópolis perdem o foco. Fala-se em racismo. Se os jovens fossem brancos, a polícia não teria partido para cima deles. Será que essa desgraça teria sido motivada por racismo? Não foi racismo. A polícia foi chamada por moradores, que não suportam mais ficar sem dormir três, quatro dias por semana, e interveio para acabar com a arruaça. 

Você pode gostar de funk. Tem gosto pra tudo. Agora, ser obrigado a ouvir de sexta-feira a domingo funk em último volume é tortura. Se ao invés de funk, os "organizadores" colocassem A Primavera de Vivaldi no último volume, uma Primavera ensurdecedora, os reclamos seriam os mesmos. 

A questão que se coloca é muito simples: por que o seu direito de se divertir vale mais que o meu direito de não ouvir a sua música? Eu tenho o direito de morar em Paraisópolis e querer ficar na cama, dormindo, de sexta-feira a domingo, sem ser incomodado pela sua festa. Em que momento a sua diversão suplantou o meu direito de não ser incomodado por você? Quando isso ocorreu e eu nem percebi?

Toda essa confusão remete a Jean-Jaques Rousseau (1712-1778). Quando escreveu o Contrato Social, Rousseau discutia um velho dilema: como preservar a liberdade natural do homem e garantir ao mesmo tempo a segurança e o bem-estar da vida em sociedade? Para Rousseau, a saída era simples: as pessoas deveriam optar por viver na democracia, submetendo-se às leis. Valeria a soberania da coletividade. 

Em Paraisópolis, moram 80 mil pessoas. Parece que a maioria prefere viver em paz, sossegada, sem o pancadão de fim de semana. Por isso, eles pediram a intervenção da polícia. Então, meu caro, organizador do pancadão, o seu direito de incomodar a maioria com música no último volume vai contra o bem-estar da coletividade. Como garante o Contrato Social de Rousseau, você deve se submeter às leis e desligar o som ou ser preso por perturbação da ordem pública.

Mas os jovens, coitados dos jovens pobres, o que eles vão fazer sem os bailes? Onde eles vão se divertir? 

Eu fui um jovem pobre também. Trabalhava em uma adega de bebidas e sonhava frequentar os bailes do Círculo Militar, na época o crème de la crème. Lá, tocavam as melhores bandas. As garotas eram deslumbrantes. O lugar era amplo, com decoração luxuosa. Um sonho de consumo. 

Nunca pude frequentar os bailes do Círculo. Para nós, molecada pobre, havia os bailes de garagem. No sábado à noite, alguém arrumava uma vitrola. Espalhava cadeiras e mesas, onde antes havia um carro estacionado, e a gente dançava, de rosto colado, ao som de Johnny Rivers, Do you wanna dance?. O baile terminava antes da meia noite. Íamos na lanchonete mais próxima encerrar a noite, comer hambúrguer com queijo, regado a ketchup, novidade gastronômica naquela época, em 1969.

Paraisópolis, na realidade, é uma sucessão de erros. Está tudo errado. A área era particular e foi invadida. Ou seja, as pessoas não poderiam estar ali. O poder público, lento, foi incapaz de agir. Permitiu - mais uma vez - uma ocupação desordenada, caótica, que transformou aquela área de 10 quilômetros quadrados em um pesadelo urbano. É difícil trafegar pelas ruas. Faltam requisitos mínimos de cidadania. Imagine você ficar doente e a ambulância não conseguir chegar até a sua casa? E se pegar fogo, como já aconteceu outras vezes? Os carros dos bombeiros tinham dificuldade para chegar até o local do fogo, enquanto as chamas devoravam as casas. Em 2016, um incêndio destruiu uma centena de moradias ante o olhar impotente dos bombeiros. 

Enquanto tudo isso acontece a prefeitura, sonolenta, move-se com a lentidão do cágado. Somente hoje foi feita uma reunião entre secretários municipais e lideranças da segunda maior favela da capital. 

O que precisa se feito - e é urgente - me parece também muito óbvio. Aquelas 80 mil pessoas precisam ser cidadãs. O poder público - a começar pela prefeitura - precisa transformar o caos em área urbana habitável, com ruas largas, praças arborizadas, equipamentos públicos decentes. 

-  Ah, mas é tudo ilegal. Aquele terreno é particular. Os invasores precisam ser expulsos.

Isso deveria ter sido feito em 1970, quando meia dúzia de posseiros ocuparam um terreno particular. Agora, com 80 mil pessoas, fica difícil remanejar toda essa gente. A menos que a prefeitura tenha um plano urbanístico arrojado, mirabolante, capaz de utilizar aquelas centenas de prédios abandonados, no centro da cidade, em um projeto urbanístico do século 21. 

Esquece! Isso nunca vai acontecer.        

    

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Baile Funk de Paraisópolis é autoritário e perverso


A Favela de Paraisópolis é um lugar estranho. Algumas ruas levam a lugar algum. Devem ter sido imaginadas pelo arquiteto da miséria e do descalabro urbano. O tráfego de veículos percorre vielas sinuosas, estreitas e que, às vezes, são subitamente interrompidas por um caminhão de entregas que perdeu-se na tentativa de fazer uma conversão sem volta. Em frente ao comércio local, há caixotes de madeira empilhados e espalhados para ninguém estacionar. Carros, motos, carroças estão parados nos dois lados da rua estreita. Só por um milagre para passar incólume entre eles. 

Sabe a Prefeitura de São Paulo? Essa instituição que tem fiscais que multam um puxadinho na Vila Madalena ou caem em cima daquele comerciante que precisa de um alvará? Então, essa Prefeitura não existe em Paraisópolis. Nada ali parece ter sido feito para funcionar. É tudo apertado, estreito, pobre, miserável, inviável. A Prefeitura não aparece por lá. Não manda fiscais. Não elabora um plano urbanístico. A Prefeitura é omissa, porque é muito mais fácil ser omisso do que participativo.

Talvez a única instituição que dê as caras em Paraisópolis, aquele vespeiro dominado pelo tráfico, seja a Polícia Militar. A missão da PM é complicada. Tenta ordenar a desordem. E a desordem, em Paraisópolis, é implacável. 

Famosa pelo batidão, pelo pancadão, pelo tal do Baile Funk, os 80 mil moradores da Favela de Paraisópolis são reféns desse grupo que todas as semanas - repito todas as semanas - decreta estado de insônia totalitário. Sexta, sábado e domingo, os infelizes moradores desta favela da zona sul da capital estão proibidos de dormir. A ordem que lhes é dada - e tem de ser obedecida - é: "Vocês não vão dormir". Freddy Krueger ficaria sem ocupação.

Então, desesperados, reféns da miséria que os condenou àquele lugar remoto, medonho e abandonado, o que os pobres cidadãos fazem? Ligam para o 190, o telefone da Polícia Militar.

"Alô, por favor, eu não consigo dormir. Estou aqui na Favela de Paraisópolis. É um barulho insuportável. Trabalhei a semana toda. Vocês poderiam mandar uma viatura para cá?"

A PM aparece na favela e verifica que tem 5 mil, 10 mil, 30 mil pessoas, participando de uma festa pública. A PM tenta reprimir. É recebida com garrafadas, cusparadas, pedras e até chumbo grosso. A PM reage com energia, tenta pôr ordem na bagunça, mas a bagunça domina, impera. É a supremacia do caos.

Os "organizadores" do pancadão são anônimos. A gente não sabe quem são. Qual é o perfil desses promotores do infortúnio alheio?  São jovens? Maduros? Pertencem a alguma facção criminosa? Quanto eles lucram com esses "bailes"? Seria essa a sua principal fonte de renda?

Não se sabe. Parece não haver trabalho de inteligência da polícia. É tudo cercado por uma neblina de incertezas. O que se tem certeza é que, no próximo final de semana, os 80 mil moradores da Favela de Paraisópolis, novamente, serão proibidos de descansar, porque o autoritarismo perverso dos "organizadores" fala mais alto do que a lei, a ordem, a Justiça.

O pancadão reúne todos os elementos do desrespeito legal. É uma festa sem alvará, sem licença, sem nada. Realiza-se ao ar livre, azucrinando a vida da vizinhança. Menores podem frequentá-la? Podem, sim. Entrem e fiquem à vontade. Ali, naquele canto, tem maconha, cocaína e ecstasy. Sirvam-se. Façam bom proveito. Depois, vocês farão sexo aqui no meio da rua, sem camisinha, para engravidar e daqui a alguns anos serão suas filhas e filhos que estarão aqui na bagunça. 

Aqui, é um mundo à parte. O mundo lá fora não serve para nós. Por isso, criamos essa cidadela da putaria. Aqui vale tudo. Estupro de vulnerável? Vale. Uso de drogas lícitas e ilícitas e drogas que ainda serão inventadas? Vale.

Dizem que vem gente do interior de São Paulo, da Baixada Santista, de municípios próximos à capital para participar do pancadão. Na melhor das hipóteses, é uma garotada que quer se divertir e se entregar a prazeres baratos e possíveis. 

Só que, sinto muito, não dá para isso ser feito no meio da rua. Não dá para a gente aceitar na boa o descalabro legal. Se a perturbação da ordem vale para mim, que moro em outro bairro, também deveria valer para o "organizador" do caos da Favela de Paraisópolis.

É hora do poder público fazer a sua parte. Deixar a omissão para trás e agir. A primeira tarefa a ser feita, é transformar a Favela de Paraisópolis em um bairro decente, com ruas largas, calçadas, praças, áreas verdes e tudo aquilo que qualquer cidadão paulistano teria direito. Ruas largas o suficiente para o tráfego do Corpo de Bombeiros e ambulâncias. Ruas largas o suficiente para a gente não sentir aquela sensação de claustrofobia, que deixa pessoas presas dentro de seus veículos, porque as ruas foram interditadas para o pancadão e só será permitido sair no outro dia, pela manhã, se os "organizadores" permitirem. 

Morreram oito meninos e uma menina neste fim de semana. Todos os holofotes voltam-se para a Polícia Militar, que teria agido "fora das normas". E os "organizadores" agiram dentro das normas? Quem são? Onde se escondem? Quem é essa canalha anônima? Perguntas que espero ver respondidas nos próximos dias.

E os pais ou "responsáveis" agiram "dentro das normas"?
- Pai, mãe, vou sair.
- Onde você vai, filho?
- Vou para o pancadão, onde tem droga e sexo à vontade. O lugar é assediado pela Polícia Militar que, volta e meia, troca tiros com os bandidos.
- Ah, beleza, filho. Divirta-se. Não se esqueça de levar um casaquinho, que, mais tarde, pode esfriar.


          

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Filme sul-coreano "Parasita" discute desigualdade social


Estreou em São Paulo o filme Parasita, do diretor Bong Joon-ho. Em Cannes (França), a produção levou a Palma de Ouro. Foi a primeira vez que um filme sul-coreano ganhou esse prêmio, com o voto unânime do júri. Parasita é uma paulada em nosso discernimento. Mistura drama, comédia, desgraça, paixão, miséria, ostentação, sexo na mesma embalagem. E, principalmente, põe em discussão a desigualdade social.  

O pai, a mãe e os dois filhos vivem como ratos. Moram em um porão. Ganham a vida, montando caixas de pizzas. Os quatro são competentes. O rapaz e a garota são inteligentes. O pai é trabalhador e a mãe uma boa administradora de casa. Mas a família vive de subempregos, à margem, em um buraco social. A vida começa a melhorar quando o rapaz arruma emprego como professor particular de uma adolescente milionária. Aos poucos, todos os integrantes da família conseguem emprego na casa.

A família pobre é unida. Atua como um único bloco, eliminando outros funcionários para ocupar seus lugares. Recorre a golpes desonestos, sem dor na consciência. O importante é sobreviver, no melhor darwinismo social. São insetos rastejantes, se esgueirando pelo esgoto, alimentando-se das sobras.

Dentro da casa dos ricos, eles vão usufruir, temporariamente, de prazeres, até então, inacessíveis. Comem e bebem com fartura. Aproveitam a maciez das camas dos patrões. Deleitam-se com a majestosa vista de um jardim interno gramado, graciosamente iluminado e banhado por uma chuva bem-vinda numa noite de calor intenso.

Do lado dos milionários, o provedor é um industrial que sente nojo do cheiro dos pobres. "Essa gente que usa metrô.". A mulher dele é, absolutamente, incompetente. Só presta para ir às compras. O menino rico é malcriado, mimado e domina os pais. A garota, sonhadora, bobinha, apaixona-se pelo rapaz pobre.

O filme provoca a dúvida: quem é o verdadeiro parasita? Os miseráveis que conseguem uma brecha e invadem o castelo dos ricos; ou os ricos, que sugam a energia dos pobres, para a realização de tarefas ordinárias, como cozinhar, lavar roupa, dirigir o carro, ir ao mercado e manter a casa limpa?      

Candidato ao Oscar, Parasita venceria fácil se a estatueta fosse entregue em outro país. Nos Estados Unidos, de Donald Trump, o filme pode ser considerado "comunista" e corre o risco de ficar de fora da premiação. Aliás, no Brasil, da família 01, 02 e 03, Parasita também corre o risco de virar "comunista".




   

sábado, 9 de novembro de 2019

O PT saiu da cadeia junto com Lula



A saída do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ontem da prisão, em Curitiba (PR), foi apoteótica. Teve discurso, homenagens, abraços, beijos e felicitações mil. Não foi só Lula que saiu da cadeia. O PT, também. 

Houve reparação de uma injustiça. Na quinta-feira, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu por 6 votos a 5 que a Constituição deve ser respeitada. Em seu artigo 5º, a Constituição ordena que a prisão só deve ocorrer depois de "trânsito em julgado". Significa que, enquanto houver instância jurídica a ser percorrida, o acusado não pode ser preso.

A Lava Jato atropelou a Constituição. Prendeu opositores. Guardou Lula na cadeia, para não participar da eleição de 2018. Mesmo debaixo de uma avalanche sempiterna de acusações, com a mídia oficial descendo o cacete, Lula venceria o pleito. A solução foi enquadrá-lo. Em abril de 2018, com voto decisivo da então presidente do STF, Cármen Lúcia, foi negado habeas corpus a Lula. Pouco depois, o líder do Partido dos Trabalhadores seria preso e levado à "República de Curitiba".

A prisão de Lula foi uma excrescência jurídica. Não havia provas contra ele. Veja o que diz o então "comandante supremo" da Lava Jato, Deltan Dallagnol, a um grupo de WhatsApp, antes de apresentar o power point, que ligaria todas as flechas da corrupção a Lula:

“Falarão que estamos acusando com base em notícia de jornal e indícios frágeis… então é um item que é bom que esteja bem amarrado. Fora esse item, até agora tenho receio da ligação entre petrobras e o enriquecimento, e depois que me falaram to com receio da história do apto… São pontos em que temos que ter as respostas ajustadas e na ponta da língua”    


Graças à Vaza Jato, perpetrada pelo site The Intercept Brasil, ficamos sabendo aquilo que já imaginávamos. Não havia mesmo provas factuais contra Lula. Era um movimento político para "quebrar as pernas" do ex-presidente. 

Tem o outro lado. O artigo 5º precisa ser modificado. Não dá mais para suportar a impunidade. Político corrupto tem de ir pra cadeia. Esse "trânsito em julgado" é um atraso de vida. Quem tinha bons advogados, como era o caso de Paulo Maluf, corrupto sacramentado, nunca ia preso. Recorria aqui. Recorria acolá. E ficava livre, leve e solto até o processo prescrever. 

Se a Lava Jato não conseguiu encontrar o "batom na cueca", expressão preferida do inesquecível Ricardo Boechat, isso não significa que não havia corrupção no governo petista. No primeiro mandato de Lula na Presidência, o então ministro da Casa Civil, José Dirceu, subornava parlamentares para aprovar projetos, no esquema chamado de Mensalão. Depois, viria o PetrolãoMilhões de recursos da Petrobras foram desviados. Foi tanta grana que quase quebrou a Petrobras

O esquema - descoberto pela Lava Jato de Dallagnol, Sergio Moro & cia. - revirava as entranhas da corrupção política. Empresários pagavam propina a políticos. Conseguiam faturar milhões em obras. E devolviam essas facilidades, repassando recursos para os partidos. Recursos públicos eram drenados e voavam para o exterior, graças a uma bem orquestrada indústria de doleiros. Na cara dura, políticos ligavam para empresários e pediam dinheiro. O ex-presidenciável Aécio Neves foi pilhado em uma gravação, com o pires na mão, querendo 2 milhões de reais.    

A Lava Jato buscou os holofotes e os encontrou. Do dia para noite, procuradores e juízes anônimos viraram celebridades. A mídia oficial transformou esse pessoal da toga e terno cinza de pastor evangélico nos heróis da resistência. Os políticos - praticamente todos eles, sem exceção - eram os bandidos da história.

No meio desse torvelinho, a pobre presidente Dilma Roussef foi derrubada. Graças a um problema contábil, chamado de "pedalada", dois advogados - o circunspecto Miguel Reale Jr. e a psicodélica Janaína Paschoal - abriram processo de impeachment, que ganhou sinal verde do então presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Dilma desceu a ladeira do Palácio do Planalto. Depois, seria a vez do corrupto Cunha cair em desgraça e ser enjaulado. 

Enquanto ocorriam as prisões de políticos, empresários, empreiteiros, doleiros, o vai e vem de advogados aos tribunais, para libertar os corruptos, ganhava ares de romaria perdida, em que os fiéis andam milhares de quilômetros e, ao chegar ao destino, não encontram mais o santo no lugar devido.

Os advogados de defesa nunca tinham visto nada parecido. A Lava Jato prendia e não soltava. Para isso, os procuradores se transformaram em Batman, na comparação feliz do jornalista da direita conservadora Reinaldo Azevedo. Batman e bandidos têm muito em comum. Todos atropelam a lei. Batman combate os criminosos, sem se importar com direitos civis e constitucionais. O juiz Sergio Moro comandava os procuradores da Lava Jato, dando dicas, fazendo sugestões, sendo tudo, menos um juiz imparcial. 

Moro condenou Lula a nove anos e seis meses de prisão, baseado em "convicção". Não havia o "batom na cueca". Apenas a convicção de que Lula era corrupto. A mídia oficial delirou. Moro ganhou as manchetes. No maniqueísmo de ocasião, os petistas eram bandidos e os justiceiros de toga, os mocinhos.

Como prêmio pelos bons serviços prestados, Moro foi guindado, no início deste ano, a ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro. Eleito na esteira do ódio ao PT, Bolsonaro obteve 57 milhões de votos. 89 milhões de eleitores não votaram nele. 47 milhões preferiram o candidato petista, Fernando Haddad, apoiado por Lula. E 42 milhões decidiram não votar em ninguém, enojados com tanta corrupção política.

 Veio a Vaza Jato, do The Intercept Brasil, e a opinião pública entendeu que a Lei maior, a Constituição, havia sido desrespeitada pelos "heróis" da Lava Jato. Imensamente felizes com a fama súbita, os procuradores lavajatistas faturavam os tubos em palestras bem remuneradas. 

Com a Lava Jato sob escrutínio, os ministros deuses do STF reuniram-se na quinta-feira e fizeram o que se espera deles: preservaram a Constituição. Assim, o famoso artigo 5º acabou prevalecendo e com ele, a libertação de Lula, preso injustamente. 

Dizem que Lula percorrerá novamente o País em uma reedição da "caravana da esperança". Antes disso, o PT - que saiu finalmente da cadeia - pode retornar às atividades. A começar, deveria fazer um mea culpa. É preciso pedir desculpas a seus eleitores, àquela gente ingênua que colocava adesivo da estrela petista na porta de suas casas e pendurava broches na lapela. O PT deve pegar um caixote de madeira, subir nele nas praças das cidades e gritar alto e bom som: 

"Pessoal, o PT errou. O PT permitiu que houvesse corrupção. O PT foi um partido igual aos outros. Nos desculpem. Isso não vai ocorrer novamente.

É isso que os eleitores de Lula esperam que ocorra. Não dá para fingir que nada ocorreu. Porque ocorreu. E o que aconteceu sujou a estrela petista. É preciso limpá-la. Fazer um rebranding da marca. Ano que vem haverá eleições municipais e o PT precisa estar preparado, porque senão vai levar outro cacete monumental das urnas.  

          

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Este crime chamado Justiça

A promotora Carmen Eliza Bastos de Carvalho
E ao lado do deputado Rodrigo Amorim


O filme Este crime chamado Justiça, dirigido por Dino Risi,  tem o título em italiano de In nome del popolo. Foi lançado em 1971. Conta a história de um promotor (interpretado por Ugo Tognazzi) que investiga os crimes de um empresário (Vittorio Gassman), notório poluidor e suspeito de ter espancado a amante até a morte. O promotor visita a casa do empresário e fica chocado com a falta de moralidade da família de milionários. O promotor vai fundo na investigação e conclui que o empresário é inocente. O diário, escrito pela amante, esclarece os fatos. Mesmo assim, disposto a fazer justiça a qualquer preço, o promotor queima o diário e, de posse das provas obtidas até então, manda o empresário para a cadeia. Mesmo sabendo que - desse crime, de assassinato - ele era inocente.

Como repórter, vivi algo parecido. Quando da morte do prefeito Celso Daniel, estive no local onde o prefeito foi arrebatado pela quadrilha do Monstro (Ivan Rodrigues da Silva). Encontrei uma senhora, que morava vizinha ao local onde ocorreu o tiroteio, que testemunhou toda a ação e corroborava a versão de Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, que dirigia o veículo, atacado pelos bandidos. 

Levei a informação aos promotores, que investigavam o caso, e eles me disseram que essa testemunha não servia. "Essa é uma testemunha de defesa", disseram. "Não interessa para nós." 

Já naquela época, os promotores faziam "vazamentos seletivos". Passavam a maior parte das informações para uma repórter da Folha. Um dos integrantes dessa força-tarefa era o promotor Roberto Wider Filho, que, recentemente, ganhou a capa da revista Veja, com um novo depoimento  de Marcos Valério, acusando Lula de ter mandado matar Celso Daniel.

Os promotores, que investigavam o arrebatamento e o assassinato do prefeito Celso Daniel, criaram uma linha de investigação paralela que incriminava, sub-repticiamente, o PT (Partido dos Trabalhadores), representado pelo grupo de Sérgio Sombra, do qual faziam parte o empresário Ronan Maria Pinto e Klinger Souza (secretário municipal e vereador de Santo André). Segundo os promotores, Sombra, Ronan e Klinger teriam contratado o bando do Monstro para matar o prefeito e assim continuar com seu plano de extorsão de empresários na Prefeitura de Santo André. 

Essa versão, criada pelos promotores, nunca foi aceita pela Polícia Civil. O ex-delegado Marcos Carneiro Lima, que trabalhou na Divisão Antissequestro, concedeu uma entrevista esclarecedora ao jornal El País, em abril de 2016, falando sobre o caso. Quem adora teorias conspiratórias vai ficar frustrado, depois de ler a matéria: https://brasil.elpais.com/brasil/2016/04/02/politica/1459619861_766410.html.

O sequestro do prefeito Celso Daniel começou a ser esclarecido na mesma noite. Uma testemunha que morava na Favela Pantanal estava lavando roupa em seu barraco, quando ouviu dois criminosos, comentando que haviam feito uma bobagem e sequestrado o prefeito de Santo André. Essa testemunha saiu de casa e foi até a Rádio Jovem Pan, onde prestava serviço. Pediu para falar com o presidente da rádio e contou o que tinha ouvido. O empresário ligou imediatamente para o delegado Edson de Santi, do Deic, que dirigiu-se até a favela. De Santi encontrou o cativeiro e localizou uma carteira de funcional do prefeito, provando que ele havia estado lá. Os bandidos haviam removido o prefeito e o levado para outro cativeiro, uma chácara na região de Juquitiba. 

Quando o Monstro percebeu que estavam com um problema sério nas mãos, ligou para um dos bandidos, que ouviu a mensagem: "Dá linha no cara", e entendeu que era para fuzilar o prefeito, quando, na realidade, a ordem era para soltá-lo.

Toda essa história me levou a acreditar que alguns promotores estão a serviço de um projeto político, muito mais do que a serviço da Justiça. São promotores e procuradores partidários. Assim como tem jornalista partidário, também tem integrantes do Judiciário a serviço de uma determinada causa política. Isso é grave e tem consequências desastrosas.

A Vaza Jato mostrou que a Lava Jato foi partidária ao prender o ex-presidente Lula sem provas. Lula foi preso para não participar das eleições de 2018. Está encarcerado, por causa de um apartamento que nunca foi dele e onde ele nunca morou. Não sou eu quem diz isso. É o próprio Deltan Dallagnol ao comentar com o então juiz Sergio Moro a falta de robustez de provas, como revelou o site The Intercept Brasil.  

O caso que está hoje na pauta dos jornais é o da promotora carioca Carmen Eliza Bastos de Carvalho. Ela postou fotos em redes sociais, apoiando a candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência. Tem foto dela ao lado do deputado Rodrigo Amorim. Amorim ganhou as manchetes, depois de ter quebrado a placa da rua que homenageava a vereadora Marielle Franco. 

Acredite ou não, a promotora Carmen Eliza integrava força-tarefa que investiga o assassinato da vereadora Marielle. Foi esse mesmo Ministério Público do Rio de Janeiro, da qual faz parte a promotora Carmen, que, em menos de um dia, colheu provas e desmentiu o porteiro do condomínio onde moram Bolsonaro e o miliciano Ronnie Lessa, implicado na morte de Marielle. 

O porteiro havia dito, em depoimento, que um dos suspeitos de assassinar Marielle - Élcio de Queiroz - teria ido visitar Bolsonaro, em 14 de março de 2018. Naquela mesma noite, Marielle seria executada. 

Reportagem do Jornal Nacional trouxe o depoimento do porteiro e mostrou o caderno de visitas do condomínio, que apontava Élcio, indo em direção à casa de número 58, onde mora Bolsonaro. Segundo o porteiro, que observou o carro trafegando dentro do condomínio, Élcio não foi em direção ao número 58 e sim em direção à casa de Ronnie Lessa. O porteiro teria ligado para a casa de Bolsonaro e lhe disseram que estava tudo certo. Não era para ele se preocupar. 

O MP do Rio de Janeiro foi rápido ao desmentir o porteiro. Mas mostra velocidade de câmara lentíssima, quase parando, ao investigar o caso Fabrício Queiroz. Em dezembro de 2018, o jornal O Estado de S.Paulo trouxe reportagem exclusiva denunciando um esquema de rachadinhas no gabinete do então deputado estadual (hoje senador) Flávio Bolsonaro. Desde então, o Ministério Público do Rio de Janeiro, do qual faz parte a promotora Carmen (entusiasta declarada de Bolsonaro e cia. bela), não consegue ouvir Queiroz. Não consegue pegar seu depoimento, nem mandar prendê-lo, para averiguação. Até a Revista Veja sabe onde está o Queiroz. Só falta o MP carioca tomar ciência.    

Antes de ser afastada, a promotora Carmen se antecipou e pediu para ficar fora de casos que envolvam a família Bolsonaro. O partidarismo estraga as instituições. Atrapalha o bom jornalismo e é um desastre na Justiça. É tão ou mais corrosivo que a corrupção.

       

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

O que La Bombonera tem a ver com a "América Latrina"


A expressão "América Latrina", salvo engano, foi cunhada ou popularizada pelo jornalista Franz Paul Heilborn, mais conhecido como Paulo Francis. O termo remete à cloaca do mundo. Sugere países endividados, pobres, corruptos, dominados por uma elite soberba e mesquinha. 

"América Latrina" vai além. Indica países de insuperável baixo-estima, dominados culturalmente. Nada de criativo parece sair dali. O Iphone nunca poderia ter sido inventado nesses países de língua espanhola e portuguesa. Não há um Vale do Silício inteligente. Desde que o Prêmio Nobel foi criado em 1901, 15 latino-americanos conquistaram a láurea. Seis deles, em Literatura. Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha dominam a premiação. 

Nesse submundo de países, submetidos à miséria por elites gananciosas e governantes corruptos, uma luz reverberava na escuridão. Era o futebol. Ao vencer três Copas do Mundo em 1958, 1962 e 1970, o Brasil virou o "país do futebol". Havia miseráveis. Os muito pobres. Mas pelo menos o mundo se rendia ao Brasil, diante de Pelé, Garrincha, Rivellino, Gerson, Jairzinho e outros craques. Era a nossa "volta por cima". 

A saúde não funcionava. O tranporte era uma droga. A educação não ensinava. Sem moradia, milhões viviam como ratos em edificações insalubres. Matava-se adoidado. Ninguém tinha segurança. Mas, pelo menos, a gente era bom em futebol. 

O brasileiro não conseguia criar um Iphone. Só que a criatividade, com que ele manejava a bola dos gramados do mundo, era invejada e aplaudida por todos. Até pelos derrotados. Em 1958, depois de vencer a Suécia, em sua casa, por incríveis 5 a 2, com direito a gol de chapéu de Pelé, a Seleção deu a volta olímpica, sendo festejada de pé por suecos encantados com o brilho e a sabedoria estrelar do "escrete de ouro". 

Veio o título de 1994, sem graça, com predomínio do medo e da retranca. Veio o pentacampeonato, graças à genialidade dos três "Rs", Ronaldo Fenômeno, Rivaldo e Ronaldinho. E aí o mundo acabou para a gente em 2014. Uma frase virou fantasmagórica. Dizia: "Gol da Alemanha". Sete vezes repetida."Gol da Alemanha". Um pesadelo, uma humilhação mundial. Deixamos de ser o "país do futebol" e nos transformamos em saco de pancada. "Gol da Alemanha".

A performance nos gramados escondeu o lado sujo do futebol brasileiro. Gangues de criminosos criaram torcidas organizadas e passaram a espancar torcedores de times adversários. Houve emboscadas e assassinatos. Times tradicionais passaram a dever impostos, não pagar fornecedores e mergulharam no caminho da semifalência. Pobre, Portuguesa de Desportos...

O pior estava lá em cima. No âmbito da cartolagem. Teve ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol preso e condenado por corrupção. Não aqui no Brasil. José Maria Marin, filhote dileto da Ditadura Militar, foi limpar chão de cadeia nos Estados Unidos. No Brasil, a gente costumava acalentar os corruptos. Eles faziam parte do tecido social. Eram como o pó sobre os móveis. Apesar da Lava Jato, muitos analistas duvidam que a cartolagem corrupta possa ser enjaulada. 

A nossa rendição aconteceu, em São Paulo, quando a Polícia Militar obrigou que os enfrentamentos ocorram com torcida única. Corintianos e palmeirenses, por absoluta falta de cidadania, estão proibidos de assistir a jogos de futebol lado a lado. Se deixarmos que eles fiquem juntos, vão se matar. Por isso, quando os dois times se enfrentam, só pode ter a participação de uma única torcida. Isso vale para outros times e outras torcidas. É a submissão total. Estamos de joelhos diante dos violentos. Eles nos venceram.

O futebol ganhou novas, belas e modernas arenas. O torcedor deixou de ser tão maltratado. No passado, lembro de banheiros entupidos, quebrados, com fezes espalhadas pelo chão, paredes e até no teto. O chão imundo, inundado de urina. As filas para comprar ingresso, com gente se socando. Esse cenário de horror parece ter ficado para trás. 

Ainda há muito para ser feito na "América Latrina". A seminfinal entre Boca Junior e River Plate, felizmente, desta vez, não teve ocorrência policial, com ônibus que transportava jogadores, sendo emboscado pelos bandidos rivais. O jogo da semifinal, disputado nesta terça-feira, 22 de outubro, no estádio La Bombonera, foi vencido pelo Boca por 1 a 0, placar insuficiente para avançar na competição. Foi um jogo feio, amarrado, sem lances de brilhantismo. No placar agregado, juntando as duas partidas da semifinal, o River venceu por 2 a 1, e vai à final contra o Flamengo.

Por um mecanismo que desconheço seu funcionamento, comentaristas analisaram a participação da torcida do Boca não poupando adjetivos. "Maravilhosa". "Sensacional". "Emocionante". "Incrível". "Contagiante". Para um marciano, o que se viu ali foi um festival de má educação. O campo foi alvo de papel picado, transformando-se em uma gigantesca lata de lixo. O jogo deveria começar às 21h30. Só que não. Demorou 15 minutos para uns pobres coitados, armados de sopradores, conseguissem empurrar aquela papelada para fora das quatro linhas. Mesmo assim, o gramado não ficou inteiramente limpo. A bola branca se confundia com os milhares de papéis brancos, esvoaçando sobre as quatro linhas. O público não sabia direito o que era bola e o que era papel.

Desculpe, essa manifestação da torcida não é "maravilhosa", não é "sensacional", nem "emocionante". Chama-se atraso de vida. Chama-se de volta ao passado. Ninguém pode gostar daquela sujeira de papel, que atrapalha o jogo e confunde o telespectador. Por que a Conmebol não proíbe? Por que não interdita para sempre esse estádio velho e alquebrado do Boca Juniors? É um lugar sujo, mal-cheiroso, cheio de falhas estruturais, com cimento se desfazendo. 

Quando eu jogava bola no campo de várzea do Rubens Salles, tinha mais espaço para bater o escanteio do que esse lugar estreito e superado, chamado La Bombonera. O jogador recua dois passos, toma distância e leva um tapa na orelha, antes de bater o escanteio. Dizem que em espanhol "bombonera" significa caixa de bombom. Só se for chocolate embolorado. 

Até quando a "América Latrina" vai ser assim? Esse lugar meio selvagem, pouco inteligente, subdesenvolvido. Será tão difícil assim chegarmos no limite mínimo da civilidade e nos transformarmos em América dos latinos, com muito orgulho, sim senhor?

E ontem, quarta-feira, 23 de outubro, assisti ao Flamengo, destruindo o futebol superado de Renato Gaúcho e companhia gremista. "A maior derrota do Grêmio na história da Libertadores". Cinco a zero que poderiam ser multiplicados por dois. O time do Flamengo, dirigido por um técnico português, redescobria o futebol espetáculo. Não tinha papel picado no gramado. Parecia o Brasil de Telê Santana, de 1982, antes do desastre do Sarriá. Mas esse é um assunto para uma outra postagem. 

Um abraço.
     
      

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Não se chora sobre óleo derramado


É louvável o esforço dos nordestinos em limpar suas praias. É lamentável o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, reclamar que o Green Peace não está limpando as praias. Ministro, é sua obrigação cuidar do meio ambiente brasileiro. É para isso que o senhor está no cargo. Arregace as mangas e vá trabalhar. 

Essa omissão, essa lerdeza do governo federal em se assenhorar do problema parece inerente à atual administração. É um governo lento, sonolento, que parece só acordar quando se faz presente nas redes sociais. 

É louvável o esforço dos nordestinos em limpar suas praias, só que não vai adiantar. O desastre ambiental de gigantescas proporções vai afetar a vida marinha e a beleza das praias nordestinas por décadas. Daqui a dez, vinte anos, o turista que visitar uma dessas praias, atingidas pelo óleo, ainda vai sair com a sola do pé suja de piche. São pequenas manchas redondas, meio pretas, meio amareladas. Você demora para limpar. Passa sabão, passa detergente, esfrega, esfrega e a sujeira resiste. 

O desespero que se via no rosto da garota sueca ambientalista, de 16 anos, Greta Thunberg na ONU (Organização das Nações Unidas) resume o problema: a falta de responsabilidade e omissão dos governos em encontrar alternativas energéticas serão fatais. 

Os humanos ainda usam combustível fóssil. Eles sabem que a queima de petróleo afeta o meio ambiente. Provoca aumento da temperatura global e causa desastre climáticos. Não é conversa mole. Milhares de cientistas provaram que o aumento das temperaturas é real e terá consequências assustadoras. Mesmo assim os humanos continuam usando combustível fóssil. Não é só falta de inteligência, é algo mais profundo e danoso. É a pulsão mórbida de destruição, de que fala Freud. 

O Brasil poderia ser um país melhor. Sem carros sujos, sem tanta queimada, sem tanta falta de respeito ambiental. O brasileiro está pouco se lixando que a Amazônia queime. O brasileiro é pobre. É miserável. São 104 milhões que vivem com 413 reais mensais. Esse pessoal está preocupado em comer. Se alguém pagar 50 reais para incendiar a floresta, ele vai pôr fogo no mundo, se preciso for. 

Não adianta chorar sobre óleo derramado. Vamos continuar sofrendo com desastres ambientais por dezenas de anos. Essas tragédias irão se repetir. O enredo será sempre igual. 
Acompanhe:

- Um navio cargueiro naufraga (ou uma plataforma de retirada de petróleo afunda) e derrama óleo no mar;

- O óleo se espalha e atinge as praias, provocando pânico em pescadores, hoteleiros, ambientalistas e moradores. Eles acionam a mídia;

- Os repórteres desembarcam nos locais atingidos. Farão matérias mostrando animais marinhos mortos; vão entravistar locais para saber de que forma suas vidas serão afetadas; vão tentar conversar com o responsável que irá emitir uma "nota de esclarecimento" ou às vezes nem isso; vão atrás de porta-vozes do governo;

- O governo (federal, estadual, municipal) vai fazer de conta que está ajudando, mas sem muito esforço. A classe política só se esforça mesmo quando precisa preservar suas patentes e privilégios.   

O Brasil poderia ser um país melhor, mais limpo, menos tóxico. Só que não. Metade de seus habitantes é miserável. Penso na nossa querida deputada Joice Hasselmann, que ganhou os holofotes da mídia por estar se digladiando nas redes sociais com os filhos do presidente (01, 02 e 03), o que será que ela está fazendo nesse momento para reduzir a desigualdade social no Brasil? 

É importante insistir: são 104 milhões de pessoas vivendo com 413 reais por mês.  Ontem, no programa Roda Viva, Joice batia os cílios postiços cintilantes, exibia o decote generoso, mas não parecia se preocupar com a desgraça maior brasileira, que é a disparidade de rendimentos. 

A mídia também dá pouca atenção para o problema. A gente olha os jornais e os temas em foco parecem tirar nossa atenção para o dano maior, a nossa maior ferida. Fala-se na crise do PSL. Na música, há um conflito entre funkeiros, que eu nunca ouvi falar. Os dados da economia são sorrateiros: dólar acima de 4 reais, cai a arrecadação. 

E aí você pega o carro, circula pela cidade e a miséria fica estampada em cada esquina, em cada olhar, na desgraça urbana que são as favelas, feridas de tijolos avermelhados na carne das metrópoles brasileiras. 

A gente continua como se nada estivesse acontecendo. Lê o "jornal" virtual e fica sabendo que Wanessa brigou com a mulher de Luciano. E, na periferia, a fábrica não escurece mais o dia, como dizia a música. As fábricas estão fechando. A indústria reduziu a rotação, num movimento de devagar, quase parando. 

A gente vai para a praia e sai com os pés sujos de óleo, como se fosse algo inevitável, como se não houvesse solução para as desgraças ambientais. "Bom, não depende da gente. Isso é o governo que vai resolver", você diria. Depende, sim. Só que a gente está muito preocupado com as redes sociais para ir à luta. 

Hoje, em Nova York, a gigante Esso (Exxon, para os americanos) está sentada no banco dos réus, acusada de ocultar dados, para seus acionistas, sobre as consequências das mudanças climáticas, em decorrência da queima de óleo combustível de origem fóssil. É um começo. 

Aqui no Brasil, ficamos à espera da próxima desgraça. E ela virá, esteja certo disso. 
  


quarta-feira, 16 de outubro de 2019

O Facebook me faz uma pessoa pior


O Facebook me transforma. Acordo bem disposto, feliz da vida, o sol brilha, os pássaros cantam e aí abro o Facebook. Como na novela de Robert Louis Stevenson, Dr. Jeckyll vai se transformar em Mr. Hyde. A boa disposição vai embora. Minhas mãos começam a se encurvar. As unhas se transformam em garras. Nascem pelos em abundância no meu rosto e no corpo. Nas costas, se eleva uma corcunda. Começo a babar. Virei um monstro. 

A postagem mostra um grupo de pessoas, todas suadas, debaixo de sol forte no que parece ser uma casa de periferia. Eles vestem bermudas, camisetas e chinelos. O suor brilha e escorre pelas barrigas. Nem leio o tópico. Já vou sentenciando: "Bando de gordo!". Assim, sem mais nem menos. Sem ser politicamente correto: "Bando de gordo!".

A "linha do tempo", como se chama aquela prática de ir descendo pelas postagens, mostra uma velhinha. Alguém deu um presente para ela. Algo do tipo. Penso na hora: "Velhota antipática". E o pior é que ela parece mesmo antipática. Não é a Dona Benta que vai fazer bolinho coberto com açúcar e canela para a gente. Tem jeito daquela velhinha que, quando aparece o filho pra visitar, ela vai logo dizendo: "Escovou os dentes? Põe uma blusa que está fazendo frio. Essa camisa não combina com você". 

Aí vem o pessoal da política. Deus do céu, esses caras são incansáveis. Tem a turma do Bolsonaro que ainda está querendo prender o Lula. Gente, o Lula está preso. Helôôô! O PT perdeu a eleição e vocês ganharam. Comecem a trabalhar. Tirem as pessoas da miséria. Metade do Brasil ganha menos de 500 reais por mês. Não quero mais saber de palanque. Quero que vocês façam qualquer coisa que mude essa desgraceira que o País está mergulhado. As indústrias quebrando. O setor de serviços afundado na crise. Sem dinheiro para educação, sem verba para pesquisa, corte nisso, corte naquilo. E os Alfa continuam comendo lagosta e camarão, andando de carro oficial, com direito a sirene para fugir do trânsito. Os 90 por cento restantes pertencem à casta Épsilon. São os desgraçados de que fala Huxley. Você acha que Huxley exagerava? Se esqueceu que ele previu o nascimento do bebê de proveta em 1931, 47 anos antes do fato real? Exagerava nada, menino. 

E tem o pessoal do outro lado, que é contra o Bolsonaro e seus asseclas... É todo dia postando uma bobagem que a Damares falou. O que vocês querem dessa coitada que vê Jesus em goiabeira? Ela vai falar bobagem mesmo. E o ministro da Educação, nota zero em Sociologia, que comete um erro de português por minuto. É o maior índice de erros de português da história, desde Cabral. Tem a história do Queiroz. Onde está o Queiroz? "Vai perguntar para a sua mãe", respondeu o presidente, educadamente. Todo dia alguém pergunta onde está o Queiroz. A Veja já esclareceu: "O Queiroz mora no Morumbi e se trata no Einstein". Só precisa alguém levar a reportagem até a  Polícia Federal. O Queiroz tem de explicar direitinho essa história da "rachadinha", que envolve o Flávio "01". Sem falar do Moro, o Batman, que a Vaza Jato transformou em Coringa.

E aquele pessoal que quer causar inveja? Outro dia uma amiga postou: "Estou aqui na Padaria Bella Paulista. Uma delícia!". O monstro que habita em mim, quando entro no Facebook, escreveu, de forma ríspida e malcriada: "Estive aí no domingo. Eles me serviram um croissant, cortado ao meio. Frio e molenga. Na França, o chef da Bella Paulista seria decapitado, por causa desse crime contra o croissant". 

Os algoritmos do Facebook, por algum defeito genético, têm certeza que sou um frequentador assíduo de hípicas e que não posso passar um dia sem montar em um cavalinho. Gente, tenho medo de cavalo. Nunca andei a cavalo na vida. Nem sei como se sobe naquilo, que eles chamam de sela. Mesmo assim, todos os dias, não falha um singular dia, o Facebook me manda imagens e vídeos de cavalos. São cavalos felizes, que saltam e pulam e se alimentam regularmente.

Um amigo, que nunca assistiu a uma luta de MMA, nem nunca irá assistir, recebe também diariamente notícias sobre lutadores de MMA. Há algo de podre no reino dos algoritmos, diria Shakespeare, se, quando vivia, houvesse redes sociais.   

E as pessoas felizes? Elas estão sempre sorrindo, contentes. O meu monstro olha para elas e grita: "Está rindo do que, babaca? Vai andar de metrô e de trem da CPTM do Doria pra ver o que é bom pra tosse".

Sem falar dos cachorrinhos, dos gatinhos, dos peixinhos, todos eles engraçados, meigos, despertando meu monstro que geme entredentes: "Vou mandar vocês pra China". Esse país asiático, como se sabe, volta e meia, promove festivais de consumo de carne de gato e cachorro.  

Então, quando saio da rede social, apago o Facebook, começo a sentir uma metamorfose humanitária. Os pelos que cresceram em profusão desaparecem. As garras viram unhas normais. A corcunda de Quasimodo fica reduzida ao bico de papagaio normal que tenho nas costas. A baba seca. Saio na rua e sorrio para as crianças. Levo meu cachorro passear. Se me pedem informação, trato com carinho e atenção. Aproveito o sol, a chuva, a garoa, o vento. Aceno para os vizinhos. No armazém, brinco com as atendentes. 

Então, ao retornar para casa, ao abrir novamente o Facebook, nada poderá evitar o ressurgimento do monstro. 

Por falar nisso, por que você não desliga essa m...e vai ler um livro, filhote de Netflix.  

Por trás do ódio, uma grande reportagem

"Ela queria dar o furo. Ela queria dar o furo", disse o presidente Jair Bolsonaro, enquanto as pessoas em volta riam, divertida...