terça-feira, 9 de abril de 2019

Os comunistas estão na ordem do dia


Os comunistas estão na moda. Nunca se falou tanto em comunismo e comunistas como agora, em 2019. No século passado, em 1946, durante a Assembleia Constituinte, o Brasil contava com 14 deputados comunistas - entre eles, o escritor baiano Jorge Amado (eleito por São Paulo). 

Luiz Carlos Prestes (1898-1990), senador pelo Partido Comunista Brasileiro, era sua liderança mais carismática e mitológica. Prestes ficaria apenas dois anos no Senado, tendo seus direitos cassados. As eleições de 1946 foram, talvez, o apogeu do PCB, o Partidão, no Brasil.

De lá para cá, o Partidão só tem perdido espaço político. Em outubro do ano passado, os jornais noticiaram que o PCB e o PC do B (Partido Comunista do Brasil) entrariam na "cláusula de barreira". Sem o total de parlamentares eleitos, exigido pela lei eleitoral, ficariam sem tempo na TV e sem a grana do fundo partidário.

Para um observador com recursos parcos de inteligência, isso seria um indicativo que os partidos comunistas registrados no Brasil estariam enfrentando séria crise existencial. 

Mas, para o governo Bolsonaro, os comunistas estão na ordem do dia. Tem comunista em tudo quanto é lugar. "Olha lá, atrás daquela porta...Um comunista escondido". Tem comunista em banco, em grandes empresas. Tem comunista até dono de jornal. Acredite...

O discurso do novo ministro da Educação, Abraham Weintraub (pronuncia-se Vaintraubi), segue nessa linha. Weintraub enxerga comunas em monopólios, instituições financeiras e - pelo que se depreende de sua fala - os esquerdistas estão localizados, principalmente, dentro das grandes empresas jornalísticas. 

Assim, de acordo com Weintraub, João Roberto, José Roberto e Roberto Irineu - filhos herdeiros do poderoso magnata da mídia brasileira Roberto Marinho – seriam “comunistas”, comandando a Rede Globo, tendo um patrimônio de 29 bilhões de dólares, segundo a revista Forbes.

Também seriam “comunistas” Johnny Saad (Bandeirantes), Luiz Frias (Folha de S.Paulo), a família Mesquita (Estadão), a família Sirotsky (Grupo RBS).

O comunismo, como se aprende no Ensino Fundamental, é estatizante. Grandes empresas, monopólios, bancos, tudo isso deixa de pertencer a seus sócios, suas famílias, e passa para o controle do governo (comunista). Depois da Revolução Russa, em 1917, não havia mais industriais, banqueiros, fazendeiros. Existia apenas o controle dos meios de produção pelo estado bolchevique.

Seguindo o raciocínio do novo ministro da Educação, as famílias Frias, Marinho, Mesquita, Saad, Sirotsky, fariam parte de um majoritário plano marxista/bolchevique que visaria dar um tiro em seus próprios pés, entregando suas propriedades e suas fortunas de características planetárias para o estado comunista. Assim, eles ficariam de mãos abanando, indo trabalhar, quem sabe, em uma fábrica de automóveis New Trabant.

Faz algum sentido essa ladainha?

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, radicado na Alemanha, onde leciona na Universidade de Berlim, escreve em seu livro Sociedade do Cansaço sobre as enfermidades que marcaram as épocas da humanidade.

Até o século 20, vivia-se o temor das epidemias virais e bacteriológicas. Descobertos os antibióticos, afastados os riscos das pandemias, entramos no século 21 em que prevalecem as doenças neuronais, como depressão, transtorno de déficit de atenção, transtorno de personalidade limítrofe, síndrome de burnout.

“O século passado foi uma época imunológica. Trata-se de uma época na qual se estabeleceu uma divisão nítida entre dentro e fora, amigo e inimigo (...) Mesmo a Guerra Fria seguiu esse esquema imunológico”, escreve Chul Han.

O governo Bolsonaro e seus ministros do calibre de um Weintraub frequentam os anos cinzentos da Guerra Fria. Para eles, os comunistas são o inimigo a ser derrotado. 

Eles continuam imersos na “época imunológica”. Seus discursos são antigos, seus inimigos foram desgastados pelo tempo, sua visão de mundo é velha. Eles pertencem ao século 20. Aos anos 50 do século 20. Ainda não chegaram na Revolução Estudantil de maio de 1968. Não viveram a liberação sexual dos anos 60. É um pessoal que usa um vocabulário secular, ultrapassado.

O Brasil, entra século e sai século, sempre retorna a esse jogo mentiroso. Em 1964, os militares derrubaram o governo João Goulart, em razão da “ameaça comunista”.

Goulart era proprietário rural. Ele faria a Revolução Comunista e entregaria seus 14 mil hectares de terra e suas 30 mil cabeças de gado, que pastavam nos pampas de São Borja (RS), para os bolcheviques tupiniquins?

Em 1989, na primeira eleição para presidente que participou Luiz Inácio Lula da Silva pelo PT, seus adversários o chamavam de “comunista”.

“Não vamos deixar os comunistas vencer”, gritavam os partidários de Fernando Collor de Mello, diante dos colégios eleitorais.

Durante o governo Dilma, lembro de um amigo de infância, apavorado, me informando que vivíamos sob uma “ditadura comunista”.

Até quando vamos aturar tanta ignorância? Não é uma ignorância do não saber, do desconhecer, mas uma ignorância forjada, proposital, que visa a confusão, que cria “inimigos bacteriológicos” e os chama de “comunistas”.

Precisamos de palavras novas. Sinceramente, precisamos também de um novo governo, sem esses discípulos de Olavo maluquete de Carvalho, e por aí afora.


   
      

  

segunda-feira, 25 de março de 2019

É fogo na favela


A última favela a pegar fogo em São Paulo ficava no bairro da Mooca. Os barracos situavam-se na beira do asfalto. Estendiam-se horizontalmente pela rua Pires do Rio até o viaduto Bresser. Um homem morreu e um suspeito de atear o fogo foi preso. 

Pessoas que passavam pelo local comemoraram o incêndio. Buzinavam os carros. Ouviam-se gritos de felicidade. A favela estava em chamas. Finalmente, alguém tinha dado um jeito naquilo. 

Não é fácil você trafegar todo dia pela Radial Leste e dar de cara com aquela monstruosidade urbana. Barracos horrorosos grudados uns aos outros. Gente pobre e miserável se arrastando por ali. Dá uma sensação ruim. Parece que a cidade falhou, que nós, cidadãos, falhamos também em algum momento. 

Por isso, o incêndio foi libertador. Nos livramos daquele entulho urbanístico. Expulsamos, indiretamente, aquele monte de "vagabundos", como gritou alguém que passava de carro pelo local na hora do fogaréu.

Foi um fogo bom. Libertador! Parente, talvez, daquele mesmo fogo que reduziu a cinzas Sodoma e Gomorra, cidades onde, de acordo com a tradição bíblica, "habitava o pecado".

Será que sempre fomos assim? Cínicos? Será que em outros tempos, em outros anos, quem sabe nos anos 50 pré-industrialização, pré-internet, as pessoas que estivessem passando pelo local não teriam parado seus carros e corrido em direção às chamas para tentar ajudar os favelados? 

Onde foi parar a fraternidade, a cortesia, o amor ao próximo? Que gente é essa que comemora morte e destruição? Que raça de desgraçados infelizes estamos produzindo nesse país? Onde esses imbecis estudaram? Quem são seus pais, seus avós? Que herança abjeta é essa? Que DNA podre é esse que produz gente tão insensível e cruel?

A melhor pista para entender a fábrica que vomita esse tipo de gente vem de cima. O governo (em todas as suas esferas) trata mal as pessoas. Não há carinho. Não há empatia. As forças políticas são conservadoras e alinham-se para preservar privilégios. O Brasil é campeão em desigualdade social. O número de pobres cresce. Os salários são ridículos e ninguém parece se importar muito com isso. 

Um dos moradores da favela que pegou fogo disse que ganha R$ 800,00 por mês, como estivador. Ele carrega sacos de cimento para a fábrica que fica ali perto. Por isso, a favela destruída também era chamada de "favela do cimento". 

Como um industrial consegue pagar R$ 800,00 para um trabalhador e dormir bem à noite? O que uma pessoa consegue fazer com R$ 800,00 por mês? Como se vestir, pagar aluguel, comprar comida com essa miséria de salário? 

Para aqueles céticos que dizem que "não tem jeito", que "nada muda", a humanidade coleciona casos de países bem-sucedidos, cujos governos tratam seus cidadãos com muito mais carinho do que as autoridades encasteladas em Brasília, onde mora o verdadeiro Darth Vader.

Tem um país que, desde 1930, quando nasce uma criança, os pais recebem de presente uma bela caixa de papelão, recheada de roupinhas, fraldas, brinquedos, artigos de higiene e livros infantis. 

A caixa é tão boa e resistente que pode ser usada como berço. Nesse mesmo país, a mãe (ou o pai) pode ficar em casa, cuidando do recém-nascido por três anos. Três anos! E o governo paga um salário decente para o pai ou a mãe que for cuidar da criança. 

É um país com índice baixíssimo de corrupção, com empresários empreendedores e inovadores. Várias avaliações o consideram "o melhor do mundo em educação" e um dos países em que "as pessoas são mais felizes". 

Como a caríssima leitora deve ter adivinhado, estou falando da Finlândia, país com pouco mais de 5 milhões de habitantes. 

Sabe qual foi a receita para a Finlândia sair da miséria e encabeçar os rankings de melhores em tudo? 

- Igualdade e investimento pesado em educação. 

Enquanto isso, aqui no Brasil, os muito ricos são prisioneiros de condomínios superprotegidos e prédios envidraçados, fazendo o possível para manter a desigualdade social, enquanto contam as horas e os minutos para o avião decolar com destino a Miami. 

"É fogo na favela. Pena que não seja em todas as favelas. Pena que o fogo não aniquile todos os pobres e miseráveis", devia estar pensando aquele tipo cordial, discípulo de Lord Vader, que comemorou a destruição dos casebres dos "vagabundos".  
     

  


segunda-feira, 18 de março de 2019

Prefeituras preguiçosas, concessionárias incompetentes, reestatização e salve-se quem puder

Não sei onde é, mas a minha rua é igual 


Você sabe que está no Brasil ao trafegar pelas ruas de suas cidades. Sobram buracos, espalham-se armadilhas invisíveis, imperam o descaso, a omissão, a ausência do poder público. 

Fico pensando o trabalho que deve dar ser eleito prefeito de algum burgo... 

Precisa fazer campanha, correr atrás de eleitores, pegar criancinha chata no colo, comer coxinha de boteco. Não é para qualquer um. O sujeito tem que ter muita disposição e foco. 

Na primeira semana, eu já desistia. Os eleitos vão em frente. Conseguem os votos necessários. Sentam naquela cadeira, onde está escrito "prefeito" e...

O que será que eles ficam fazendo o dia inteiro?  

No meu dia a dia, sou obrigado a trafegar por ruas e avenidas da região metropolitana de São Paulo, inclusive dentro da própria capital. E todos os dias me pergunto o que esses prefeitos preguiçosos ficam fazendo que não conseguem o mínimo, que é fazer a manutenção das ruas. Se fizessem só isso, já seria uma realização notável.

Não queira estar no meu lugar, caríssima leitora, nem pense em circular de carro por cidades como São Paulo, Carapicuíba, Cotia, São Bernardo, Santo André, Osasco, Diadema. É deprimente topar com tanta irresponsabilidade do poder público. 

Caro prefeito, será tão difícil assim asfaltar uma rua? Tapar buraco? Refazer o asfaltamento? Manter as ruas sinalizadas, iluminadas, adequadas do ponto de vista da cidadania?

São anos e anos convivendo com essa tragédia. Sim, é também uma tragédia você pagar seu IPTU, seu IPVA, e não receber a retribuição mais elementar que é a garantia de trafegar com segurança e tranquilidade. 

Todos os dias caio em buracos. Buracos grandes, imensos, pequenos, médios, de grave e baixa intensidade. Buracos, buracos e buracos... Não é só na época de chuva, não senhora. Os buracos estão ali nas quatro estações do ano. 

Em Sorocaba (SP), moradores têm sinalizado os buracos da cidade com a foto do prefeito José Crespo (DEM), em plaquinhas (ver abaixo).


Em Sorocaba, moradores colocam fotos do prefeito nos buracos

Não adianta falar em privatizar a prefeitura, porque estamos até aqui desses serviços públicos privatizados, que prestam um lamentável serviço à população. 

A Enel (a nova Eletropaulo) é incapaz de manter por uma semana inteira - de domingo a domingo - a luz. Quase todo dia, acontece uma falha, uma queda súbita no fornecimento de energia. 

A CPFL, no interior, é uma bagunça. Você paga a conta e eles mandam avisar que a conta não foi paga. Envia o comprovante e eles não respondem. 

De onde veio tanta gente incompetente assim? 

Veio da privatização, da entrega dos serviços públicos a gente incapaz de fazer o que se espera deles. Na Europa, já se aplica a reestatização, por motivos óbvios: a empresa privada presta um serviço imprestável. 

Trafego também pelo Rodoanel Mario Covas, caríssima leitora. Para ter direito a isso, sou obrigado a pagar pedágio. Na ida e na volta, gasto 11 reais e oitenta centavos para dirigir em ritmo de rally, desviando da buracada. É buraco na ida e buraco na volta. 

As concessionárias (CCR e SPMar), que administram a buraqueira,  não são incomodadas. Os fiscais da Artesp (Agência de Transporte do Estado de São Paulo) estariam dormindo? Basta dar uma volta pelo Rodoanel e constatar a buraqueira, a ausência de serviços elementares de manutenção. 

Vamos enviar despertadores, daqueles antigos que faziam um barulho desgraçado, para acordar a fiscalização da Artesp.  


Acorda, Artesp!!!


Ontem, naquela chuva implacável, achei que o pneu tinha furado. Parei o carro no acostamento e - surpresa - fiquei ensopado até os ossos e os pneus estavam nos conformes. O falso barulho de pneu furado era mesmo o piso defeituoso do Rodoanel. 

Se fosse colocar fotos do governador João Doria (PSDB) em todos os buracos do Rodoanel, acho que ficaria mais barato asfaltar os 172 quilômetros da rodovia. Haja foto do Doria para tanto buraco. 

A rua onde moro na Granja Viana é de terra. Gosto que a rua seja de terra. Durante o verão, não transmite calor como o asfalto. Gosto desse jeito rústico de morar. Só não acho legal a prefeitura não fazer a manutenção das ruas. Quando a situação torna-se limite, com buracos, lama, deixando as vias intransitáveis, é preciso implorar para as "autoridades competentes":

"Por favor, passem uma máquina na nossa rua, que aliás nem é mais rua, é só buraco".  

Como se a gente morasse de graça... 

Aliás, como estamos no mês de março e o carnê do IPTU não veio, acho que a prefeitura entregou os pontos. "Vamos parar de fingir, pessoal. Não temos capacidade de arrumar e iluminar as ruas. Por isso, não vamos mais cobrar IPTU. Fica por conta de vocês agora. Boa sorte".

E salve-se quem puder.  

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Enel abandona seus clientes no escuro

A empresa italiana Enel comprou a Eletropaulo

13 de fevereiro: 11h30. Sala de Audiência de Conciliação. Personagens: o reclamante (eu), a advogada da reclamada (Enel) e a juíza. 
Por que estou nesta sala?
Em 2018, caiu um galho sobre a fiação elétrica da rua onde moro. Minha casa tornou-se uma usina de voltagem enlouquecida. As lâmpadas explodiam. Os fios esquentavam e o meu computador derreteu.
Pedi ressarcimento à Eletropaulo, que não quis pagar o prejuízo. Por isso, entrei com um processo contra a empresa. Em junho do ano passado, a Eletropaulo foi vendida à Enel.

Agora, estamos ali na sala de audiência. A juíza pergunta à advogada da Enel se ela tinha alguma oferta a ser feita, se iria ressarcir meu prejuízo. A advogada diz que não e se cala. O processo vai seguir, sabe Deus até quando. Vamos todos ser intimados novamente. O Processo, de Kafka, sorri para mim.

Depois de um ano, a Justiça não foi feita. Não recuperei o dinheiro gasto por incompetência da concessionária de energia. O pior: descobri que a Enel consegue ser pior que a Eletropaulo.  A Enel é uma colecionadora de falhas, de interrupções e presta um serviço precário e incompetente à população.

Leia alguns relatos que peguei aleatoriamente na rede social:

"Quem pode nos ajudar? Às 13h, chegaremos ao terceiro dia sem energia. A resposta da Enel é que estão trabalhando para restabelecer. O problema é local. Trata-se de um disjuntor de poste. Serviço rápido e fácil. Temos cinco protocolos abertos, mas sem efeito, por enquanto".

"Minha mãe mora no quilômetro 28 da Raposo Tavares e está há três dias sem luz. Sem resposta e sem atenção alguma. Não sabemos mais o que fazer".

"Ficamos 18 horas sem energia."

"Fiquei sem energia desde segunda-feira. Descobrimos que a Enel apaga os protocolos do dia. Um descaso total. Entraremos com processo".

"Gente, está ficando ridículo essa nova empresa Enel, que comprou a Eletropaulo. Além da falta constante de energia, que já virou ortina, me encontro hoje há três dia sem luz e sem previsão de retorno".

"É revoltante pagar uma fortuna e se deparar com uma situação dessas".

"Devo ter uns 20 protocolos de reclamação. Toda hora é uma previsão diferente para a normalização da energia. E agora nem previsão de restabelecer a luz eles têm mais".

"É degradante. Estamos largados às traças. Não tem nenhuma autoridade para cobrá-los ou puni-los. A nossa comida estragada na geladeira é o prejuízo só nosso. Pessoas com medicamentos caros, que dependem da geladeira para mantê-los...É lamentável".

"Parte do Distrito de Utinga sem energia elétrica há 24 horas..."

O que diz o governador João Doria a respeito? O que o secretário de Energia do governo do Estado, Marcos Penido, tem a dizer? Por que cargas d´água ninguém cobra Doria e Penido? 

Com a palavra, os batedores de panela...

    
  

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Nem tão ruim, nem extraordinário, Green Book segue a cartilha

Viggo Mortensen e Mahershala Ali são os protagonistas de Green Book
Li artigos demolidores sobre o filme ganhador do Oscar, Green Book. São críticas que buscam muito mais chamar a atenção do leitor para o texto (e indiretamente para seu autor) do que, propriamente, fazer uma análise imparcial do filme. Um crítico qualificou Green Book como "o pior ganhador do Oscar". A maioria foi nessa linha destemperada.

Quem fizer uma análise equilibrada dos ganhadores do Oscar vai entender que estava na cara que o filme iria levar a estatueta. A academia de Hollywood não gosta de surpresas. Costuma seguir a cartilha convencional. Se Conduzindo Miss Daisy ganhou o Oscar em 1990, era mais do que normal que Green Book (um Miss Daisy com o farol invertido) fosse o ganhador. 

Dirigido por Peter Farrely e protagonizado por Viggo Mortensen e Mahershala Ali, Green Book conta a história de um pianista negro que contrata um motorista italianão para conduzi-lo Estados Unidos afora, durante uma turnê. 

Em Conduzindo Miss Daisy, uma senhora tradicional tinha como motorista um negro (o excepcional Morgan Freeman). Como se vê, o roteiro de Green Book fez um 69 com os personagens. 

Green Book está longe de ser um filme chato, que a gente não tem paciência de assistir até o filme, como é o caso de Roma, do mexicano Alfonso Cuarón. 

A direção de Peter Farrely é impecável. A gente nem lembra que Viggo Mortensen é o Aragorn de Senhor dos Anéis. Ele parece mesmo um italianão grosseiro, disposto a encher de porrada alguém que lhe chame de carcamano. 

Mahershala Ali, que se destacou em House of Cards como um consultor arrivista, vai bem na pele do pianista excêntrico, que viaja no banco traseiro do cadilac, com as pernas cobertas por um cobertozinho protetor. 

A reconstituição de época (o filme se passa em 1962) é detalhista, rigorosa e cede até espaço para um merchant sutil do KFC. Nada grosseiro e varejão ao estilo Milton Merchant Neves.

Ao longo dessa vida de filmes e estatuetas, já vi muito abacaxi levando prêmio. Entre Dois Amores, vencedor em 1986, é talvez um dos filmes mais chatos e arrastados que tive o desprazer de assistir, em uma época que estava no papel de crítico de cinema. 

Nesse tempo, passava as tardes em salas escuras, assistindo filme atrás de filme. Era estranho: quando saía da sala, topava com a luminosidade da vida lá fora. Um choque de realidade.

O musical Chicago, ganhador em 2003, também me traz recordações de muita dor e sofrimento. Sabe aquela hora que você não tem mais posição na poltrona do cinema? As pernas doem. Não consegue mais cruzá-las e descruzá-las. O corpo começa a formigar. Os olhos começam a se fechar contra a sua vontade...

Argo, premiado em 2013, dirigido e interpretado por Ben Affleck, é o mais Sessão da Tarde dos ganhadores da geração millennial. Mas nada se compara ao chatíssimo, interminável e claustrofóbico A Forma da Água, que levou a estatueta no ano passado. Este último, felizmente, não precisei assistir até o final.     






  

    

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Ainda bem que Roma não levou o Oscar de melhor filme


Sinto antipatia pelo filme Roma, escrito, dirigido e produzido pelo cineasta mexicano Alfonso Cuarón. Já sabia o que me aguardava, quando entrei na Netflix e comecei a assistir este drama sobre uma empregada doméstica de origem indígena, vivendo na casa de uma família de classe média alta, no bairro Colonia Roma, na cidade do México. 

Durante longas duas horas e 15 minutos, acompanhamos a vida de muito trabalho e poucas alegrias da doméstica Cleo, que tem uma relação de irmã mais velha com os filhos de seus patrões. É ela quem cuida das crianças, que conta histórias na hora de dormir e que os acorda de manhã. 

Na prática, Cleo é uma Escrava Isaura, que não ganha o suficiente para se manter (alugar um apartamento, comprar um carro, cursar a faculdade), assim como acontece com grande parte dos trabalhadores brasileiros, sejam eles empregados domésticos ou não.

O filme não permite ao público nenhum tipo de evasão. Tobey Maguire não entrará voando pelo janela, vestido de Homem Aranha, para salvar Cleo. Também Michael Fox e Christopher Lloyd não virão do futuro e não arrombarão a porta da casa, com seu DeLorean, para resgatá-la. Desde o início do filme, a gente pressente que o destino de Cleo será medíocre e inexorável.

Para deixar claro a que veio, o filme é em preto e branco. Remete, é claro, ao neorealismo italiano. Em 1948, Vittorio De Sica dirigiu o filme clássico dessa época - Ladrões de Bicicleta -, que era em preto e branco. Na época, o processo de colorização do celuloide ainda encarecia de maneira proibitiva as produções cinematográficas. 

Ladrões de Bicicleta se passa no pós-guerra, em Roma, quando havia milhões de desempregados nas ruas. O protagonista consegue uma colocação de pregador de cartazes. Para manter o emprego, precisa de uma bicicleta. Ele penhora a roupa de cama da família. Arruma uma bicicleta e começa a trabalhar. O veículo é roubado. Ele e o filho iniciam um desesperado perambular pelas ruas da cidade, em busca da bicicleta roubada. O filme é emocionante. Impossível não se sentir tocado pela interpretação dos atores. 

Vittorio De Sica contou certa vez que para filmar a cena final necessitava que o garoto Enzo Staiola chorasse. Sem chance. O menino não chorava. De Sica teve então uma sacada. Escondeu um pacote de cigarros no bolso do paletó do garoto e o acusou de estar fumando em segredo.

Enzo disse que os cigarros não eram dele, que não sabia como o pacote tinha ido parar em sua roupa e...começou a chorar. Sem perder tempo, De Sica ligou as câmeras, os holofotes e gravou a última sequência de Ladrões de Bicicleta. Filme memorável, inesquecível, mesmo sendo em preto e branco. 

Hoje, Enzo iria processar De Sica por assédio moral. 

Talvez a minha antipatia por Roma, de Alfonso Cuarón, seja por essa rastejante vontade de criar empatia pelo sofrimento dos menos favorecidos, dos miseráveis. 

Acontece o mesmo com os filmes de Walter Salles. Refiro-me a Central do Brasil (1998) e Linha de Passe (2008). Linha de Passe, por exemplo, é um filme sobre fracassados. Ninguém ali vai ter sucesso, ninguém conseguirá realizar seus sonhos. A família de Linha de Passe terá 113 minutos para afundar lentamente seu barquinho, submergindo todos no naufrágio previsível.

É possível criar essa mesma empatia pelo destino dos despossuídos usando a evasão, que a gente tanto procura quando vai ao cinema. Woody Allen fez isso em Rosa Púrpura do Cairo

A garçonete pobre, que sustenta o marido grosseiro e incompetente, durante a depressão de 1935, tem raros momentos de felicidade. Um deles é quando está no cinema, assistindo aos filmes B de Hollywood. Seu filme preferido é Rosa Púrpura do Cairo. Ela assiste ao filme tantas vezes, mas tantas vezes, que, em determinado momento, o personagem não aguenta mais, se volta para ela e começa a interagir com a garçonete pobre. Ela terá chance de entrar dentro do seu filme favorito e até se apaixonar pelo protagonista.

Apesar da minha torcida contra, Roma levou três Oscar: melhor direção, melhor fotografia e melhor filme estrangeiro. Com a estatueta na mão, Cuarón fez o que se esperava dele. Discursou em defesa das "70 milhões de empregadas domésticas sem direitos trabalhistas". 

A cerimônia do Oscar é uma das muitas maneiras que Hollywood encontrou para divulgar e promover a venda de seus produtos. Cuarón é uma velho conhecido da casa, tendo sido contratado pela Warner algumas vezes, levando em 2013 o Oscar de melhor direção por Gravidade.

O premiado Roma, de Cuarón, não é um desses filmes que a gente gostaria de rever, de retornar a ele. Quanto terminam as intermináveis duas horas e 15 minutos de sua duração, a gente levanta as mãos aos céus em agradecimento. Terminou. Ainda bem. Dá alívio desligar a TV e a Netflix.

Outro filme que também se chama Roma foi feito por Federico Fellini, em 1972. Este Roma eu, certamente, teria muito prazer em rever. Faz muito tempo que assisti Roma de Fellini no falecido Cine Bijou, que ficava na Praça Roosevelt, centro de São Paulo. Devo ter assistido ao filme de Fellini em 1973, há inacreditáveis 46 anos. Só o vi uma única vez e saí da sala de exibição iluminado. 

Quatro décadas e seis anos depois, lembro, perfeitamente, de várias cenas. O jovem caipira Fellini desembarcando em Roma na estação Termini. Um desfile muito louco de moda para padres, bispos e cardeais. Uma obra subterrânea (provavelmente, devia ser o metrô) encontra um tesouro arqueológico e os afrescos começam a se desfazer em contato com a modernidade. Hippies tomam banho nas fontes milenares romanas. Um congestionamento monstro em meio ao trânsito enlouquecido. A chuva de verão tombando sobre uma movimentada artéria da capital italiana. O bordel antigo com as prostitutas andando de um lado para o outro. A então esposa de Fellini aparece, chegando cansada do trabalho e tentando entrar em casa. O final antológico com as motocicletas - milhares delas - correndo livres e soltas pela Roma, cidade eterna. O filme é monumental, como Fellini o era. 
           

     

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Quando as palavras vão para o passado


Às 7h30, costumo ligar o rádio na frequência 96.9 da BandNews FM. É a hora que o âncora Ricardo Boechat faz seu editorial. Com todas as implicações e vetos que a gente sabe que existem nas grandes mídias, ele costuma usar o mesmo pau para "bater em Chico e Francisco", segundo expressão que gosta de usar. 

Talvez porque sejamos da mesma geração, talvez porque tenhamos vivido experiências semelhantes e suportado, como jornalistas, os horrores da Ditadura Militar,  quase sempre concordo com tudo que ele diz.

Sou uma pessoa introvertida. Não me dou bem diante de um microfone, nem de uma câmera. Por isso, quando Boechat está fazendo seu editorial matutino, é como se fosse ele a minha voz. Gosto do jeito sincero dele. Gosto da pouca paciência que ele tem ao se defrontar com uma declaração descabida ou incompreensível. 

Outro dia, ele confessou que não gosta de escrever. Sente muita dificuldade em produzir textos. Demora muito, por exemplo, para produzir um prefácio. Mas essa dificuldade com a palavra escrita é compensada pela tranquilidade diante da câmera e do microfone. As palavras lhe vêm, normalmente, sem que ele precise se esforçar para isso. É um dom. Um talento natural, que ele explora de maneira inteligente e didática.

Agora, esse texto, escrito no presente, precisa mudar sua temporalidade. As palavras devem ir para o passado. "Gostava do jeito sincero dele", "gostava da pouca paciência"...E isso me causa uma tristeza imensa.

Eram 12h10, quando um ouvinte informou sobre um acidente de helicóptero, que havia ocorrido próximo do Rodoanel. Como uso com frequência essa rodovia, fiquei atento ao desenrolar do noticiário. A aeronave havia caído próximo ao km 7 da Anhanguera. Duas vítimas fatais eram confirmadas...

Entre 1977 e 2005, trabalhei em jornais e revistas. Cobri debates, posses históricas, discursos memoráveis, mas, infelizmente, nunca cheguei a cruzar com Boechat. Não tenho uma história, uma curiosidade para contar sobre ele. Houve apenas e-mails que troquei com ele, sugerindo determinadas coberturas de eventos. Sempre me respondia, como devia fazer com todos os ouvintes que se comunicavam com ele. 

Era seu ouvinte, há pelo menos uns 10 anos. Acredito que, desde 2008/2009, sintonizava a BandNews FM para ouvi-lo. Gostava da forma como ele transformava o rigor jornalístico em algo coloquial e próximo do mortal comum. 

Em suas férias, ao ligar o rádio, sentia falta dele. A manhã não começava bem. A emissora compensava a falta de seu principal âncora, trazendo convidados. Não funcionava. Ele parecia personificar a rádio. 

Certa vez, fui agredido, durante uma cobertura. Foi bem no início da profissão. Era um foca, em busca de holofote. Quando entrei no jornal, o diretor de Redação me deu uma dura: "Jornalista traz a notícia. Jornalista não é a notícia". 

Essa lição guardei comigo até o último dia em que frequentei uma Redação. Hoje, sinto a boca amarga ao me defrontar com a notícia de um jornalista virando notícia da pior maneira possível. 

Leio os textos de colegas de emissoras rivais e a gente percebe que Boechat era uma unanimidade. Respeitado, elogiado, repórter até a medula, ele vivia a profissão intensamente. Era contagiante. 

No meio do noticiário, entre as mensagens de pesar que chegam nos grupos que frequento, só consigo sentir uma aflição egoísta. O que vou fazer amanhã, às 7h30, na hora de ligar o rádio?    

    


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Concessionárias prestam péssimo serviço à população



Sexta-feira, 25 de janeiro. Uma descarga elétrica irrompe dentro de casa e derrete o modem. Ligo imediatamente para a Vivo. A atendente diz que um motoboy irá trazer o modem "em cinco dias úteis". Digo que não posso esperar tanto tempo, que tenho trabalhos para entregar e dependo da internet para a transmissão de dados. Ela ouve e responde: "o motoboy irá levar o modem em cinco dias úteis". A conversa acaba em bate-boca. Eu digo que preciso urgente do modem e ela, como uma máquina ranzinza, repete o bordão: "cinco dias úteis"...Nos próximos dias, a Vivo irá me ligar várias vezes ao dia. Não é uma pessoa, mas uma gravação eletrônica, afirmando que "o problema foi resolvido". Porém, "caso não tenha sido resolvido"...Como assim? Que empresa maluca é essa? Foi ou não foi resolvido? Ligo para a Vivo uma, duas, três, quatro, cinco...Várias vezes...Os atendentes prometem que um técnico irá aparecer entre 8h e 12h do dia seguinte...Terminado o prazo, sem que o técnico tenha dado as caras, ligo novamente para a Vivo. A atendente, parecendo genuinamente surpresa, "o técnico não apareceu?". Ela me pede uma nota para o atendimento...Bem, o atendimento merece nota zero, porque não fui atendido. Estou sem o modem, impedido de trabalhar. Parece uma engrenagem sem controle, ineficiente; lembra um carro desgovernado, sob o comando de um motorista que acabou de ter um enfarte fulminante. À noite, durante o jantar, fico ruminando, como é complicado para o cidadão comum ser refém desse tipo de gente.    Na segunda-feira cedo, ligo para um amigo e ele me traz um modem reserva, instala o equipamento e faz a configuração. A internet passa a funcionar normalmente.E a Vivo? Quando menos se espera, na quarta-feira, aparece o técnico bonachão e instala o modem. Com a Eletropaulo foi pior. Em 2018, caiu um galho sobre a fiação e a energia enviada para dentro de casa era de 220 volts. Você acendia a lâmpada e ela ficava mais clara que o sol até explodir. Uma correria para desligar tudo que podia estar na tomada. A espera pela equipe de reparação levou 28 horas. Quando a energia foi restabelecida, descobri que o computador estava queimado. Entrei com pedido de indenização. A Eletropaulo negou-se a pagar. O caso foi parar no tribunal de pequenas causas. Dia 13 de fevereiro próximo, temos audiência. Um ano e lá vai pedra depois do ocorrido.A Sabesp...Essa Sabesp...Acordei cedo. Entrei no banheiro. Abri a torneira para lavar o rosto e...Nada! Torneira seca. Fiquei que nem um zumbi, imaginando que seria algum problema com a boia ou teria esquecido de pagar a conta e a Sabesp cortara o fornecimento? Ligo para a Sabesp. A atendente diz que o problema é localizado. Apenas na minha casa e que ela irá enviar uma equipe para verificar a origem do problema. Inconformado, pego o carro e vou até o Poupatempo, onde a Sabesp tem uma representação. Lá, me dizem que o problema talvez seja "em todo o bairro". Falo com uma pessoa que mora em São Paulo, ao lado de uma agência grande da Sabesp. Ela vai até lá e vem com uma terceira informação: a Sabesp está realizando uma grande obra na região e vários bairros estavam sem água, há vários dias. A previsão é que o serviço seria normalizado no início da noite. Foi o que de fato ocorreu. Conclui-se que, a exemplo da Vivo, a Sabesp também parece um carro desgovernado. Em nenhum momento, a Sabesp me avisou que iria cortar o fornecimento. Simplesmente, esgotei as reservas das duas caixas d'água até ficar sem uma gota em casa. Um pesadelo! E a Sky...Como se esquecer da Sky...Fiz uma recarga do serviço pré-pago, em uma lotérica, e a Sky entendeu que se tratava de uma assinatura anual. Sem os canais que tinha pago, sem entender o que estava acontecendo, liguei para a Sky e a atendente disse que eu havia comprado uma assinatura anual e que apenas no próximo ano poderia fazer algo a respeito. Com tanta tecnologia, com tanta facilidade, com tudo sendo resolvido em meia dúzia de toques no celular, a Sky nada poderia fazer. "O senhor espera até o ano que vem e depois vem falar com a gente". O comerciante que me vendeu o equipamento pré-pago disse que isso ocorria quase sempre. "Em geral,  a pessoa compra outro aparelho e joga fora o que está comprometido", ele sugeriu.  Reclamei para tudo quanto foi órgão de atendimento ao consumidor. Procurei até a Anatel. Depois de engolir vários sapos, finalmente, a Sky colocou as coisas no eixo. O fato é que essas empresas de atendimento de massa estão completamente perdidas. O consumidor é mal atendido. Os problemas ficam pendentes, como roupas em uma varal abandonado. O cliente paga caro e, quando o serviço é interrompido, não recebe o desconto devido. Se a estatização que havia no passado era um pesadelo, naquela época em que um telefone de linha custava, às vezes, mais caro que um carro seminovo; hoje, com a privatização dos serviços essenciais, fomos mergulhados em uma lixeira profunda. Nos casos mais graves, somos até submersos pelo lamaçal dos desmandos, da imprevidência e do pouco caso dessas empresas bilionárias que, em busca do lucro extorsivo, estão pouco se lixando para os direitos elementares dos consumidores.      
   
 




terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Em 2010, ambientalistas queriam tombar Serra e impedir mineração

Reprodução: TV Record

Esta imagem, de uma mulher sendo retirada do mar de lama, foi a que mais me impressionou. O helicóptero oscila a poucos centímetros do chão. A equipe de salvamento se esforça para agarrar a vítima e colocá-la no aparelho. Com o corpo besuntado de lama, ela escorrega. Volta a afundar. O bombeiro a agarra novamente. Puxa. Ela escorrega. Afunda. É igual àqueles pesadelos que a gente demora para acordar. 

A primeira vez que estive em Brumadinho (MG) foi em 1982/83. Fiz uma pesquisa de campo para uma tese de mestrado. Tinha o nome pomposo de Televisão, Memória e Identidade Cultural: o caso de Piedade do Paraopeba, Palhano, Minas Gerais. A tese foi defendida em 1985 na Universidade Metodista de São Paulo. 

Meu orientador na época foi o prof. dr. Luiz Roberto Alves. A ideia da pesquisa era realizar uma troca. O pesquisador não poderia apenas ir até lá, obter os dados e desaparecer. Era preciso participar ativamente da comunidade, discutir os problemas e propor soluções. A inspiração desse novo modelo de atuação era o livro de Carlos Rodrigues Brandão, Pesquisa participante.

Lembro que organizamos reuniões no povoado de Palhano, distrito de Piedade do Paraopeba. Tiramos uma pauta de reivindicações e fomos em comissão até a sede do município, que é a cidade de Brumadinho.

Era tudo muito novo na época. As autoridades não estavam acostumadas a receber a população, muito menos ouvir suas reivindicações. Era o estertor da Ditadura Militar. 

O Vale do Paraopeba, milionário em recursos naturais, tratava muito mal sua população. Não havia escolas, transporte público, hospitais. As estradas eram precárias. As crianças desmaiavam de fome, durante as aulas. O desemprego imperava. Doentes morriam sem receber atendimento. 

Entre outros problemas graves, desde aquela época, uma das principais preocupações dos moradores era com a preservação da Serra da Moeda. A mineração e a ocupação das encostas tirava o sono dos moradores. A água - até então abundante - começava a escassear.

Esses problemas eram crônicos. Arrastavam-se há décadas. Para fugir desse estado permanente de miserabilidade, meu amigo Silvestre Pedro da Silva deixou o Vale nos anos 60. Veio para São Paulo, onde viria se tornar um dos maiores fotógrafos das belezas naturais brasileiras, autor de várias obras de referência. Foi ele quem me apresentou Brumadinho e o Vale do Paraopeba. 

Em 2008, revi o professor Luiz Roberto Alves. Ele me convidou para realizar um novo projeto de pesquisa. Sugeri que seria interessante retornar ao Vale do Paraopeba e verificar quais mudanças tinham ocorrido, depois de 25 anos. Ele assentiu e partimos para a ação.

 Entre 2009 e 2010, fiz nova coleta de dados na região. Verifiquei que, com a volta da democracia e os governos democráticos de Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, a situação da região havia mudado para melhor. Muito melhor...  

Sem a estagnação da Ditadura Militar, em poucos anos, estradas foram asfaltadas, escolas construídas, surgimento de postos de saúde e transporte público regular haviam contribuído sensivelmente para a melhoria da qualidade de vida. Havia generosa oferta de empregos. "Aqui, só não trabalha quem não quer", me confidenciava um morador. 

Nos finais de semana, o Vale era cortado por cerca de 2 mil carros. Eram pessoas que viviam em Belo Horizonte e buscavam a região para espairecer. Eles almoçavam nos restaurantes do Vale e muitos iam em direção a Inhotim.

Nas cercanias de Brumadinho, foi montado o Jardim Botânico e Museu de Arte Contemporânea Inhotim, com pelo menos 500 obras de arte de artistas plásticos brasileiros e internacionais.

Seu idealizador – Bernardo Melo Paz – chamado de “Fitzcarraldo brasileiro”, em uma reportagem do jornal Valor -, ergueu em uma área majestosa de 45 hectares um museu-parque gigantesco, com dezenas de esculturas, coleções botânicas, em meio a cinco lagos, alamedas monumentais e reservas de Mata Atlântica.

Quando estive no Museu Inhotim, havia instalações de Cildo Meireles, Adriana Varejão, Chris Burden e Janet Cardiff, entre outros. O conjunto das obras a céu aberto, as galerias impecáveis e repletas da magia de obras de arte impressionantes, um número – às vezes – até excessivo de guias e pessoal de apoio, a profusão de espécies vegetais raras, todos esses elementos, essas atrações, haviam atraído milhares de visitantes ao Museu Inhotim.

A maioria saía de Belo Horizonte, percorria a BR 040 (Belo Horizonte-Rio de Janeiro), desviava em direção ao Vale do Paraopeba, para apreciar a paisagem da região, cruzavam Palhano e outros povoados e chegavam a Brumadinho por estradas vicinais asfaltadas, pouco movimentadas.

O criador do Inhotim - Bernardo Paz - é irmão de Cristiano Paz, citado no imbróglio que a imprensa qualificou de “escândalo do Valerioduto”, referência ao empresário Marcos Valério, principal personagem do “mensalão mineiro”, conforme a mídia tratou o caso em 2004.

O jornalista Jotabê Medeiros traçou o perfil de Bernardo Paz, para uma reportagem publicada no jornal O Estado de S. Paulo. Intitulada “o maior mecenas da arte brasileira”, a matéria destacava o investimento de US$ 240 milhões (R$ 408 milhões) para criar o Instituto Inhotim.  Além de mecenas, Paz usou mão de obra local e gerou dezenas de empregos.

A história que os populares contam sobre o Museu Inhotim é que Bernardo Paz teria se arrependido dos danos ambientais provocados pelas suas mineradoras e, por isso, a construção daquela área preservada e recheada de obras de arte seria uma forma de restituir à população aquilo que ele havia tirado ao deteriorar a qualidade de vida da região.

Se o empresário Bernardo Paz arrependeu-se, será difícil saber. O fato é que as mineradoras continuavam atuando no Vale do Paraopeba. A ação mineradora trazia tensão e preocupação entre os moradores.

Na ocasião, conversei com a artesã Regina Rocha de Oliveira,  nascida em Palhano. Artista independente, ela vivia em seu ateliê, produzindo peças em cerâmica e dando aulas para crianças, filhos de moradores dos condomínios. Ela atuava junto a um grupo preservacionista. Em 2010, havia entregado uma escultura ao então governador Aécio Neves, reivindicando o tombamento da serra. Ela estava preocupada com o início da mineração na área de montanha, próxima ao Vale:

"O processo de desenvolvimento precisa explorar o turismo ecológico. A região é o pulmão de Belo Horizonte. Era preciso investir na construção de parques, preservar o mato a água. O minério retirado na serra não é de boa qualidade. Daqui a alguns anos, a água vai valer muito mais que o minério. Por isso, precisamos tombar a serra e impedir a mineração", ela dizia na época.

A artesã Regina havia aprendido seu ofício com a ceramista japonesa Toshiko Ishii (1911-2007), radicada em Palhano. Ela dizia que muitos moradores estavam indo embora, fugindo da ação das mineradoras:

“Os mais espertos sabem que a mineração está chegando, vão começar as explosões, os desmoronamentos de terra, por isso começaram a vender as casas e estão indo embora. Os mais novos, que não sabem o que espera, estão chegando.”

Um comerciante, que entrevistei, se mostrava cético em relação ao possível tombamento da serra:

“São 800 mil toneladas de minério que estão lá em cima. Dizem que tem urânio, cristal, ouro e até diamante. Quem vai deter esse pessoal das mineradoras? Você acha que o governo vai deixar tombar?”

Em 2017, Bernardo Paz foi condenado a nove anos de prisão por lavagem de dinheiro e, pouco depois, pegou mais cinco anos de cana por evasão fiscal. No livro Brazillionaires, o repórter Alex Cuadros revelou que "a fortuna de Bernardo Paz foi construída à base de trabalho infantil e escravo, desmatamento ilegal e grilagem de terras", conforme reportagem publicada pelo The Intercept Brasil.

Na sexta-feira, dia 25, uma barragem se rompeu e aconteceu aquilo que os moradores mais temiam e previam. A lama desceu com força e foi soterrando tudo que encontrava pela frente. Matou pessoas, matou animais, destruiu propriedades, sonhos e esperanças. 

Hoje, chega a informação que cinco pessoas (funcionários da Vale e engenheiros que atestaram a segurança de barragem) foram presas. Faltou encarcerar o principal responsável: o presidente da Vale do Rio Doce, Fabio Schvartsman, que concedeu uma entrevista coletiva constrangedora. Parecia Glória Pires comentando a cerimônia do Oscar: "Não sei, não conheço, não posso opinar". 

Não sei se a artesã Regina Rocha de Oliveira sobreviveu ao desastre ambiental. Mas faço votos que sua reivindicação de tombar a Serra e impedir a mineração seja agora ouvida e transformada em realidade. Essa é uma dívida que as autoridades têm para com a população local e que precisa ser paga.

Vale a pena repetir o que ela disse: "Daqui a alguns anos, a água vai valer muito mais que o minério. Por isso, precisamos tombar a serra e impedir a mineração".

Que tal começar hoje, amigos ambientalistas, um movimento pelo tombamento da Serra, expulsando as mineradores predatórias? Hoje! Sem deixar para amanhã.    

        

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Histórias da cozinha



Quando era criança, gostava de ficar na cozinha. Via minha avó preparar o almoço. Concentrada, ela circulava ao redor do fogão. O arroz chiava, quando adicionava a água. Tomates cozidos eram passados na peneira. O vapor subia em ondas. O molho de tomate ficava horas no fogo, acompanhado de suculentas bracholas. O molho desprendia um cheiro inesquecível. 

O nhoque era feito com farinha, batatas, ovos e temperos. Com muito zelo e carinho, ela fatiava a massa e, em seguida, passava os nhoques pelo garfo para dar aquela forma riscada, característica do nhoque italiano. Os bifes pegavam fogo, enquanto eram fritos. Via as labaredas elevando-se sobre as carnes, para depois se apagarem como por magia. A cozinha da minha avó parecia um laboratório alquimista.

Uma vez, minha avó recebeu a visita de um parente longínquo português. Era um tipo simpático, de cabelo branco, vestido com um terno claro impecável. Ele vinha almoçar com a gente. Minha avó passou a manhã na cozinha e ao meio dia levou para a mesa uma forma imensa, repleta de bacalhau com batatas à Gomes e Sá. O cheiro que vinha do prato enlouqueceria um animal faminto. Meu avô serviu um vinho verde português, enchendo os copos até a boca (inclusive das crianças). 

Lembro do parente português, olhando a comida, o copo de vinho, provando um bocado. Mais um pouco... A família em volta, na expectativa do que ele iria falar. Ele baixou a cabeça, emocionado, e começou a chorar. Talvez de saudade, de prazer, de alegria. Talvez tudo isso junto.  

Menino não era bem-vindo na cozinha. "Lugar de mulher".  Era um clandestino por ali. Quando começava a fazer muitas perguntas; "Por que a senhora está descascando isso?", "Que tempero é esse?";  era literalmente expulso da cozinha. "Vai brincar, menino, para de encher". 

A cozinha funcionava como um espaço de poder das mulheres. Um lugar onde os homens passavam como visitantes breves, mas não permaneciam. 

Meu pai não admitia que homem lavasse prato, a não ser é claro se fosse cumim e trabalhasse em restaurante. Depois de casado, meus pais vieram uma noite jantar conosco. Terminada a refeição, levei os pratos para a cozinha e comecei a lavar a louça. Meu pai olhou aquilo horrorizado. "Isso é coisa de mulher. Deixa os pratos aí", chamando minha mãe para dar um apoio logístico.

Comecei a me apossar da cozinha aos poucos. Tinha muito interesse na preparação dos pratos que eram servidos na ceia de Natal. Pato com laranja, presunto tender, lombo assado, peru recheado, arroz com passas...Minha tia, que sucedeu minha avó na cozinha, tinha espírito didático e, em uma véspera de Natal, concordou em me passar as receitas, gravando um vídeo. Eu tinha comprado uma filmadora e fiz a filmagem de toda a preparação da ceia, tendo minha tia como protagonista.

Com o tempo, fui reproduzindo as receitas familiares que me traziam mais lembranças. Com muito custo, depois de inúmeras tentativas e fracassos, consegui elaborar um molho de tomate com bracholas, que hoje, certamente, teria o selo de aprovação da minha avó. 

Nhoque e outras massas não são mais mistério. Ganhei até uma máquina para fazer macarrão, veja você que avanço tecnológico. Os antepastos, que eram o produto de excelência de minha mãe, como pimentões e berinjelas em conserva, também foram reproduzidos com sucesso. 

A cozinha é um lugar onde me sinto em paz. Gosto de me concentrar na produção dos pratos. O maior prêmio de um cozinheiro é quando alguém chega perto e diz: "Que cheiro delicioso! O que você está cozinhando?".

Cozinhar é um ato fraterno. Você pega a matéria-prima que é um monte de farinha, ovos, batatas cozidas e transforma isso em um negócio delicado, chamado nhoque. São duas a três horas de preparação intensa, com um só objetivo: fazer com que as pessoas sintam prazer. 

Em Piedade do Paraopeba, Minas Gerais, onde fiz uma pesquisa de campo, no início dos anos 80, lembro que a cozinha não era uma espaço restrito às mulheres, um centro de poder feminino. A cozinha mineira, com aquele tradicional fogão a lenha, que desprendia odores deliciosos, durante o cozimento, era um ponto de inclusão. Ali, homens e mulheres se reuniam. Tomavam café. Faziam suas refeições. Trocavam informações. Contavam histórias de santos e assombrações.

A preparação da comida é ato altruístico, de desprendimento. Enquanto o pessoal se diverte na piscina, dando um passeio ou lendo um livro, o cozinheiro, em sua atuação solitária, prepara a refeição. Ele não pode falhar. Assado queimado, macarrão "molhado" fora do ponto, molho aguado são imperdoáveis.

A comida caseira tem de ser cheirosa. Deve abrir o apetite. Precisa estar bem apresentada, decorada, bem feita. Quando o cozinheiro erra, ele elimina o prato. É inadmissível levar para a mesa uma refeição que não deu certo. Ele não pode dividir seu fracasso.

O termo refeição caseira não me parece apropriado. Caseiro lembra algo feito de forma precária. Uma gambiarra. O melhor termo é aquele utilizado pelos americanos, que chamam a refeição caseira de comfort food. 

Essa refeição feita em casa remete às minhas lembranças afetivas de conforto e proteção. Por isso, o termo americano é adequado. Naquela época, era bom saber que alguém ficava horas e horas ao redor de um fogão para lhe alimentar, matar a sua fome de comida e de carinho. Ainda que, depois de uma breve trégua, fosse expulso daquele espaço mágico da minha avó alquimista.     





   

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Eu, o disco-voador e o pé de goiaba


Em 1996, vi um disco-voador. Não tinha bebido. Não sonhava. E havia testemunhas junto comigo. O negócio era iluminado. Pairava no céu. Eram 4h30 da madrugada. Havia saído de uma cidade do circuito das águas, em Minas, e retornava para São Paulo. No banco de trás, meu filho, com nove anos de idade: "Pai, tem uma estrela seguindo a gente". Expliquei que estrelas não seguem carros. Como o veículo estava em movimento, ele tinha impressão que a estrela "andava", mas era só impressão. Minutos depois, nova informação: "Pai, a estrela ficou mais perto agora". 

Parei o carro no acostamento. Deixei o farol ligado. Saí do veículo. Lá fora, senti o cheiro da mata. Gostoso. Refrescante. Era janeiro, em pleno verão. Tínhamos tirado férias de fim de ano e retornávamos para casa. 

Olhei para o céu e vi o negócio brilhando no céu. Aquilo se aproximava da gente e se afastava. Depois, se aproximava novamente. Fazia movimentos rápidos, incompreensíveis. Para cima e para baixo. Depois, cessava e vinha perto da gente. 

A minha filha, então com 14 anos, acordou e ficou apavorada: "Pai, vamos embora..." Ela havia assistido E.T. e passou a ter muito medo de topar com aquele ser baixinho, cabeçudo, com os bracinhos compridos. Ela não temia assombração, almas penadas, nem saci. Mas tinha pavor de extraterrestres. E, se você quer saber, estávamos muito próximo de um contato imediato de terceiro grau. 

Aquela desgraça iluminada vinha se aproximando da gente...

Os dois começaram a chorar, pedindo: "Vamos embora, pai. Vamos fugir. Esse negócio vai pegar a gente..."

Entrei no carro. Virei a chave...Achei que o motor não ia pegar, por obra de alguma interferência eletromagnética, emanada pelo disco-voador. Mas o carro pegou. Engatei primeira. Acelerei e caí novamente na estrada. 

Andei menos de 50 metros, quando entrou na nossa frente um cavalo. Não sei se ele também fugia do disco-voador, o fato é que o bicho corria pela estrada, olhando apavorado para os lados. Freei e aí o pânico se instalou. As crianças gritavam. Minha mulher tentava acalmá-los, mas não obtinha muito sucesso. Estávamos todos com medo do desconhecido, daquela fonte de energia estranha, que nos seguia pela estrada afora.

O carro acelerava e a luz parecia acelerar também. O carro reduzia a marcha e a luz o imitava. Devo ter rodado uns 20 quilômetros dessa maneira, na companhia do disco-voador. Então, decidi parar e enfrentar o bicho. Ele que viesse pra briga. 

Estacionei novamente o carro no acostamento. Descemos todos e ficamos olhando para o céu. Então, aquilo começou a se movimentar de maneira maluca pra cima e pra baixo. As luzes aumentaram de intensidade e, em segundos, o negócio ganhou uma velocidade estupenda e desapareceu no espaço. 

Escrevi tudo isso para dizer que em disco-voador eu acredito. Não sei o que é, de onde vem, se é uma arma secreta russa ou dos americanos, se não é da Terra, se vem do futuro ou do passado, o fato é que vi o tal negócio iluminado e ele também me viu, porque me seguiu pela madrugada de uma solitária estrada mineira no longínquo ano de 1996.

Agora, futura ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, sinceramente, não acredito que a senhora tenha visto Jesus Cristo subir em um pé de goiaba. Como diz aquele meme, publicado pouco depois, Jesus comenta: "Tenho mais o que fazer do que ficar subindo em pé de goiaba". 

Os pastores evangélicos mantêm contatos imediatos com Deus, Jesus, o Diabo, com uma  constância invejável. O Diabo está sempre baixando nas igrejas pentecostais, fazendo um estrago danado. Os possuídos rolam pelo chão. Gritam. Espumam, se contorcem. Discursam aquela algaravia (todas as línguas e nenhuma) costumeira. O Diabo foge, libera o corpo do cristão, que, feliz da vida, dará 10% de seu salário mensal ao pastor ou pastora.  

O livro Sapiens - uma breve história da humanidade, sobre o qual escrevi uma crítica em post anterior, menciona essa habilidade humana de criar histórias, fazer com que outras pessoas acreditem no inexistente. Foi graças a essa capacidade cognitiva que a humanidade se desenvolveu e passou a ocupar o primeiro lugar no topo da cadeia alimentar. 

O dinheiro, por sinal, é uma invenção sobre a qual todos nós decidimos acreditar. O dinheiro é uma ficção. Por que determinada nota valha tanto quanto aquela mercadoria? Foi instituído assim e todos nós consideramos positivo, porque formas arcaicas de fazer negócio, como o escambo, não funcionavam bem.  

O escândalo sexual desta semana recaiu sobre João Teixeira de Faria, o João de Deus, que teria abusado de 200 mulheres, em seu "hospital espiritual", em Abadiânia (GO). Os relatos são impressionantes. As vítimas contam detalhes de como foram obrigadas a fazer sexo com o médium, que, em 2012, recebeu a visita resplandecente de Oprah Winfrey, uma das mais bem-sucedidas apresentadoras de TV dos EUA.

O psiquiatra e higienista italiano Cesare Lombroso (1835-1909) dizia que era possível reconhecer um criminoso, por suas características físicas. É claro que essa teoria caiu em desuso, com o avanço das ciências criminais. Mas, um velho parceiro de reportagens, sempre que se via às voltas com um criminoso, daqueles bem malvados, olhava pra mim e comentava: "Lombroso estava certo".  

Olhando as fotos desse João de Deus, mesmo reconhecendo que Lombroso foi ultrapassado pelo tempo, tenho a dizer que não deixaria esse sujeito me enfiar uma faquinha e tesoura sujas na barriga.

Um relato de uma vítima de João de Deus, colhido pela repórter Camila Brandalise do UOL, é aterrador: 

"Ele se sentou em uma poltrona e falou que eu devia fazer sexo oral nele para 'fazer uma limpeza'. Era um velho nojento. Ele dizia: 'Faz cara boa, faz direito. Você está com nojo?', ele dizia. Eu estava com muito medo, não estava mais suportando aquilo. Eu não lembro mais como foi, mas sei que ele me chamou de novo para participar de uma cirurgia. No terceiro dia, ele pediu sexo oral de novo. Eu fiz, ele gozou e se limpou com a toalha branca".   

É incompreensível diante do avanço inexorável da ciência que as pessoas continuem querendo acreditar nesse amontoado de bobagens, que exigem muita "fé" e pouca inteligência. 

Por falar em inteligência, hoje mesmo, ouvi um engenho humano, pousado em Marte, transmitindo o som de ventos marcianos. Trata-se do avanço da ciência indiscutível, em escala interplanetária.  

Adão e Eva, o Dilúvio, Abraão e seu filho quase assassinado, o Deus que manda a gente vender nossa filha como escrava, o Deus que manda executar quem plantar legumes de espécies diferentes lado a lado, a Arca de Noé, o universo criado em seis dias...

Todas essas histórias, que encantam o leitor da Bíblia, não resistem a um mínimo de especulação científica. Quem observa as estrelas por um telescópio; quem fica intrigado diante das moléculas se reagrupando pelas lentes de um microscópio,;quem frequenta museus que mostram dinossauros e espécies que nos antecederam; quem leu A Origem das Espécies; passa a compreender melhor o universo e a realidade que nos cerca. Não haveria mais necessidade de muletas espirituais. Não teríamos também que suportar tipos como esse João de Deus e essa senhora manipuladora que vê Jesus, "o filho de Deus", trepando em goiabeira. 

    
    

Os comunistas estão na ordem do dia

Os comunistas estão na moda. Nunca se falou tanto em comunismo e comunistas como agora, em 2019. No século passado, em 1946, durante a ...