sexta-feira, 19 de março de 2021

Vossa excelência faltou com o decoro

 


Estamos mal de representantes políticos. Muito mal. Quando a gente mais necessitava de lideranças, caímos em um cadafalso de luminares da mediocridade. Lá em Brasília... Ah, Brasília... Nosso querido presidente fez o possível e o impossível para destruir sua popularidade. E conseguiu. Parabéns. Pesquisas mostram que ele é o mandatário com a pior avaliação, em apenas um ano e três meses de governo. 40% dos brasileiros o consideram “ruim” ou “péssimo”. “Os outros não entenderam a pergunta”, brincou o colunista José Simão.

Aqui, em São Paulo, de onde teclo para os meus três seguidores (oi mãe, oi filhos), em meio à pandemia, tivemos um momento de “falta de decoro”. Decoro, de acordo com o dicionário, seria “decência no agir e no falar”; “seriedade nas maneiras”; “compostura”.

O nobre deputado Fernando Cury (Cidadania), eleito com 100 mil votos, assumiu seu segundo mandato em 15 de março de 2019. Em meio a uma sessão legislativa, ele alisou (apalpou?) os seios da deputada Isa Penna. Deu o maior bafafá. A nobre deputada pediu a cassação do mandato de Cury. O caso foi para a Comissão de Ética que decidiu suspender o deputado por 111 dias. Se fossem 120 dias, ele não poderia manter o gabinete aberto na Assembleia Legislativa.

Cury é filho do ex-prefeito de Botucatu Antonio Jamil Cury. O irmão dele, João Cury, também foi prefeito de Botucatu. A cidade é uma espécie de capitania hereditária.

Por onde a gente andava, em Botucatu, em época de eleição, tinha poste com banner do então candidato a deputado Fernando Cury (veja foto). Eu o conheci pessoalmente em reunião, durante um evento esportivo/cultural daquela região. Ele discursou. Foi aplaudido. Abraçado (na época, a gente podia abraçar e até beijar os candidatos). E foi embora. Não levou com ele o meu voto. Sinceramente, não senti firmeza, como se diz no boteco do seu Jair.

Durante a pugna que antecedeu a suspensão do nobre deputado Fernando Cury, os colegas do parlamentar chamaram a atenção para momentos do que eles consideraram “falta de decoro” da deputada Isa Penna, eleita pelo PSOL, representando a Mandata Coletiva e Feminista.

Na eleição para a Prefeitura de São Paulo, Isa Penna fez um vídeo para levantar a candidatura de Guilherme Boulos, seu colega do PSOL. No vídeo em questão  (https://www.youtube.com/watch?v=XD7B8k1hNIg), assistido com vivo interesse pelos parlamentares e por outros 66 mil 150 mortais, a deputada Isa Penna dança um funk. Está com uma roupa de ficar em casa (talvez um pijama). Durante a música, ela rebola e mostra a bunda, em close, para a câmera. Se minha querida avozinha viva estivesse (que a terra lhe seja leve), diria que a deputada foi “indecorosa”.

Devo constatar aos que me conhecem na intimidade, que não sou uma pessoa que apoia o decoro. Sou mesmo indecoroso. Todos os dias. A maior parte do tempo. O fato é que não sou deputado, ninguém votou em mim, nem nunca irá votar, porque candidato jamais serei. Portanto, danço mesmo funk em casa, mas não gravo vídeo, nem mando minha bunda para o restante da humanidade, que já tem desgraças demais para aturar, além do meu traseiro sofrido.

Na rede social, não faltaram comentários:

“Caraiiiii nobre deputada.....tá sensualizando bem hein! Quebra tudo...quebra tudo!”

“Eita que aqui em Pernambuco não tem uma deputada dessa”.

“Muito legal a pessoa gostar de dançar. Eu também faço isso, porém não dá pra entender a mensagem que se passa com relação à proposta política do candidato”.

“Vossa excelência está um regasso (sic) nesse vídeo. Gostei.”

Não foi o único momento de “falta de decoro”, apontado com o dedo duro pelos nobres parlamentares. Eles lembraram um momento constrangedor, para eles, em que Isa Penna decidiu homenagear as putas e leu um poema da jovem poetisa Helena Ferreira, então com 18 anos, intitulado "Sou puta, sou mulher":

Quando uso a boca vermelha

Meu salto agulha E meu vestido preto.

Sou puta: Mordo no final do beijo
Não fico reprimindo desejo
E nem me escondo na aparência de menina.
Sou uma puta de primeira
Acordo às 6:30
Pego ônibus debaixo de chuva
Não dependo de salário de macho
E compro a pílula no final do mês.
Sou uma puta com P maiúsculo
Dispenso o compromisso
Opto pela independência
Não morro de amor
Acordo sozinha
Cresço sozinha
Vivo na minha
Bebo em um bar de esquina
Vomito no chão da cozinha.
Sou uma putinha
Passo a noite em seus braços
Mas não me prendo no laço
Que você quer me prender.
Sou puta
Você tem o meu corpo
Porque eu quis te dar
E quando essa noite acabar
Eu não vou te pertencer
E se de mim você falar
Eu não vou me importar
Porque um homem que não me faz gozar
Nunca terá meu endereço.
E não é gozo de buceta
É gozo de alma
É gozo de vida
É me fazer sentir amada
Valorizada
E merecida
E se de puta você me chamar
Eu vou agradecer.
Porque a puta aqui foi criada
Por uma puta brasileira
Que ralava pra sustentar os filhos
E sofria de racismo na feira
Foi espancada e desmerecida
E mesmo sofrida
Sorria o dia inteiro
Uma puta mulher ela foi
E puta também eu quero ser.
Porque ser mulher independente
Resolvida
Segura
Divertida
Colorida
E verdadeira
Assusta os homens
E os machos
Faz acontecer um alvoroço.
Onde já se viu mulher com voz?
Tem que ser prendada e educada
E se por acaso for "amada"
Tem direito de ser morta pelo parceiro
Cachorra adestrada pelo povo brasileiro
Sai pelada na revista
Excita
Dança
Bate uma
Cai de boca
Mama ele e os amigos
E depois vai ser encontrada num bueiro
Num beco
Estuprada
Porque tava de batom vermelho
Tava pedindo
Foi merecido
E se foi crime "passional"
Pobre do rapaz
Apaixonado estragou a própria vida.
Por isso que eu sou puta
Porque sou forte
Sou guerreira
Não sou reprimida
Nem calada
Sou feminista
Sou revoltada
Indignada
E sou rotulada assim
Como PUTA!
Então que eu seja puta
E não menos do que isso”.

A leitura foi feita na casa das leis, em uma sessão normal, onde se discutia aquelas coisas chatas de sempre: verbas, projetos, orçamentos...

De camiseta vermelha (vermelha mesmo, do tipo comunista, confira a foto), com a inscrição no peito “Lute como uma garota”, Isa Penna pegou o microfone e mandou bala na poesia. Foi um deus nos acuda. O presidente apertava a campainha. Vossas excelências reclamavam, pediam que ela ficasse quieta, que parasse de falar tanta putaria naquela casa séria, de leis e trabalho honesto.

 Estaria tudo certo se a nobre deputada estivesse naqueles cafés concertos, que existiam antigamente no Bexiga, onde gente jovem, cabelo ao vento, reunia-se para ler poesias, textos teatrais e ouvir música MPB de qualidade. Talvez os 53.838 votos eleitores de Isa Penna quisessem que a deputada, ao invés de ler poesia em sessão plenária, optasse por criar leis que defendessem os transgêneros, sempre ameaçados, em um País que mais mata LGBTs no mundo. Leis que defendessem melhor as mulheres, vítimas de feminicídio. A deputada Isa Penna poderia também usar melhor o tempo na Assembleia para fiscalizar se o nosso querido governador João Doria está trabalhando direitinho, se não está favorecendo esta ou aquela empreiteira, naquele jogo sujo do toma lá dá cá.

Foi um momento de afronta, é claro. Ela fez questão de criar constrangimento, para atacar a hipocrisia dos homens que ali estavam e que, talvez, quem sabe, em algum momento de sua existência viril, tivessem usado os préstimos de garotas de programas, de mulheres de vida fácil, ou como a poesia simplificou, com o perdão da palavra, putas mesmo.

Ao reagir à agressão sexual do deputado Fernando Cury, Isa Penna protestou:

“Sou uma autoridade e mesmo assim eles não me respeitam”.

Por 5 a 4 (votação apertada), o Conselho de Ética da Assembleia Legislativa votou pela pena mais branda, mantendo as benesses do cargo para Fernando Cury, “pai, deputado, que é família, que é marido de uma só mulher, uma pessoa que ama sua esposa, um cara carinhoso”, como bem disse vossa excelência o deputado Wellington Moura, ao sair em defesa do colega.

Em artigo publicado no Uol, Isabela Del Monde, advogada da rede feminista de juristas, defendeu a parlamentar apalpada e atacou os integrantes do Conselho de Ética da Assembleia Legislativa:  

“Um já foi apontado por violência doméstica e intimidação de colega deputada; outro votou pela punição de Isa Penna por ter recitado um poema em homenagem a trabalhadoras sexuais; o terceiro é pastor evangélico, quer impedir que se fale de gênero nas escolas e teve suas contas das eleições de 2018 reprovadas; já o quarto responde a três ações na Justiça de São Paulo por improbidade administrativa; e o último já foi investigado por nada mais nada menos que tortura! Esse é um breve resumo, feito aleatoriamente, de parte da trajetória de Adalberto Freitas (PSL), Alex de Madureira (PSD), Delegado Olim (PP), Estevam Galvão (DEM) e Wellington Moura (Republicanos), os cinco deputados que votaram para diminuir a pena de Fernando Cury”.

Os quatro parlamentares que votaram pela condenação de Cury e saíram derrotados foram: o relator Emídio Souza (PT), a deputada Erica Malunguinho (PSOL), Barros Munhoz (PSDB) e a presidente Maria Lúcia Amaray (PSDB).

Em sua análise, a advogada feminista Isabela Del Monde discutia os argumentos dos deputados, que haviam votado pela punição mais leve, que apregoavam: “Como ela pode exigir respeito, se não se dá o respeito”. Era uma referência de suas excelências, é claro, ao vídeo funkeiro e à insólita homenagem às putas.

Isabela Del Monde afirmava:

“No mundo da masculinidade, torturar, intimidar e tocar sem consentimento o corpo de uma mulher são condutas corriqueiras”.

Nesse ponto, com a devida vênia, a nobre advogada Isabela Del Monde generaliza e pisa no tomate. Ela situa todos os homens “no mundo da masculinidade” e coloca todos os integrantes do sexo masculino como adeptos da tortura e da intimidação.

E os homens de bem, doutora? E os Amélios da vida? Aqueles homens que amam suas mulheres, que cozinham para elas, que as tratam com carinho e devoção. Onde eles estão, doutora? Como a senhora pode ter se esquecido deles? Ah, doutora, quantos crimes a gente comete quando generaliza.

Enfim, como me disse certa vez Bob Marley, “política não me interessa, política é negócio do demônio”.

  

  


quarta-feira, 17 de março de 2021

57 milhões 796 mil e 986 brasileiros têm culpa

 

A esquerda popularizou o termo "genocida", carimbando com ele a testa do nosso querido presidente Jair Bolsonaro. O termo "pegou", depois de o "influencer" Felipe Neto ter sido intimado a depor, após chamar Bolsonaro de "genocida". 

De acordo com o que diz o dicionário (Houaiss, por exemplo), trata-se de um exagero. Bolsonaro seria genocida se tivesse autorizado a matar 300 mil brasileiros, em campos de extermínio. Não foi o caso.

Adolf Hitler era genocida. Acreditava no extermínio de judeus, homossexuais, ciganos, comunistas, para tornar a raça humana "mais pura". Ninguém foi tão burocraticamente eficiente para traçar toda uma política genocida como os nazistas. Havia a logística, com o transporte de judeus de toda a Europa invadida, em comboios de trens. A engenharia, com a criação de fornos crematórios, câmaras de gás e a edificação de campos de concentração. Havia pesquisa, como o médico Josef Mengele, que amputava membros (sem qualquer necessidade), injetava clorofórmio no coração e produtos químicos em olhos de suas vítimas, para tentar "mudar a cor". Hitler e nazistas eram genocidas.

Felipe Neto está na lista das "100 pessoas mais influentes do mundo". Ao saber que o "youtuber" havia sido chamado para depor, o ex-presidente Lula correu para apoiá-lo e mostrar solidariedade. Político é assim: pensa com a cabeça e nunca com o fígado. Felipe Neto usou toda sua influência digital para torpedear o governo Dilma e, por extensão, o PT. Falava palavrões, xingava, esbravejava. Publiquei um vídeo dele no Facebook, com toda essa coleção de impropérios, e ele censurou a divulgação por se tratar de "propriedade pessoal". O governo Dilma nunca pensou na hipótese de chamar o golpista Felipe Neto para depor. Em outras palavras, usar a violência jurídica para silenciar um opositor. Felipe Neto xingou e atacou o governo Dilma até o final, até o impeachment. Ele mesmo declarou, recentemente, que falava barbaridades contra o PT e que nunca foi alvo de perseguição política/judiciária. Agora, no governo Bolsonaro, ele virou alvo e correu assustado, pedindo ajuda. 

Pensando com a cabeça e não com o fígado, os frequentadores de redes sociais de esquerda não pensaram duas vezes. Criaram o carimbo com o termo "genocida" e bateram com a tinta na cara do presidente, saindo em defesa do "influencer". Embora Felipe Neto seja golpista e não mereça toda essa solidariedade.

Eles sabem que Bolsonaro não é genocida de fato. Bolsonaro é um dirigente péssimo, sem a "liturgia do cargo", talvez o pior presidente brasileiro da história. Getúlio de 1930 a 1945 e os ditadores de 1964 a 1985 não entram na relação, porque não foi a gente que escolheu; eles se impuseram pelas armas, então, ficam de fora. Como costuma dizer Luis Fernando Veríssimo, "a gente tem a razão, mas eles têm as armas".

No ano passado, Bolsonaro cometeu todas as bobagens possíveis, sentado no posto mais alto da nação. A exemplo de seu homólogo, o derrotado presidente Trump, não conseguiu compreender a gravidade da doença covid-19. Foi incapaz de prever o desastre que se consumou ao longo de 12 meses. 

Escrevo agora quando morreram, em um ano, quase 300 mil brasileiros. Durante a 2ª Guerra Mundial, perderam a vida 2 mil soldados brasileiros em combate ou de doenças diversas. Somente ontem, dia 16 de março, em um único dia, foram a óbito 2.798 pessoas, vítimas de covid-19. Bem mais que todos os pracinhas que morreram, combatendo os nazistas, em solo italiano.

A sucessão de erros de Bolsonaro é tão extensa e cansativa que já foi discutida, comentada, dissecada, diariamente, por tudo quanto é analista político de esquerda, centro, direito, do raio que o parta.

Lembro de Bolsonaro em um jardim (acho que era no Palácio do Planalto), erguendo uma caixa de cloroquina, como se fosse um capitão da Seleção, ostentando a taça de campeão do mundo. Dezenas, centenas, milhares de cientistas diziam que cloroquina não era indicativo para controlar a covid-19. Mostravam estudo técnicos. Aliás, não havia qualquer tratamento para a covid-19. A única solução seria ter uma vacina. Na época, lá no início da pandemia, dizia-se que a vacina, se viesse, demoraria cerca de um ano. Esse era o tempo que os cientistas levavam para estudar o vírus e criar formas de torná-lo inofensivo ao organismo humano. Felizmente, a ciência correu contra o tempo e surgiram várias vacinas, entre elas a Coronavac, produzida no Instituto Butantan, em parceria com os chineses da Sinovac. 

Em julho do ano passado, quando os laboratórios já comercializavam a vacina, por que o governo Bolsonaro não comprou os imunizantes? Por absoluta incompreensão da realidade que o cercava.  

Lá atrás, no início das restrições de mobilidade, já se falava que a melhor resposta contra a epidemia eram o uso da máscara de proteção e o distanciamento social. Por isso, cafés, bares, restaurantes, centros comerciais de rua, shoppings, entre outros, precisariam ser fechados para evitar o contágio pelo coronavírus, que provoca a doença covid-19. 

Mesmo diante da esmagadora postura de cientistas de tudo quanto é canto da Terra, o presidente Bolsonaro insistia no negacionismo. Não usava máscara, era contra o fechamento do comércio e fazia pouco das vacinas que começavam a surgir, como a Coronavac. Dizia que não iria tomar, por não saber a origem do produto. Seus correlegionários, diplomaticamente despreparados, faziam pilhéria com os chineses. O então ministro da Educação, Abraham Weintraub, publicou um texto, como se fosse o Cebolinha (personagem de Maurício de Souza), trocando os "Ls" pelos "Rs", tirando sarro do jeito de falar dos chineses. Dias atrás, a mãe de Bolsonaro foi vacinada. O medicamento utilizado foi o "chinês" Coronavac. 

No início desta semana, ficamos sabendo que teremos um novo ministro da Saúde. É o quarto no governo Bolsonaro. É um entra e sai no Ministério, evidenciando um comando que titubeia, que não sabe bem para qual lado ir. Enquanto isso, os hospitais estão lotados. Não há mais vaga nas Unidades de Tratamento Intensivo. Pacientes morrem por falta de ar, em desespero. Nas favelas, as pessoas passam fome. Precisam sobreviver com esmolas, doações ofertadas por beneméritos. É um estado que trata mal seus governados. Não dá a mínima para o sofrimento alheio. O país é uma ilha, cercada de miseráveis por todos os lados.

Voltando à questão inicial, Bolsonaro não é genocida, mas suas ações errôneas, sua incapacidade em tratar um problema sanitário gravíssimo, inédito na história da humanidade, levaram ao quadro de terror atual. Ele é somente um presidente errado, um desastre administrativo. Foi uma péssima escolha de 57 milhões, 796 mil e 986 brasileiros. Todos esses eleitores têm culpa. Eles são culpados por terem eleito alguém que apoiava um torturador, alguém que se mostrava homofóbico e, em vários momentos, racista (há registros de falas contra japoneses, indígenas, chineses e afrodescendentes). Esse alguém, esse político obscuro, não apoiava o torturador apenas na sala escura, mas de boca aberta, a plenos pulmões, ao votar "sim" pelo impeachment da presidente Dilma, "em memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ulstra".

Na cabeça de quem seria possível imaginar que um político dessa estatura moral seria capaz de fazer um bom governo? Todos sabiam quem ele era, como ele pensava. Não ia dar certo, como de fato não deu. 

Candidato, Bolsonaro era então um político menor, extremista, que viveu quase três décadas à sombra das benesses públicas. Carregou com ele três filhos - 01, 02, 03, que abocanharam sua "teta" na carreira política. Pelo que as investigações estão apontando, Jair, Flávio e Carlos podem ter usado o esquema de "rachadinhas" para engordar o patrimônio. "Rachadinha" é um nome simpático, bonitinho. Na prática, os especialistas em política chamam de um nome mais feio: "corrupção". Com a "rachadinha", o político se apropria de parte ou da totalidade do salário de um assessor (existente ou "fantasma"). Não é algo novo, inédito, na política brasileira. É só mais um descalabro cometido pelos políticos, entre tantos. Eleito como expoente da luta contra a corrupção, contra o comunismo (sempre o comunismo!), percebe-se que não era bem assim. Como explicar os 89 mil reais, depositados por Fabrício Queiroz, na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro?  

Escolhas erradas podem representar a diferença entre a vida e a morte. No caso brasileiro, a escolha sabidamente errada de 57 milhões, 796 mil e 986 eleitores levou o País ao estado desolador em que se encontra hoje. 

Meus caros eleitores de Bolsonaro, ontem morreram quase três mil pessoas. Se o presidente, em março do ano passado, tivesse defendido o isolamento social, a paralisação das atividades de comércio de rua, o uso de máscaras e não ficasse defendendo medicamentos inócuos; muita gente teria sobrevivido. Bastava ouvir os infectologistas, os cientistas. Mas não. 

Um amigo, eleitor e admirador de Bolsonaro, morreu vítima de covid-19. Era alguém divertido, feliz da vida, que, seguindo o exemplo de seu líder maior, não usava máscaras, jogava futebol nos fins de semana, fazia churrasco com o pessoal. Não estava nem aí para o inimigo invisível. Ele ficou doente no sábado. Na sexta-feira seguinte, morreu. Não pudemos nos despedir. Não teve velório. Nada. Ele estava aqui no trabalho e, no momento seguinte, não estava mais. Nunca mais estaria. 

Nesse momento de gravidade inédita e devastadora, a população precisava mais do que um presidente. Tinha necessidade de um líder, um político carismático, inteligente, preparado, com tirocínio para o cargo. No lugar desse perfil de presidente ideal, veio o que está aí. E o resultado não poderia ser pior.   

 Estamos em março. Faltam nove meses para acabar o ano. E outros 12 meses para terminar o mandato de Bolsonaro. Pesquisa (Datafolha) indica que 46% querem impeachment de Bolsonaro. Seria um sonho, mas pensando bem tomara que ele fique até o fim do mandato. São mais 21 meses de dor e sofrimento diário. Até os 57 milhões, 796 mil e 986 eleitores aprenderem a votar. 

   

domingo, 7 de março de 2021

Documentário da Netflix erra ao conduzir Pelé para a política

 


Dirigido por David Tryhorn e Ben Nicholas, o documentário "Pelé"  (Netflix, 2021) tem seu melhor momento ao mostrar o maior jogador de todos os tempos relembrar os momentos que antecederam à final da Copa de 1970. 

Pelé estava no ônibus, que conduzia a delegação, e viu o veículo cercado por milhares de entusiasmados torcedores, que não viam a hora de a Seleção entrar em campo e enfrentar a aguerrida "Azurra", que dias antes havia protagonizado aquele que foi considerado o "jogo do século", ao vencer a Alemanha por 4 a 3, em uma partida dramática, fatal para os cardiopatas, com inacreditáveis cinco gols marcados em uma prorrogação.  

Aos 80 anos, combalido, chegando para a entrevista em um andador, o vencedor de três Copas do Mundo, dois campeonatos mundiais interclubes, duas Libertadores, seis campeonatos brasileiros, dez campeonatos paulistas (na época, valiam mais que a Libertadores), autor de 1.283 gols, senta-se com dificuldade em uma cadeira, postada em uma sala vazia, sem objetos de decoração, como se os produtores quisessem desnudar seu entrevistado. 

Pelé empurra o andador para o lado e aguarda as perguntas de seus entrevistados. Começa assim o documentário "Pelé". Lá pelas tantas, Pelé vai relembrar o episódio da Copa de 70. Ele menciona a chegada do ônibus da delegação no estádio. Os torcedores enlouquecidos em volta e ele não suporta a pressão e começa a chorar. 

Ele chora ao lembrar a distensão na virilha que o tirou do jogo contra a Checoslováquia, em 1962, e também o tirou da Copa. Recorda-se da pífia participação brasileira no Mundial de 1966, quando ele foi caçado em campo pelos portugueses e saiu contundido (é parecido com que jogadores de times franceses fazem hoje contra Neymar, sob o olhar omisso dos árbitros). 

Terminada a Copa de 1966, Pelé afirma que não vai mais disputar outras copas. Estava se retirando do palco. Em 1969, ele é chamado para as eliminatórias e comparece. Mais uma vez, volta a vestir a canarinho. A Seleção massacra seus adversários. Venezuela, Colômbia e Paraguai são goleados sem perdão por um time de "feras", como dizia o técnico João Saldanha. Saldanha, que era do Partido Comunista Brasileiro, acabou sendo demitido pela Ditadura Militar. Assumiu Zagallo que arrojadamente montou um ataque só com camisas 10 (Jairzinho, Gerson, Tostão, Pelé e Rivellino). 

Em 1970, tinha finalmente chegado o jogo da final contra a Itália. O "filme" das copas anteriores passa pela cabeça de Pelé e ele chora, chora convulsivamente, diante dos outros jogadores que não entendiam o que acontecia com o maior craque de todos os tempos, que viria a ser o "atleta do século". Era um momento de desabafo, de exorcizar os demônios. Ele enxugou as lágrimas e estava pronto para deixar seu legado maior: marcar com ferro quente em nossa memória sua vitória mais contundente. A Seleção fez uma partida que encheu os olhos da humanidade. Foi uma participação perfeita. Vitória de 4 a 1. 

E que Copa foi aquela...Brasil 4 x Checoslováquia 1, Brasil 1 x Inglaterra 0, Brasil 3 x Romênia 2, Brasil 4 x Peru 2, Brasil 3 x Uruguai 1.

Muitos cronistas esportivos dizem que aquela seleção de 1970 foi a melhor de todas. Pessoalmente, concordo com eles. Lembro de assistir aos jogos com um grupo de amigos, lembro de nossas comemorações e, depois da vitória sobre a Itália, estar na avenida 23 de Maio, paralisada pelos torcedores e veículos, e a gente se abraçando com desconhecidos, agitando bandeiras, gritando e chorando de alegria. Era uma catarse. O País, sob a mais dura Ditadura Militar, abria uma janela para a felicidade. Por isso, aproveitávamos ao máximo. Como era bom ver aquele time jogar, como ele fazia a gente sentir prazer.

O documentário da Netflix tem esse momento de confissão. Vi dezenas de entrevistas de Pelé e sinceramente não me lembrava dessa história, que tinha se passado no ônibus, momentos antes da final. Pelé se emociona. Começa a chorar. Pede desculpas. Depois, o documentário prossegue. Mas esse é realmente o melhor momento, o mais humano, o mais penetrante. 

Vencer uma Copa do Mundo é atingir o grau máximo no futebol. Comparado com a graduação acadêmica, é igual a conquistar um doutorado. Messi venceu a Liga dos Campeões com o Barcelona. Muito bom. Equivale a um mestrado. Messi nunca venceu uma Copa do Mundo. É igual a Zico. Ambos, só têm o mestrado. Nenhum deles conquistou o título de "doutor". Pelé tem doutorado. É rei e doutor. PhD em futebol.  

O documentário erra ao insistir na relação entre Pelé e os ditadores de plantão. Mostra imagens da Seleção campeã, sendo recepcionada por Médici, que ergue em triunfo a taça Jules Rimet. Fica subentendido que Pelé apoiava a Ditadura. Isso nunca ocorreu, porque Pelé nunca tomou partido. Nem a favor, nem contra.  

Para os documentaristas David Tryhorn e Ben Nicholas, Pelé teria "obrigação" de se posicionar contra a Ditadura. Seguir o exemplo de Muhammad Ali, que se negou a lutar no Vietnã e, por isso, foi preso e perseguido em seu país (Estados Unidos). O ideal seria Pelé estar preso e torturado em 1970 e não disputar a Copa? 

O problema, caros Tryhorn e Nicholas, é que Pelé transcende o político. Pelé não faz parte de partidos políticos. Nunca fez. Pelé escreveu sua história dentro das quatro linhas. E que história... Antes dele, o Brasil era um lugar desconhecido, um fim de mundo qualquer. Pelé colocou o Brasil no mapa. Deu ao país uma identidade, um lugar de honra. 

Lembro de estar em Champagne, interior da França, onde trabalhava na colheita de uvas, em 1982. O pessoal da vindima organizou uma pelada e tive a sorte de fazer vários gols. Daquele dia em diante, passei a ser chamado de "Pelezinho". Na Europa, onde você chegava nos anos 1980 e mesmo nos anos 1990, era só falar a palavra mágica "Brasil", que logo em seguida o interlocutor dizia, com olhar cheio de admiração: "Brasil! Pelé".  

Por que cargas d'água Pelé estragaria sua biografia ao fazer parte do MDB, por exemplo? Ou do PT? Ou do PSL? Ou de qualquer outro partido político, que só tem trazido vergonha para os brasileiros? Pelé fez muito bem em ficar acima dos partidos políticos. 

Ao assumir o Ministério dos Esportes, em 1995, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, Pelé criou uma lei específica para tentar acabar com a corrupção e dar mais liberdade aos atletas, que antes tinham uma relação de "escravidão" com os clubes. Ficou conhecida como a "Lei Pelé".

O documentário não mostra, mas é bom lembrar que Pelé declarou que "brasileiro não está preparado para votar". Quando a gente constata que 57 milhões de eleitores deram a Presidência do Brasil a um político que homenageia torturadores, ficamos assim, meio que envergonhados, em constatar que Pelé estava com a razão. Nada a ver com a volta da Ditadura, mas, sinceramente, estava na hora dessa "gente de valor" começar a estudar história, ler livros, se informar. É preciso estar "preparado" para votar. Preparado intelectualmente. 

Por causa desses 57 milhões 796 mil e 986 brasileiros, que apoiaram alguém que é declaradamente homofóbico, não temos vacina contra a covid-19, não temos plano de vacinação, estamos morrendo às pencas, destruindo a imagem do país tropical, "abençoado por Deus e bonito por natureza".

Sinto pena da garotada de hoje que não terá a mesma sorte que tive. No alambrado do Pacaembu (antes de ser privatizado), assisti a jogos memoráveis, na companhia do meu pai. Vi Pelé fazer gols, jogadas inacreditáveis, driblar e nos enfeitiçar com seu brilho único. Aquele uniforme branco do Santos era um deslumbre. Vi Mané Garrincha também. Se fechar os olhos, vejo Garrincha em duelo contra Geraldo Scotto, o lateral esquerdo do Palmeiras, que conseguia dar o bote e, às vezes (nem sempre), desarmar Garrincha. Quando isso acontecia a gente gritava, como se o Palmeiras tivesse feito um gol.

Sinto pena da garotada por não poder frequentar os estádios por causa da pandemia, por culpa da inaptidão de um presidente negacionista e, pior, quando isso tudo for deixado para trás, sinto pena da garotada que não encherá as arquibancadas porque sem craques não há futebol que resista.

E sinto mais pena ainda dos argentinos que nunca tiveram um Pelé e tiveram que se contentar com um Maradona.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

No Código de Trânsito dos Motociclistas, vale tudo

 


Em São Paulo, existe um Código de Trânsito Brasileiro dos Motociclistas. Tem pouca relação (ou nenhuma relação) com a Lei 14.071, de 13 de outubro de 2020 e também com a Lei 9.503 de 23 de setembro de 1997, que instituem normas de circulação de veículos.

O Código de Trânsito Brasileiro para Motociclistas é específico. Não está escrito (nem desenhado) em lugar nenhum. Mas apenas os motociclistas o conhecem. 

O semáforo, por exemplo, tanto faz estar no vermelho, verde ou amarelo. Quando houver um semáforo, significa que o motociclista pode passar. 

"Mesmo no vermelho?", uma pessoa mais ingênua pode questionar.

"Principalmente, no vermelho", dirá o motociclista.  

Nas ultrapassagens, o Artigo 29, inciso 9 do Código de Trânsito Brasileiro diz o seguinte: "A ultrapassagem de outro veículo em movimento deverá ser feita pela esquerda, obedecida a sinalização regulamentar e as demais normas estabelecidas neste Código".

Já o Código Brasileiro de Trânsito dos Motociclistas, que não está escrito, vai dizer o seguinte: "Ultrapasse pela direita, pela esquerda, pelo meio dos carros, pelo acostamento, por onde você puder. E não precisa sinalizar". É um código liberal. Permite muita coisa.

Em geral, as ruas da cidade tem mão e contramão. Setas indicam quando a rua é mão e quando é contramão. Para os motociclistas, toda rua é mão. Aquelas setas que indicam que você não pode entrar com seu carro naquele sentido são desnecessárias. Se você estiver em uma moto, aprenda: não tem contramão. É tudo mão. Tem outra: pode ir na direção do carro, em rota suicida, que ele vai desviar. 

Sabe aqueles radares de velocidade?

Pois é, não funcionam para motocicletas. Os radares, coitados, foram concebidos para veículos de quatro rodas. Veículos de duas rodas podem acelerar a vontade. O radar nunca vai flagrá-los na velocidade acima da permitida.

Assim, o Código Brasileiro de Trânsito dos Motociclistas permite trafegar em qualquer velocidade. Quer ir a 20 km/h? Pode. Quer correr a 120 km/h em uma via onde a velocidade permitida é 50 km/h? Pode. Ande voando pelas ruas. Faça o que lhe der na telha. Nenhum radar vai multá-lo. Os radares não existem para motocicletas.

O código particular dos motociclistas também permite outras liberalidades. No caso daquele motorista que mudou de faixa, está permitido ao motociclista puni-lo exemplarmente, dando pontapés na porta do carro e também destruindo o espelho retrovisor. 

Um site especializado em Justiça informa que "de acordo com as leis de trânsito brasileiras, as motos são obrigadas a obedecer às mesmas leis designadas para os carros. Portanto, andar no corredor de trânsito, sem garantir a segurança completa, é uma violação da legislação". Na prática, não é isso que acontece. O motociclista pode andar em ziguezague, pode acelerar o quanto quiser no corredor de trânsito, pode tudo.

O Código Brasileiro de Trânsito limita o uso de buzina. Especifica que a buzina deve ser usada "de forma breve, apenas para alertar outros usuários da via". O código dos motociclistas diz outra coisa: "Buzine o quanto quiser, a hora que quiser, vá acelerando e buzinando".

As autoridades municipais desistiram de fazer valer apenas o Código de Trânsito Brasileiro. Por omissão, elas permitem o Código Brasileiro de Motociclistas, que ainda não foi escrito, mas vigora peremptoriamente. 

As motos usam a faixa de pedestres como estacionamento. Se você é velho e andar tropegamente, ouvirá a moto sendo acelerada, os giros subindo num sinal de alerta de que será atropelado nos próximos segundos.

As calçadas também fazem parte das ruas e avenidas. As motos circulam à vontade pelas calçadas, arrepiando as jovens mamães que passeavam supostamente tranquilas com seus carrinhos de bebê de baixíssima velocidade. 

No passado, houve tentativas para enquadrar os motociclistas, dentro dos limites do código oficial, mas fracassaram. O resultado desse "deixa pra lá" é o cenário da burrice extrema. Cerca de 42% das mortes no trânsito são de motociclistas. Todo dia morre ou fica gravemente ferido um motociclista em São Paulo. Nos acidentes, eles perdem pernas, braços, mãos, pés. Ficam quebrados, andando com muletas e parafusos enfiados nos membros. Passam por longa recuperação. Quem paga o tratamento somos nós, os pagadores de impostos. Em dez anos, o SUS gastou 3 bilhões de reais com acidentados no trânsito. Muitos deles, motociclistas. 

No cenário da burrice extrema, o motociclista vem em alta velocidade no corredor de trânsito. Nenhuma autoridade vai freá-lo, vai impedir que ele continue fazendo bobagem. Vale a omissão da autoridade de trânsito, que verá o motociclista se esborrachar mais adiante na porta de um carro, na traseira do ônibus, no para-choque do caminhão. Eles se chocam contra tudo que se move, inclusive outras motocicletas. Contra o que está parado: árvores, postes, muros.

"Isso ocorre eventualmente", dirá o otimista crédulo.

Não. Acontece todos os dias. Agora mesmo, enquanto você está lendo esta postagem. Nesse minuto, um motociclista está sofrendo um acidente. Ele vai morrer no meio do trânsito ou vai precisar ser removido com urgência para um hospital. 

O que acontece em seguida é um pandemônio citadino e caótico. Carros e motos do departamento de trânsito vão interromper a avenida, marginal, rua, seja lá onde for que tiver acontecido a desgraça. O trânsito vai ficar paralisado. Quem estava contando em chegar no trabalho, na escola, em seu destino, pode esquecer. Vai ficar estacionado por muito tempo, aguardando a chegada de um helicóptero que vai aterrissar no meio da avenida para colocar o moribundo em uma maca e levá-lo ao hospital mais próximo. É um ritual que poderia ser evitado, mas tem de ser repetido diariamente, como parte da burrice institucional vigente. 

O telejornal matutino vai acionar a reportagem que está em outro helicóptero. As imagens vão mostrar o trânsito paralisado. A motocicleta acidentada, tombada no asfalto, enquanto a equipe de salvamento coloca o ferido na maca. 

"Acidente com moto e carro interrompe o trânsito..."

"Acidente com moto e caminhão paralisa a avenida..."

E amanhã vai acontecer tudo de novo.       


  


sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

"A vida pela frente" ganhou a versão "Rosa e Momo"



Quando "A vida pela frente" foi lançado na França, em 1975, o livro transformou-se em sucesso imediato. Trazia temas em ebulição, como conflito árabe-israelense, a relação entre argelinos e franceses, imigrantes excluídos, preconceito racial, LGBTs e eutanásia. 

Seu autor era completamente desconhecido. Chamava-se Émile Ajar. Sucesso de vendas, o livro foi agraciado com o Goungourt - o principal prêmio literário francês. 

Em 1980, morre o escritor Romain Gary, mundialmente conhecido, vencedor do prêmio Gouncourt, em 1956. Em seu testamento, o imigrante lituano, radicado na França, Romain Gary confessava que ele e "Émile Ajar" eram a mesma pessoa. 

Lançado no Brasil pela editora Todavia, "A vida pela frente" não perdeu a atualidade. É daqueles livros para se ler em um fim de semana. Conta a história de um garoto árabe, de olhos azuis, chamado Momo (Mohammed), sem pai, sem mãe, entregue aos cuidados de Madame Rosa, ex-prostituta, que ganhava a vida cuidando dos filhos de prostitutas ainda em atividade. Eles moram no quartier popular de Belleville, no sexto andar de um prédio sem elevador. 

Madame Rosa é muito gorda, está com quase 70 anos, sofre de várias morbidades, mas - como gosta de afirmar Momo - "não tem câncer".
Madame Rosa é judia e sobrevivente do campo de extermínio de Auschwitz. Cada vez que precisa subir as escadas e chegar até o 6º andar, onde mora, Madame Rosa é tão imensa, que precisa ser auxiliada pelas crianças, que cuida, e até por parrudos carregadores de piano. 

O autor traz, então, um menino muçulmano, sendo cuidado por uma velha judia. A mensagem subliminar é que todos nós precisamos de alguém, independente de nossas origens e crenças. Aliás, afirmações de raça, origem, religião costumam ter o mérito de atrapalhar as relações.

No velho prédio de Belleville, a desgraça e a miséria une todos, sem ligar para procedências. No prédio, moram imigrantes africanos, árabes e até franceses. 

A casa de Madame Rosa é frequentada por cafiolas. Um deles, o sr. N'Da Amédée, analfabeto, pede para Madame Rosa escrever cartas para seus parentes da África, contando suas realizações imaginárias na França, onde estaria cursando uma suposta faculdade de engenharia. 

Madame Lola, vizinha de Madame Rosa, veio do Senegal. Lá, ele era um robusto e agressivo lutador de boxe. Em Paris, ganhou seios, bunda, feminilidade e leva a vida prostituindo-se no Bois de Boulogne. É a "travestite", como Momo a chama. 

Na versão da Netflix, Momo é um garoto negro. Madame Rosa é vivida por Sophia Loren, magérrima, dirigida por seu filho Eduardo Ponti. Outra personagem - Madame Lola - é uma travesti branca, que toca discos de autores brasileiros. São remanejamentos que a gente até entende, mas, para quem conhece o livro original, causa estranhamento.

Sophia Loren, símbolo sexual nos anos 50 e 60, está com 86 anos. Ela povoava os sonhos eróticos de gerações de meninos e adolescentes. Suas fotos emblemáticas, com os seios em projeção nos decotes ousados, ornavam as paredes dos quartos de milhares de garotos. É preciso ter muita coragem para expor sua velhice inexorável, diante das câmeras. 

Bem diferente de Greta Garbo, "a esfinge sueca", que abandonou a carreira no cinema, em pleno apogeu, quando estava com 36 anos, nunca mais quis ficar diante de uma câmera e foi viver uma vida reclusa em Nova York. Procurada pela imprensa, alvo crônico dos paparazzi, Greta Garbo costumava dizer àqueles que batiam à sua porta: "Quero ficar só" (I want to be alone). Frase que se tornaria emblemática. 

A velhice de Sophia Loren, atirada sem fotoshop na tela, tem essa simbologia triste da vida e da beleza efêmeras. Ao vê-la assim, percebemos que os fãs, aqueles meninos que a projetavam em seus desejos proibidos, também se tornaram idosos. Seus acalentados sonhos eróticos também desapareceram, tristemente, na neblina do tempo.       

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

PT, saudações

 

Em plena greve dos metalúrgicos, em 1978, eu fazia frila para um jornal de esquerda, que era impresso todo em vermelho. Eles não costumavam pagar os colaboradores. Havia uma lógica nisso, mas nunca entendi bem qual era. Eu sei que, para cobrir uma pauta, fui parar no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Tarde fria, com a neblina característica daquela cidade.  

Ditadura militar, as greves estavam proibidas, livros de autores como Érico Veríssimo, Rubem Fonseca, Jorge Amado foram censurados, filmes vetados, atores de teatro espancados, gente torturada e morta e mesmo assim os metalúrgicos, que trabalhavam nas grandes montadoras, em um ato político de coragem invejável, desafiaram os militares e paralisaram as fábricas. 

Na época, Lula não usava barba. Apenas, um bigode. Havia ali no sindicato, grevistas, muita agitação nos corredores e Lula era um polo magnético, um buraco negro atraindo e puxando tudo em volta dele. Nos anos 70, falava-se muito em aura. Então, havia uma aura de celebridade ao redor do líder metalúrgico, que ganhava as manchetes no Brasil e no exterior.

Eu estava ao lado de Lula, anotando suas declarações, quando surge alguém e dá uma caixa de sapato para ele. Lula para de falar. Abre a caixa e seu rosto fica iluminado por um sorriso de satisfação. Dentro, um par de sapatos de cor escura. Lula perguntou para a pessoa, que tinha lhe dado o agrado: "É mesmo cromo alemão?". O outro confirmou. 

Não sei por que, achei aquilo um mau presságio. Maior greve, milhares de trabalhadores iam perder o emprego, um momento de ruptura institucional e o cara que estava por trás de tudo aquilo ficava feliz, como uma criança, ao receber um presente...Um par de sapatos?

Nos meus anos de jornalista, em empresas de comunicação, nunca aceitei presentes, que os colegas chamavam de "jabaculê". Passei por situações constrangedoras, com assessor me ligando, xingando, por eu ter recusado um presente. "Você acha que estou querendo te comprar com essa porra?", um assessor gritou comigo no telefone. 

Quer saber, sim, você estava tentando me comprar com o seu presentinho. "Quem presenteia quer seduzir", dizia o camarada Marx. Hoje, o "jacabulê" institucionalizou-se. Os tais "influencers" ganham para divulgar produtos. Qual é a ética desse procedimento? Talvez, não haja ética alguma. As pessoas esqueceram esse comprometimento, em determinado momento da caminhada.

Dois anos depois, em 1980, o PT era criado e nascia espalhando-se vertical e horizontalmente por todo o País. O PT era uma marca de sucesso. A estrela vermelha de cinco pontas, idealizada pelo jornalista Julinho de Grammont no Bar da Rosa (vizinho ao Sindicato dos Metalúrgicos), era vendida em broches, em bandeirinhas, em adesivos de plástico. Um sucesso! 

(Em conversa comigo, Grammont falou que estava com colegas no Bar da Rosa, tomando conhaque Domecq, quando desenhou um esboço da estrela em cima da mesa de madeira. A Rosa, dona do bar, guardou durante alguns anos a mesa, até a peça ser substituída por mobiliário moderno. A estrela ganharia contornos mais definidos com a ajuda de Hélio Vargas, ilustrador, que fazia um personagem de muito sucesso no jornal do sindicato, chamado João Ferrador. "Muitos metalúrgicos achavam que João Ferrador existia mesmo", me contou Grammont, pouco antes de falecer em um acidente de carro na via Anchieta.)

O crescimento do PT começa de forma exponencial crescente. Nove anos depois da fundação do partido, Lula disputa a Presidência e vai para o segundo turno com Collor. Erundina conquista a prefeitura de São Paulo, em uma virada incrível sobre Paulo Maluf. A campanha de Collor é rasteira, fedorenta. Traz uma ex-mulher de Lula para atingir o candidato petista no seu lado mais vulnerável: a intimidade. Surge uma filha de Lula, "bomba bomba", como um asteroide fumegante, que desaba sobre o telhado dos eleitores. No outro dia, Lula aparece com a filha, que fica muda diante da TV (por que ela ficou muda?), enquanto Lula fala que era ele quem cuidava da menina.  

No debate na TV Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, então todo poderoso executivo da TV de Roberto Marinho, pega pastas e enche de papéis em branco e as entrega a Collor, como se ele fosse fazer alguma grande denúncia contra o ex-metalúrgico. No debate, Collor menciona, com inveja simulada, que Lula tinha um "três em um" em sua casa. Três em um, na época, era vitrola, rádio e toca-fitas. Lula fica constrangido, responde de forma enviesada, esquecendo de mencionar no debate que Collor não tinha apenas um prosaico "três em um", mas era dono de uma gigantesca retransmissora de TV em Alagoas, filiada da Rede Globo.

Como sempre, o surrado discurso anticomunista da direita tornava-se próximo das pessoas comuns. Lembro de levar minha mãe votar no Liceu Pasteur, na Vila Clementino, e na porta do colégio eleitoral um brucutu agitava a bandeira do Brasil e gritava para nós: "Não vamos deixar os comunistas tomar o poder. Vote em Collor". 

O governo Collor acaba, desmanchado pela corrupção. Assume o vice, Itamar Franco, que faz um "mandato tampão" excepcional, enfiando uma estaca de madeira no coração da inflação, que era de seis ou mais dígitos. Viriam oito anos de Fernando Henrique Cardoso, que tinha, sem dúvida, a liturgia do cargo. Era um presidente educado, gentil, inteligente, sociólogo, acadêmico, ex-professor, na Universidade de Nanterre, do líder da revolta estudantil de 1968, em Paris, Daniel Cohn-Bendit, o "Danny le rouge". 

Diante daquilo que temos hoje no Palácio do Planalto, sinto muita falta da polidez ilustrada de FHC.

Na campanha eleitoral de 1998, FHC é exibido com terno, gravata, asseado e bem disposto, sentado ao lado de um cardeal (ou equivalente), no que parecia ser um jardim edílico; enquanto Lula e dona Marisa faziam uma caminhada cansativa, de doer os calos, dar bolhas nos pés, pelo abandonado Caminho do Mar. 

Nos anos seguintes, a campanha do PT torna-se profissional ("brilha uma estrela, Lula lá") e vai garantir a eleição de Lula em 2002; sua reeleição em 2006; a eleição de Dilma Roussef, em 2010; e também a reeleição de Dilma, em 2014.

O PT não era apenas uma marca de sucesso. O PT tinha conquistado o poder. Dominava estados e prefeituras. Em 2002, eu estava no luxuoso Hotel Intercontinental, em São Paulo, fazendo a cobertura do discurso de vitória de Lula. A emoção era contagiante. Vinte e dois anos depois de fundar o PT, Lula chegava à Presidência e rebatia Regina Duarte e direitistas, apavorados diante do "perigo vermelho": "A esperança venceu o medo". 

Os governos Lula até a derrocada de Dilma Roussef foram de crescimento econômico, elevação do IDH, investimento em educação, saúde e estabilidade econômica. O País ia bem. A cada nova eleição, Lula e os políticos, que tinham sua benção, eram sacramentados pelos votos.

Em relação aos inimigos, Lula agia de forma pragmática. Deixava o fígado de lado. No apoio a Fernando Haddad, que venceu a eleição para a prefeitura de São Paulo, chegou a ir com o seu candidato dar a mão a Paulo Maluf. Por mais que você limpe com álcool, passe desinfetante, não tem como ficar realmente limpo, depois de dar a mão a Paulo Maluf. 

Velhos oligarcas como José Sarney, Fernando Collor viravam aliados. A Rede Globo ia bem, obrigado, ganhando verbas do poder público, se municiando, esperando a hora de atacar e derrubar o governo petista. 

Então, desabaram os escândalos. O primeiro "Mensalão", com Roberto Jefferson que, entrevistado por Renata Lo Prete, da "Folha de S.Paulo", contou que o PT comprava deputados por 30 mil reais, para votar projetos de interesse do governo. Veio o "Petrolão", gigantesco esquema de corrupção, denunciado pela operação Lava Jato, que revelou - finalmente - as entranhas das negociatas entre empreiteiras, partidos políticos, operadores, que deram um prejuízo estimado de 42 bilhões de reais à Petrobras. Políticos, empreiteiros, doleiros, funcionários foram presos e condenados. A Lava Jato conseguiu recuperar cerca de 6 bilhões de reais. 

O esquema era simples: a empreiteira era contratada pela Petrobras e cobrava um valor superfaturado pela obra. A quantia "extra" paga pelos empresários, para conseguir fazer a obra, ia para os cofres dos partidos e de políticos corruptos.

Nesse momento, a estrela do PT começou a perder o brilho. Foi se desfazendo aos poucos. Foi se descolorindo. 

Até então, era impensável que o PT, um partido de trabalhadores, pudesse estar envolvido em tanta coisa suja, imoral, antiética. Como um partido, que se pretendia ser diferente dos demais, podia ter caído nas mesmas artimanhas dos partidos tradicionalmente corruptos? Era um descalabro. Tudo bem, o PT não havia inventado a corrupção, mas o partido não tinha o direito de mergulhar no mesmo jogo sujo.

A Lava Jato foi atrás de Lula. O promotor Deltan Dallagnol e o então juiz Sergio Moro fecharam o cerco. Em setembro de 2016, Dallagnol convoca a imprensa e exibe um "power point" amador e pouco convincente com flechas apontando para o "chefão do crime" (Lula). 

Lula seria condenado e preso por Sergio Moro. Ficaria na prisão por 580 dias. Investigado pelo apartamento no Guarujá e pelo sítio em Atibaia, não havia realmente provas de que os imóveis pertencessem a Lula, nem que o dinheiro de propina da Petrobras fora usado como favorecimento ao ex-presidente. 

A Vaza Jato, série de documentos revelados pelo site "The Intercept Brasil", com colaboração do premiado jornalista Glenn Greenwald, revelou que os promotores da Lava Jato mantinham uma relação "incestuosa" com o juiz Sergio Moro, que orientava e aconselhava a acusação, em uma inédita - e preocupante - demonstração de parcialidade entre acusador e juiz.  

Moro conquistou a simpatia do público e deu um tiro no pé ao aceitar o Ministério da Justiça, oferecido pelo recém-eleito Jair Bolsonaro. Moro, que havia abandonado sua carreira de juiz federal, encerraria sua passagem-relâmpago no Ministério da Justiça, depois de 15 meses ou 480 dias. Moro saiu atirando. Acusou Bolsonaro de interferir nas investigações da Polícia Federal.

Em novembro de 2020, o PT foi varrido das urnas. Não conseguiu eleger nem um único candidato a prefeito nas capitais. Cansados, os eleitores derrotaram Lula e também Bolsonaro. 

O que fazer agora com a estrela do PT? Em uma postagem recente, pré-eleições municipais, o jornalista Ricardo Kotscho escreveu, em sua coluna no Uol: "Aos 40 anos, PT chega às eleições envelhecido, sem votos e sem rumo". Como se tivesse bola de cristal, Kotscho previa que o PT dificilmente elegeria algum candidato nas capitais. O PT pediu direito de resposta, mas a resposta principal veio das urnas. O Partido dos Trabalhadores naufragou de fato na eleição municipal. Kotscho foi secretário de imprensa do Governo Lula, de 2003 a 2004, portanto devia saber o que estava escrevendo.

O PT conta com 1 milhão e 500 mil filiados. É uma força política considerável. Mas parece ter perdido o magnetismo. Enquanto nos anos 80, o partido crescia, a marca brilhava intensamente, era um centro de atração irrefreável (lembro das barraquinhas de feira do PT, vendendo broches, bandeiras e adesivos; lembro das militantes de minissaia, batendo na porta dos eleitores; lembro dos patrões proibindo os jornalistas de usar o broche estrelado do PT); hoje, as pessoas querem distância da estrela. 

Talvez, uma solução possível fosse um expurgo, semelhante ao célebre discurso de Nikita Kruschev, em 1956, diante de 1.500 estupefatos dirigentes do Partido Comunista da URSS, denunciando a prisão de 1 milhão e 500 mil pessoas e assassinatos de outras 690 mil, todas vítimas do ditador soviético Josef Stalin, "o guia genial de todos os povos". Kruschev lavou roupa suja em público. Jogou merda no ventilador. 

O PT deveria fazer o mesmo, em busca de sobrevivência e redenção.     

 

       


 

   

   

     

  


terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Walking dead, O gambito da rainha et caetera


Buscar o verossímil em uma série inverossímil é uma tarefa árdua. A série norte-americana "Walking Dead" fala de zumbis. Mortos-vivos. Um vírus alienígena (ou algo parecido) transformou a maior parte dos habitantes da terra em zumbis. Eles andam pra lá e pra cá, em busca de seres vivos (sobreviventes). Quando encontram um coitado, avançam sobre ele e o comem. O sujeito é devorado, em meio a gritos lancinantes. Imagine como deve doer ser comido vivo por um zumbi, que é um morto-vivo. 

Mas os mortos-vivos também morrem de vez. Para isso, você precisa espetar seu cérebro com um objeto afiado. Pode ser uma faca. Se você não tiver uma faca, pegue um martelo e arrebente a cabeça dele. Os mortos-vivos estão em decomposição. Seus corpos estão se desintegrando, enquanto percorrem longas distâncias em busca de carne fresca. Pedaços de carne ficam pendurados nos braços, pernas e pescoço. O rosto é uma caveira, parcialmente, coberta de restos de carne podre. A visão não é das mais agradáveis. 

Se você não tem mais nada de importante para fazer na vida, nada mesmo, se você está se sentindo extremamente cansado de tanta notícia ruim, nada melhor que sentar na sua poltrona puída, se armar com uma cerveja quente, salgadinhos e "maratonar" a série, transmitida pela Netflix, em sua - inacreditável - 9ª temporada.

A série baseia-se em uma história em quadrinhos. É, portanto, destinada ao público adolescente. Os adultos devem assistir com um certo peso na consciência. O roteiro é limitado ao extremo: grupo de sobreviventes, que não se transformaram em mortos-vivos, luta para encontrar um local seguro (não há local seguro em um mundo dominado por zumbis, é claro). Ao longo de sua jornada, precisa enfrentar, além dos zumbis, os vilões. É esse o roteiro, repetido à exaustão. A partir daí, é possível criar uma série de situações. Fique preparado: os vilões são muito vilões. São malvados mesmo. Sádicos, assassinos, cruéis, insensíveis. Estão lá para bagunçar o coreto. 

Um desses vilões - um certo Negan - prende o grupo de sobreviventes, comandado pelo ex-xerife Rick Grimes. Os infelizes são obrigados a se ajoelhar, enquanto Negan mata uns dois ou três, aleatoriamente, com um taco de beisebol, enrolado em arame farpado. 

Enquanto até a sexta temporada, havia algum nexo, na sétima e oitava temporada, os roteiristas fizeram tantas bobagens, que passou a ser um sacrifício tentar acompanhar a história. Sem mais ideias, eles (os roteiristas) passaram a perder o nosso tempo com personagens, sem qualquer interesse. Era preciso achar histórias para encompridar os episódios. É um exercício exaustivo. Cada temporada tem 16 episódios. Cada episódio, em média, 48 minutos. 

Em meio a uma guerra contra um vilão cruel, como Negan, aparece um "sensei" pacifista, armado com um bastão. O "sensei" se recusa a matar os vilões. 

Imagine você na pele de um pacifista, diante de um campo de concentração nazista. Tem lugares que não foram feitos para pacifistas. Para destruir o campo de extermínio nazista, você precisa de armas, estratégia de combate e soldados com coragem suficiente para matar todos os nazistas que estiverem na sua frente. 

Então, esse "sensei" não tem o que fazer nesse fim de mundo de "Walking Dead". É tão inverossímil quanto as milhares de oportunidades que o herói Rick Grimes teve em 32 episódios ou 1.536 minutos para acabar com a raça do vilão Negan. Mas não. Até a sexta temporada, o ex-xerife não pensava duas vezes: se tivesse chance, acabava com a raça do vilão. 

Não sei se houve troca de roteiristas. Não sei se os roteiristas estavam com o saco cheio de escrever sempre a mesma história, o fato é que o ex-xerife vira um bobão. 

O vilão aparece sozinho diante da porta da comunidade em que Rick Grimes vivia. O que qualquer sobrevivente de zumbis faria? Meteria chumbo grosso no vilão Negan. Menos o novo Rick Grimes. Não, ele se submete de bom grado. Fica à mercê das desgraças perpetradas pelo vilão. 

As bobagens da sétima e oitava temporada se sucedem, impiedosamente. A série tem um personagem rastreador, meio índio, capaz de se movimentar com fluidez na floresta. Ele se chama Daryl e está sempre com o cabelo sujo, a franja jogada estrategicamente sobre os olhos (alguém poderia fazer a gentileza de cortar o cabelo dele?). Mesmo tendo em seu currículo a capacidade de encontrar rastros, quase invisíveis na mata, volta e meia Daryl é surpreendido por vilões, em seu habitat natural - a floresta. Seria o mesmo que você conseguir se aproximar de um tigre e dar um tapinha nas costas do bicho.

Em geral, personagens simpáticos, que atraem a empatia do público, são sumariamente eliminados da série. A maior parte dos diálogos não tem qualquer sentido. Como diz um amigo meu caipira, "é conversa pra boi dormir". 

Sem falar das milhares de possibilidades desperdiçadas. O mundo, como a gente conhecia, acabou. Perfeito. Cães, gatos, animais selvagens vão dominar territórios. Imagine aves carniceiras, como abutres, que festa não fariam em meio a milhões de seres putrefactos ambulantes. Cães aparecem rapidamente e não há mais gatos no mundo "Walking Dead". Os roteiristas, talvez, odeiem felinos.

O aviso da Netflix informa se tratar de série com cenas violentas e de "extrema violência". Talvez esteja aí o segredo das nove temporadas. Existe uma função terapêutica nas sucessivas mortes, que acontecem no decorrer dos episódios. O público descarrega sua pulsão de destruição, de forma vicária. Os mortos-vivos são apenas id (pulsões inconscientes, às vezes, incontroláveis), na designação de Freud. 

O público sente prazer ao ver como os zumbis são eliminados. É como se o cara gordão, enfiado na poltrona esmaecida, mastigando seu salgadinho engordurado, estivesse ele mesmo enterrando uma estaca na cara do zumbi feioso. Os vilões, igualmente, também são id. 

Já os sobreviventes são egos, perdidos em uma floresta imensa de ids. Segundo Freud, o ego faz a intermediação entre o inconsciente e a realidade. Quem se comunica com a sociedade é o ego. Às vezes, o id aflora e ocorre o que se chama de "ato falho".

Não vou mencionar os nomes dos roteiristas, nem dos atores e diretores. Eles devem ter vergonha de colocar essa participação profissional em seus currículos. Eu também teria.


Eis que a minissérie "O gambito da rainha" tem atraído o público de aficionados por xadrez e outros nem tanto. Em sete episódios, acompanhamos a trajetória de uma menina-prodígio, que sai de um orfanato para duelar com os grandes mestres do xadrez. 

A minissérie baseia-se em um livro, publicado em 1983. Um jornalista do "The New York Times" gostou tanto do livro, que resolveu comprar os direitos para filmagem. Só que o filme não foi feito. Transformado em série da Netflix, quase deixei de assistir, por causa do título. "Gambito" me lembra "cambito" que é perna fina. Na realidade, "gambito da rainha" é uma jogada de enxadristas. Não sabia. Não tenho paciência para jogar xadrez, nem cartas, nem banco imobiliário.

A minissérie conta com a participação da atriz Anya Taylor-Joy, de olhos perturbadores e expressão enigmática. Mesmo quem não gosta de xadrez, vai se interessar pela série, que conta aquela história que sempre dá resultado. Pessoa pobre, abandonada, humilhada pela vida, consegue sucesso por méritos próprios. É uma fábula. Mas quem é que não gosta de fábulas.

O problema maior de "O gambito da rainha" é o viés ideológico. Os norte-americanos parecem não se conformar que a Rússia deixou de ser comunista e continuam incomodados com esse gigante da Europa Oriental. Lá vamos nós, novamente, em plena guerra fria, para provar que os norte-americanos são superiores aos russos e vão vencer todas as batalhas. Ainda que seja em um tabuleiro medíocre de xadrez. 

Enfim, como me disse Dostoiévsky, "parar de ler livros é parar de pensar". 

Vamos em frente. 


  

      

   

   


segunda-feira, 23 de novembro de 2020

As narrativas e suas armadilhas

 


A cobertura da morte de João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, assassinado por dois seguranças, em uma loja da rede Carrefour, no bairro Passo da Areia, em Porto Alegre, caiu na armadilha da “narrativa”.

Essa expressão é utilizada por articulistas de extrema-direita, como Rodrigo Constantino, e serve para insinuar, com evidente dose de exagero, que determinada notícia sofre de “desvio ideológico esquerdizante da mídia canalha”.

Até hoje, lendo jornais e vendo o noticiário das TVs, não tinha ideia da extensão da folha corrida de João Alberto, chamado intimamente de “Beto” nas manchetes, como se fosse amigo dos redatores. No Uol, um texto, que tentava (sem sucesso) trazer o perfil de João Alberto o chamava de “marido errático”. Sabe-se lá o que isso significa.

Só encontrei o que procurava no site bolsonarista “Terça Livre” https://tercalivre.com.br/entenda-o-caso-de-beto-e-sua-longa-lista-criminal/, em um texto escrito por um certo Brehnno Galgane, que se apresenta como “graduando em filosofia pela PUC-Rio, católico e cultivador de uma narrativa que tenha sentido segundo a forma humana”, traz uma relação considerável de crimes praticados por João Alberto. Escreve o católico Galgane:

“Em sua ficha criminal, encontram-se acusações como porte ilegal de arma de fogo, rapto consensual, entorpecente e posse, violação de domicílio, injúria qualificada, embriaguez, descumprimento de medida protetiva, ameaça (várias vezes), desobediência, lesão corporal (várias vezes), perturbação, foragido da justiça e ameaça de morte com agressão”.

Segundo o site “Terça Livre”, entre outros crimes, João Alberto espancava a ex-mulher. Ele tinha condenação pela Lei Maria da Penha. O pai dele, João Batista Rodrigues Freitas, também havia sido acusado de bater na ex-mulher de João Alberto e ainda a teria agredido verbalmente, chamando-a de “macaca”, o que é injúria racial.

Em resumo, se eu soubesse quem era João Alberto e o visse na rua, certamente, iria mudar de calçada. Não é saudável a gente cruzar com gente, que tenha esse “currículo” policial.

Essa informação do passado criminoso de João Alberto tem importância para o entendimento dos fatos. Não se trata de atribuir culpa à vítima. Isso não é correto. João Alberto está morto. Sua vida foi tirada. Por um princípio ético e civilizatório, não se “condena” a vítima. Mas como público tenho direito de ser bem informado. Não me sinto à vontade, sabendo que determinada informação foi oculta, para “favorecer a narrativa”.

O noticiário televisivo, principalmente da TV Globo, conduziu o fato por um viés racial. O ocorrido se deu na véspera do Dia Nacional da Consciência Negra. O bombardeio da divulgação de um vídeo da “morte de um homem negro por seguranças no Carrefour” desencadeou efeito cascata, com manifestações em várias cidades. Lojas do Carrefour foram depredadas. Várias unidades precisaram ser fechadas para evitar o pior.

Um twitteiro de direita pontificou: “Todos os dias um negro é morto pelo tráfico, porque vocês não sobem na favela e colocam fogo na casa dos traficantes?”.

O fato positivo é a visível mobilização de grupos negros e antirracistas, possivelmente, de esquerda. Eles estão “antenados”, em comunhão, com capacidade invejável de ir para a rua e iniciar os protestos. No sábado, 180 metros da avenida Paulista, em frente ao Masp, amanheceram pichados com a frase, importada de movimentos norte-americanos: “#Vidas pretas importam”. 

Esta mobilização é muito bem-vinda em País de racismo velado, como o Brasil. Não temos apartheid estatal, como havia na África do Sul e Estados Unidos, com negros proibidos de frequentar escolas, bares, lojas e transporte público ao lado de brancos. Nosso racismo é oculto, está no não dito, na frase suspensa, na sobrancelha erguida, no segurança que segue a mulher negra na loja, no policial que sempre tem o negro na figura do suspeito. 

O crime contra João Alberto não teve motivação racista, segundo disse a delegada do caso, Roberta Bertoldo. Ele não foi atacado por ser negro. Nenhuma rede de supermercados tem prática racista, impedindo negros de terem acesso às suas lojas, mesmo porque, além de inconstitucional, isso seria suicídio empresarial. Metade da população brasileira é parda ou negra. O próprio Carrefour tem em suas fileiras 50% de funcionários negros.

Então, caberia ao noticiário não embarcar na “narrativa”, transformando uma ocorrência policial em crime de racismo. Mas não foi isso que ocorreu. Várias lideranças negras foram ouvidas e todas batiam na mesma tecla: “Parem de matar os pretos”.

A morte de João Alberto é uma composição de erros. Como alguém com uma “capivara” como a dele, com envolvimento em pelo menos 25 ocorrências policiais, podia estar solto? Que Justiça é essa que permite que um indivíduo tão perigoso caminhe livremente pelas ruas e mercados? Em algum momento, ele vai criar algum problema, vai se meter em encrenca. É óbvio.

Então, a bobagem seguinte remete ao Carrefour. Essa rede francesa de venda de mercadorias, bem-sucedida, contrata uma empresa de segurança que se mostrou sem qualquer qualificação para a empreitada. Os seguranças Magno Braz Borges e Giovane Gaspar Silva agiram como o impulsivo Hulk. Deram socos. Pontapés. Esganaram e sufocaram até a morte João Alberto.

Não seria mais profissional chamar a polícia? Não. Os decididos e despreparados seguranças encheram João Alberto de porrada. Bateram nele seguidamente até matá-lo, diante da mulher dele, impotente, em choque, carregando as compras que havia feito minutos atrás. Provavelmente, essa empresa Vector, onde Magno e Giovane trabalhavam, foi contratada por oferecer serviços mais baratos que a concorrência. O barato, a nossa avó já avisava, sai caro.

Seria cansativo enumerar os casos envolvendo seguranças e clientes. Quase todo dia acontece, no Brasil, alguma ocorrência. Quem será que treina esse pessoal? Eles não fazem cursos de aperfeiçoamento? Não têm ideia de como lidar em uma situação que envolve um cliente agressivo? Quem fiscaliza esses caras? Quem os autoriza a trabalhar de segurança?

Um desastre colossal. Mortal.

A "cereja do bolo" do desastre brasileiro foi João Alberto ter agonizado, sem atendimento no chão do supermercado. O Samu, segundo informam as agências de notícias, demorou cerca de uma hora para aparecer. 

Erro em cima de erro. Até o fim da vida. 

Um exemplo antagônico foi seguido pela franquia de padarias Dona Deôla. Na quinta-feira, Dia da Consciência Negra, a advogada Lidiane Brandão Biezok, 45 anos, em trajes de veraneio, entrou na padaria Dona Deôla, que fica na Pompeia, e passou a agredir as atendentes. Atirou guardanapos usados. Xingou. Atacou fisicamente clientes. Cometeu ataques homofóbicos e de cunho racial. Provocou uma confusão daquelas.

A direção da padaria não chamou seus seguranças, para encherem a dona Lidiane de porrada. Nada disso. Ligaram para a Polícia Militar que prendeu a agressora e a levou para a delegacia mais próxima. Dona Lidiane também tinha uma “capivara” positiva, com passagens anteriores diante do “doutor delegado”.

Ela se desculpou publicamente. Em ligação para a TV Globo, disse ser doente mental, com surtos de bipolaridade.

De resto, os reacionários do “Manhattan Connection” estão de casa nova. Foram despejados da Globo News e vão para a TV Cultura. O golpista de primeira hora Felipe Neto fez um “mea culpa” sobre sua campanha pessoal contra o governo Dilma Roussef: “Eu tinha 25 anos e jovem faz bosta”. Ao que o ex-global José de Abreu replicou: “Com 25 anos, eu já tinha sido preso duas vezes pela Ditadura”.

Com isso, vamos levando. Sinto saudades de Tom Jobim: “Água brilhando, olha a pista chegando. E vamos nós. Pousar”.


quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Eleições em São Paulo - Entra prefeito, sai prefeito e a cidade continua suja e esburacada


Bruno Covas, neto do competente prefeito e governador Mario Covas, quer ser reeleito. Não sei por quê. Antes dele, a cidade estava suja e esburacada. Hoje, continua suja e esburacada. Ele quer a reeleição para manter a sujeira e os buracos, suponho. 

São Paulo deve ser um desafio sobre-humano para seus administradores. Eles não conseguem transformar a cidade. Dar uma cara de primeiro mundo. São Paulo é sempre um lugar muito sujo, empobrecido, com um miserável em cada farol.

Mario Covas, quando foi prefeito, também não conseguiu deixar São Paulo reluzente, mas era um homem público diferente, tocador de obras. Lembro de uma visita que fizemos à prefeitura, para pedir a inclusão da Casa Modernista em área de proteção, evitando a sua destruição. Covas foi muito sincero. Disse que ia salvar a casa, mas que a gente não contasse com recursos municipais para mantê-la. Era preciso correr atrás do governo estadual. E foi o que fizemos. 

Antes de Bruno Covas, tivemos a presença relâmpago de João Doria na prefeitura, que utilizou a administração municipal como trampolim para o governo estadual. A herança de Doria foi tapar os muros da avenida 23 de Maio com plantas. Quebrou as pernas dos pichadores. Pelo menos, fez uma coisa certa. Doria prometeu acabar com a Cracolândia. Promessa não cumprida. A Cracolândia vai bem, obrigado. O centro de São Paulo virou, definitivamente, cenário da franquia "A noite dos mortos vivos". Sem falar no PSDB, partido de Bruno Covas, protagonista de inúmeras acusações de corrupção (https://www.huffpostbrasil.com/news/corrupcao-no-psdb/).

Com uma certa vergonha, lembro de ter feito boca de urna, em 1988, para a eleição de Luíza Erundina, então quadro do Partido dos Trabalhadores. Houve uma virada inacreditável e ela foi eleita prefeita, superando o corrupto Paulo Maluf. A herança deixada por Erundina foi o Sambródomo, construção gigantesca, às margens do imundo rio Tietê, usado cinco dias por ano, passando o restante dos 360 dias na mais completa solidão. Um ermitão rodeado de carros, ônibus e caminhões.

Pessoalmente, Erundina me causou um grave problema. Em 1991, meu pai morreu e os "papa-defuntos" municipais estavam em greve. Erundina negociava lentamente com os grevistas, claudicava, enquanto isso os mortos ficavam sem sepultura. Precisava transportar o corpo do meu pai do hospital, onde ele havia falecido, até onde seria realizado o velório. Por causa da greve, não tinha carro funerário. Fui até o Cemitério da Vila Mariana. Havia ali meia dúzia de papas-defuntos reunidos. Puxei um deles de lado e negociei o transporte do corpo do meu pai. Paguei uma espécie de "táxi funerário".

Meu livro sobre a Vila Clementino tinha sido premiado no concurso de história dos bairros de São Paulo. Seria editado durante a gestão de Luiza Erundina. Mas isso não ocorreu. Uma das gestoras da área de cultura entendia que investir na memória da cidade seria um gasto desnecessário. Por isso, as publicações foram suspensas. O livro só seria editado, por ironia, na gestão de Celso Pitta, talvez o mais corrupto prefeito da história de São Paulo. 

Erundina fechou seu caixão à frente da administração paulistana ao não concluir obras deixadas pelo seu antecessor, Jânio Quadros. A iniciativa que trouxe mais polêmica foi o enterramento (literal) do túnel que ligava a avenida Juscelino Kubitscheck aos bairros do Morumbi e Cidade Jardim. Com Erundina, São Paulo continuava suja e esburacada.

Agora, Erundina está de volta como vice de Guilherme Boulos, presidente do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). Boulos é uma metonímia de Lula ("vão surgir milhões de Lulas Brasil afora"). Usa a mesma camiseta vermelha de trabalhador em luta. A mesma barba. O mesmo discurso contundente. Boulos, no entanto, não chegou a São Paulo de pau de arara, nem passou fome no Nordeste. Boulos tem mestrado, é professor e filho de médico bem de vida.

A foto que ilustra esta postagem é de 2014. Foi tirada em um terreno, localizado na Granja Viana, nas proximidades da rua Ouro Preto. Na época, eu morava no bairro e tive meu primeiro contato direto com o MTST. A história desta invasão é estranha. 

Segundo apurei, em conversa com invasores, o proprietário do terreno de 93 mil metros quadrados devia impostos atrasados à Prefeitura de Carapicuíba. A prefeitura cobrava e o proprietário dizia que não ia pagar. Carapicuíba, então, era administrada pelo prefeito Sérgio Ribeiro Silva, o "Serjão", do PT. 

Eu era presidente da Associação dos Moradores da Vila Diva, vizinha da ocupação do MTST. Por isso, fui até lá, na rua Ouro Preto, saber o que estava ocorrendo. Esse invasor, que conversou comigo, disse para eu não me preocupar: "O senhor fique tranquilo que a invasão tem data para acabar. Mais alguns dias, e a gente vai embora. A prefeitura está resolvendo o problema dos impostos com o proprietário". 

Havia no terreno umas 800 barracas de lona. Panfletos pediam para a população, que não tivesse teto, que fosse até lá e ocupasse um lote. A invasão foi batizada de "Carlos Marighella".

De fato, como o invasor havia me dito, do dia para noite, o pessoal do MTST desapareceu. As 800 barracas de lona evaporaram. 

Teria sido tudo uma armação do prefeito Serjão, que contou com o apoio do MTST, para resolver o problema dos impostos atrasados? Será que aqueles sem-teto foram usados como massa de manobra?

Não sei responder essas perguntas. Caberia à Polícia Federal ter investigado na ocasião. A herança dessa invasão foi ter me deixado com o pé atrás, em relação a Boulos. O candidato a prefeito de São Paulo pelo PSOL, quando fala de invasões, costuma dizer que "quem toma as casas das pessoas são os bancos". Nisso, está coberto de razão. Quem faz empréstimo, dando a casa como garantia, sobe no cadafalso e coloca a corda no pescoço. Sinceramente, eu não compraria um carro usado de Boulos.

Eu sei que é considerado uma coisa pedante falar de outras cidades, mas morei em Paris, Londres e Nova York e não sei como, o que os prefeitos fazem, para manter as ruas limpas e sem buracos. Em Paris, não se vê um único buraco do tamanho de uma tampa de cerveja. As ruas são impecáveis. Limpíssimas. Iluminadas. 

Por que será que nossos homens públicos são tão incompetentes? Não conseguem fazer o básico. Diante da campanha de Bruno Covas e Guilherme Boulos, em sua lutar para vencer o segundo turno, tenho só um sentimento: desalento. 

           


Vossa excelência faltou com o decoro

  Estamos mal de representantes políticos. Muito mal. Quando a gente mais necessitava de lideranças, caímos em um cadafalso de luminares da ...