quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Histórias da cozinha



Quando era criança, gostava de ficar na cozinha. Via minha avó preparar o almoço. Concentrada, ela circulava ao redor do fogão. O arroz chiava, quando adicionava a água. Tomates cozidos eram passados na peneira. O vapor subia em ondas. O molho de tomate ficava horas no fogo, acompanhado de suculentas bracholas. O molho desprendia um cheiro inesquecível. 

O nhoque era feito com farinha, batatas, ovos e temperos. Com muito zelo e carinho, ela fatiava a massa e, em seguida, passava os nhoques pelo garfo para dar aquela forma riscada, característica do nhoque italiano. Os bifes pegavam fogo, enquanto eram fritos. Via as labaredas elevando-se sobre as carnes, para depois se apagarem como por magia. A cozinha da minha avó parecia um laboratório alquimista.

Uma vez, minha avó recebeu a visita de um parente longínquo português. Era um tipo simpático, de cabelo branco, vestido com um terno claro impecável. Ele vinha almoçar com a gente. Minha avó passou a manhã na cozinha e ao meio dia levou para a mesa uma forma imensa, repleta de bacalhau com batatas à Gomes e Sá. O cheiro que vinha do prato enlouqueceria um animal faminto. Meu avô serviu um vinho verde português, enchendo os copos até a boca (inclusive das crianças). 

Lembro do parente português, olhando a comida, o copo de vinho, provando um bocado. Mais um pouco... A família em volta, na expectativa do que ele iria falar. Ele baixou a cabeça, emocionado, e começou a chorar. Talvez de saudade, de prazer, de alegria. Talvez tudo isso junto.  

Menino não era bem-vindo na cozinha. "Lugar de mulher".  Era um clandestino por ali. Quando começava a fazer muitas perguntas; "Por que a senhora está descascando isso?", "Que tempero é esse?";  era literalmente expulso da cozinha. "Vai brincar, menino, para de encher". 

A cozinha funcionava como um espaço de poder das mulheres. Um lugar onde os homens passavam como visitantes breves, mas não permaneciam. 

Meu pai não admitia que homem lavasse prato, a não ser é claro se fosse cumim e trabalhasse em restaurante. Depois de casado, meus pais vieram uma noite jantar conosco. Terminada a refeição, levei os pratos para a cozinha e comecei a lavar a louça. Meu pai olhou aquilo horrorizado. "Isso é coisa de mulher. Deixa os pratos aí", chamando minha mãe para dar um apoio logístico.

Comecei a me apossar da cozinha aos poucos. Tinha muito interesse na preparação dos pratos que eram servidos na ceia de Natal. Pato com laranja, presunto tender, lombo assado, peru recheado, arroz com passas...Minha tia, que sucedeu minha avó na cozinha, tinha espírito didático e, em uma véspera de Natal, concordou em me passar as receitas, gravando um vídeo. Eu tinha comprado uma filmadora e fiz a filmagem de toda a preparação da ceia, tendo minha tia como protagonista.

Com o tempo, fui reproduzindo as receitas familiares que me traziam mais lembranças. Com muito custo, depois de inúmeras tentativas e fracassos, consegui elaborar um molho de tomate com bracholas, que hoje, certamente, teria o selo de aprovação da minha avó. 

Nhoque e outras massas não são mais mistério. Ganhei até uma máquina para fazer macarrão, veja você que avanço tecnológico. Os antepastos, que eram o produto de excelência de minha mãe, como pimentões e berinjelas em conserva, também foram reproduzidos com sucesso. 

A cozinha é um lugar onde me sinto em paz. Gosto de me concentrar na produção dos pratos. O maior prêmio de um cozinheiro é quando alguém chega perto e diz: "Que cheiro delicioso! O que você está cozinhando?".

Cozinhar é um ato fraterno. Você pega a matéria-prima que é um monte de farinha, ovos, batatas cozidas e transforma isso em um negócio delicado, chamado nhoque. São duas a três horas de preparação intensa, com um só objetivo: fazer com que as pessoas sintam prazer. 

Em Piedade do Paraopeba, Minas Gerais, onde fiz uma pesquisa de campo, no início dos anos 80, lembro que a cozinha não era uma espaço restrito às mulheres, um centro de poder feminino. A cozinha mineira, com aquele tradicional fogão a lenha, que desprendia odores deliciosos, durante o cozimento, era um ponto de inclusão. Ali, homens e mulheres se reuniam. Tomavam café. Faziam suas refeições. Trocavam informações. Contavam histórias de santos e assombrações.

A preparação da comida é ato altruístico, de desprendimento. Enquanto o pessoal se diverte na piscina, dando um passeio ou lendo um livro, o cozinheiro, em sua atuação solitária, prepara a refeição. Ele não pode falhar. Assado queimado, macarrão "molhado" fora do ponto, molho aguado são imperdoáveis.

A comida caseira tem de ser cheirosa. Deve abrir o apetite. Precisa estar bem apresentada, decorada, bem feita. Quando o cozinheiro erra, ele elimina o prato. É inadmissível levar para a mesa uma refeição que não deu certo. Ele não pode dividir seu fracasso.

O termo refeição caseira não me parece apropriado. Caseiro lembra algo feito de forma precária. Uma gambiarra. O melhor termo é aquele utilizado pelos americanos, que chamam a refeição caseira de comfort food. 

Essa refeição feita em casa remete às minhas lembranças afetivas de conforto e proteção. Por isso, o termo americano é adequado. Naquela época, era bom saber que alguém ficava horas e horas ao redor de um fogão para lhe alimentar, matar a sua fome de comida e de carinho. Ainda que, depois de uma breve trégua, fosse expulso daquele espaço mágico da minha avó alquimista.     





   

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Eu, o disco-voador e o pé de goiaba


Em 1996, vi um disco-voador. Não tinha bebido. Não sonhava. E havia testemunhas junto comigo. O negócio era iluminado. Pairava no céu. Eram 4h30 da madrugada. Havia saído de uma cidade do circuito das águas, em Minas, e retornava para São Paulo. No banco de trás, meu filho, com nove anos de idade: "Pai, tem uma estrela seguindo a gente". Expliquei que estrelas não seguem carros. Como o veículo estava em movimento, ele tinha impressão que a estrela "andava", mas era só impressão. Minutos depois, nova informação: "Pai, a estrela ficou mais perto agora". 

Parei o carro no acostamento. Deixei o farol ligado. Saí do veículo. Lá fora, senti o cheiro da mata. Gostoso. Refrescante. Era janeiro, em pleno verão. Tínhamos tirado férias de fim de ano e retornávamos para casa. 

Olhei para o céu e vi o negócio brilhando no céu. Aquilo se aproximava da gente e se afastava. Depois, se aproximava novamente. Fazia movimentos rápidos, incompreensíveis. Para cima e para baixo. Depois, cessava e vinha perto da gente. 

A minha filha, então com 14 anos, acordou e ficou apavorada: "Pai, vamos embora..." Ela havia assistido E.T. e passou a ter muito medo de topar com aquele ser baixinho, cabeçudo, com os bracinhos compridos. Ela não temia assombração, almas penadas, nem saci. Mas tinha pavor de extraterrestres. E, se você quer saber, estávamos muito próximo de um contato imediato de terceiro grau. 

Aquela desgraça iluminada vinha se aproximando da gente...

Os dois começaram a chorar, pedindo: "Vamos embora, pai. Vamos fugir. Esse negócio vai pegar a gente..."

Entrei no carro. Virei a chave...Achei que o motor não ia pegar, por obra de alguma interferência eletromagnética, emanada pelo disco-voador. Mas o carro pegou. Engatei primeira. Acelerei e caí novamente na estrada. 

Andei menos de 50 metros, quando entrou na nossa frente um cavalo. Não sei se ele também fugia do disco-voador, o fato é que o bicho corria pela estrada, olhando apavorado para os lados. Freei e aí o pânico se instalou. As crianças gritavam. Minha mulher tentava acalmá-los, mas não obtinha muito sucesso. Estávamos todos com medo do desconhecido, daquela fonte de energia estranha, que nos seguia pela estrada afora.

O carro acelerava e a luz parecia acelerar também. O carro reduzia a marcha e a luz o imitava. Devo ter rodado uns 20 quilômetros dessa maneira, na companhia do disco-voador. Então, decidi parar e enfrentar o bicho. Ele que viesse pra briga. 

Estacionei novamente o carro no acostamento. Descemos todos e ficamos olhando para o céu. Então, aquilo começou a se movimentar de maneira maluca pra cima e pra baixo. As luzes aumentaram de intensidade e, em segundos, o negócio ganhou uma velocidade estupenda e desapareceu no espaço. 

Escrevi tudo isso para dizer que em disco-voador eu acredito. Não sei o que é, de onde vem, se é uma arma secreta russa ou dos americanos, se não é da Terra, se vem do futuro ou do passado, o fato é que vi o tal negócio iluminado e ele também me viu, porque me seguiu pela madrugada de uma solitária estrada mineira no longínquo ano de 1996.

Agora, futura ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, sinceramente, não acredito que a senhora tenha visto Jesus Cristo subir em um pé de goiaba. Como diz aquele meme, publicado pouco depois, Jesus comenta: "Tenho mais o que fazer do que ficar subindo em pé de goiaba". 

Os pastores evangélicos mantêm contatos imediatos com Deus, Jesus, o Diabo, com uma  constância invejável. O Diabo está sempre baixando nas igrejas pentecostais, fazendo um estrago danado. Os possuídos rolam pelo chão. Gritam. Espumam, se contorcem. Discursam aquela algaravia (todas as línguas e nenhuma) costumeira. O Diabo foge, libera o corpo do cristão, que, feliz da vida, dará 10% de seu salário mensal ao pastor ou pastora.  

O livro Sapiens - uma breve história da humanidade, sobre o qual escrevi uma crítica em post anterior, menciona essa habilidade humana de criar histórias, fazer com que outras pessoas acreditem no inexistente. Foi graças a essa capacidade cognitiva que a humanidade se desenvolveu e passou a ocupar o primeiro lugar no topo da cadeia alimentar. 

O dinheiro, por sinal, é uma invenção sobre a qual todos nós decidimos acreditar. O dinheiro é uma ficção. Por que determinada nota valha tanto quanto aquela mercadoria? Foi instituído assim e todos nós consideramos positivo, porque formas arcaicas de fazer negócio, como o escambo, não funcionavam bem.  

O escândalo sexual desta semana recaiu sobre João Teixeira de Faria, o João de Deus, que teria abusado de 200 mulheres, em seu "hospital espiritual", em Abadiânia (GO). Os relatos são impressionantes. As vítimas contam detalhes de como foram obrigadas a fazer sexo com o médium, que, em 2012, recebeu a visita resplandecente de Oprah Winfrey, uma das mais bem-sucedidas apresentadoras de TV dos EUA.

O psiquiatra e higienista italiano Cesare Lombroso (1835-1909) dizia que era possível reconhecer um criminoso, por suas características físicas. É claro que essa teoria caiu em desuso, com o avanço das ciências criminais. Mas, um velho parceiro de reportagens, sempre que se via às voltas com um criminoso, daqueles bem malvados, olhava pra mim e comentava: "Lombroso estava certo".  

Olhando as fotos desse João de Deus, mesmo reconhecendo que Lombroso foi ultrapassado pelo tempo, tenho a dizer que não deixaria esse sujeito me enfiar uma faquinha e tesoura sujas na barriga.

Um relato de uma vítima de João de Deus, colhido pela repórter Camila Brandalise do UOL, é aterrador: 

"Ele se sentou em uma poltrona e falou que eu devia fazer sexo oral nele para 'fazer uma limpeza'. Era um velho nojento. Ele dizia: 'Faz cara boa, faz direito. Você está com nojo?', ele dizia. Eu estava com muito medo, não estava mais suportando aquilo. Eu não lembro mais como foi, mas sei que ele me chamou de novo para participar de uma cirurgia. No terceiro dia, ele pediu sexo oral de novo. Eu fiz, ele gozou e se limpou com a toalha branca".   

É incompreensível diante do avanço inexorável da ciência que as pessoas continuem querendo acreditar nesse amontoado de bobagens, que exigem muita "fé" e pouca inteligência. 

Por falar em inteligência, hoje mesmo, ouvi um engenho humano, pousado em Marte, transmitindo o som de ventos marcianos. Trata-se do avanço da ciência indiscutível, em escala interplanetária.  

Adão e Eva, o Dilúvio, Abraão e seu filho quase assassinado, o Deus que manda a gente vender nossa filha como escrava, o Deus que manda executar quem plantar legumes de espécies diferentes lado a lado, a Arca de Noé, o universo criado em seis dias...

Todas essas histórias, que encantam o leitor da Bíblia, não resistem a um mínimo de especulação científica. Quem observa as estrelas por um telescópio; quem fica intrigado diante das moléculas se reagrupando pelas lentes de um microscópio,;quem frequenta museus que mostram dinossauros e espécies que nos antecederam; quem leu A Origem das Espécies; passa a compreender melhor o universo e a realidade que nos cerca. Não haveria mais necessidade de muletas espirituais. Não teríamos também que suportar tipos como esse João de Deus e essa senhora manipuladora que vê Jesus, "o filho de Deus", trepando em goiabeira. 

    
    

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Bullying - valentões e bodes expiatórios



Lula terá novo julgamento hoje no STF. Conforme previsões de analistas, o habeas corpus que pede a sua soltura será negado. A defesa do ex-presidente argumenta que a condenação partiu de um juiz, indicado para ocupar cargo no governo Bolsonaro. 

Assim, o juiz teria agido parcialmente, mandando para a cadeia um adversário político que poderia derrotar Bolsonaro na eleição presidencial. Para os ministros do STF, esse argumento é impróprio por estabelecer uma ligação até então inexistente (na época da condenação, Bolsonaro não era candidato). 

Na realidade, qualquer analista, sem apego ideológico-partidário, sabe que a condenação de Lula não tem base legal. Ele foi preso e condenado, por causa de um apartamento, onde nunca morou, nem nunca foi dele. O mesmo acontece com o sítio famoso. Não há escritura que prove o pertencimento. Logo, não há prova material. Há suposições. 

Mas isso não importa. Lula é o nosso bode expiatório. O termo vem da Bíblia e significa aquele animal que era deixado para trás, para ser atacado pelos predadores, como forma de sacrifício, para aplacar a ira dos deuses. 

Na Grécia antiga, havia também uma cerimônia que sacrificava seres humanos, os pharmakos. Quando tudo ia mal, quando havia fome, seca, doença, fazia-se o sacrifício dos pharmakos. Pessoas doentes, com deformidade física, deficientes mentais ou simplesmente "muito feias", eram linchadas pela população. 

Perseguidos pela turba, apedrejados, esfaqueados, os pharmakos eram executados, durante um ritual catártico. Quando a "festividade" terminava, a vida voltava ao normal e a cidade garantia a sua sobrevivência, em paz com os deuses. Daí vem o termo fármaco (remédio), farmácia (antigamente, se escrevia pharmácia). 

Quando era garoto, não existia ainda o termo "bullying", que significa aquele ato de violência física e psicológica intencional, gratuita e repetida, praticada por um ou vários valentões sobre uma vítima. 

Na escola e nas ruas, a gente estava sempre às voltas com os valentões, com o bullying. Diferente de hoje, nenhuma vítima pensaria em denunciar um agressor, porque isso significa ser um "dedo duro", um "alcaguete", personagem tão depreciado como o "flozô" (como se chamava o gay na época). 

Quem apanhava precisava aprender a se defender. Era uma aprendizagem dolorida e traumática. O pior efeito do bullying era transformar a vítima em agressor, que, por sua vez, faria outra vítima, em efeito avalanche. 

Isso, infelizmente, aconteceu comigo. Naquela espiral de violência, lembro de episódios grotescos em que esmurrei o rosto de um amigo até tirar sangue. Você bate com força, com muito ódio, e quando vê o resultado algo se quebra por dentro. Você não é mais o mesmo. Você se transformou neles. Esse, acredito, é o pior efeito do bullying. A vítima torna-se algoz. A violência gera violência.    

Fui criado na cultura cristã. Ateu depois de adulto, me recordo com carinho dos valores religiosos que me foram passados na infância. Solidariedade, fraternidade, amizade, carinho dos familiares, saber perdoar, não guardar mágoa e rancor no coração...Tudo isso vinha embalado pela cultura cristã. 

E esses valores eram jogados no lixo, cotidianamente, pela violência que a gente presenciava, sofria ou praticava na escola e nas ruas.

De volta ao início dessa postagem, o Brasil caiu na mãos dos valentões. O presidente eleito posa ao lado do jogador Felipe Melo, durante a entrega da taça ao campeão brasileiro, e ambos apontam as mãos, em forma de arma, para nós, pacíficos telespectadores de um jogo de futebol.

Para o valentão, a melhor forma de acabar com a violência é usar mais violência ainda. Morrem anualmente no Brasil 60 mil pessoas assassinadas. 

Parece não ser suficiente. 

A Polícia Civil carioca usa uma metralhadora MAG, belga, calibre 7.62, capaz de disparar 650 tiros por minuto. Em setembro, a polícia apreendeu na favela da Rocinha uma metralhadora capaz de derrubar aviões e perfurar carros-forte. 

Acabar com a violência no Brasil ou reduzi-la a níveis finlandeses parece óbvio. O difícil será convencer os valentões a não correr atrás dos bodes expiatórios, não imolar pharmakos em praça pública, e promover a tão sonhada distribuição de renda. 

Mas essa solução objetiva não passa pela cabeça desse pessoal formado na Escola de Chicago e arredores. O que vem por aí não cheira bem. 

Em Paris, por sinal, já há fumaça densa e escura e carcaças de carros queimando nas ruas. É a revolta dos coletes amarelos (gilets jaunes).      

    



  

   

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Livro "Sapiens - uma breve história da humanidade" louva imperialismo, capitalismo e prega o conformismo

 "Quando o bolo crescer, todo mundo vai ganhar uma fatia maior." É assim que Yuval Noah Harari, autor de Sapiens - uma breve história da humanidade, descreve as expectativas dos pobres, em relação ao crescimento econômico. 

Ele acrescenta:
"A divisão de espólios nunca será igual, mas haverá o suficiente para satisfazer cada homem, mulher e criança - até mesmo no Congo."

Essa história do bolo não é nova. Delfim Netto, o então poderoso superministro da Economia, durante a Ditadura Militar, já afirmava nos anos 60: "É preciso fazer o bolo crescer, para depois reparti-lo". Pois é, tem gente que até hoje está na fila, com o pratinho vazio, esperando seu pedaço.  

Harari tem 42 anos, é acadêmico, professor de história, judeu e vive em Israel, onde leciona na Universidade Hebraica de Jerusalém. A construção do livro Sapiens tem um itinerário interessante. Remonta àquela nossa avó de 1 milhão de anos atrás, que teve dois filhos: um deles era símio e outro, humano. 

A partir desse momento, os humanos passaram a se multiplicar, ocuparam toda a Terra (ilhas e continentes), provocaram colapsos ecológicos irreversíveis (ele dá como exemplo maior a Austrália) e assumiram o topo da cadeia alimentar, como espécie bem-sucedida de superpredador.

O autor tem o mérito de discutir a probabilidade de vários tipos de humanos terem coexistido simultaneamente. Ele vê um erro na análise de historiadores que demarcam fases específicas para cada tipo de humano do passado: até determinada data, havia o neandertal; depois veio o "homem da ilha das flores", depois... 

Para o autor de Sapiens, várias espécies de humanos existiram ao mesmo tempo. Ele examina o desaparecimento dos neandertais, com base em duas hipóteses: 1) foram exterminados pelos homo sapiens; 2) misturaram-se aos homo sapiens.

Análises recentes de DNA comprovam que muitos humanos da atualidade têm em seu código genético a presença de DNA neandertal. De qualquer forma, como diz o autor, o homo sapiens não é reconhecidamente tolerante, basta ter uma cor da pele diferente para provocar reações hostis, e a hipótese de os sapiens terem exterminado os neandertais não deve ser de todo desprezada.

O livro começa com informações de impacto:

"Há cerca de 13,5 bilhões de anos, a matéria, a energia, o tempo e o espaço surgiram naquilo que é conhecido como o Big Bang. A história dessas características fundamentais do nosso universo é denominada física.

"Por volta de 300 mil anos após seu surgimento, a matéria e a energia começaram a se aglutinar em estrutura complexas, chamadas átomos, que então se combinaram em moléculas. A história dos átomos, das moléculas e de suas interações é denominada química. 

"Há cerca de 3,8 bilhões de anos, em um planeta chamado Terra, certas moléculas se combinaram para formar estruturas particularmente grandes e complexas chamadas organismos. A história dos organismos é denominada biologia.

"Há cerca de 70 mil anos, os organismos pertencentes à espécie Homo sapiens começaram a formar estruturas ainda mais elaboradas chamadas culturas. O desenvolvimento subsequente dessas culturas humanas é denominado história". 

No desenvolvimento de seu livro, Harari mostra como a "revolução cognitiva" conduziu os sapiens para a dominação do planeta. Ele assinala que somos a única espécie capaz de criar algo inexistente. Inventamos seres metade animal, metade gente. Produzimos estátuas sobre essas criações fictícias. Criamos histórias sobre fadas e monstros. Supomos a existência de deuses.

A comunicação, no entanto, não é exclusiva dos humanos. Os macacos também se comunicam. Às vezes, induzindo ao erro, para se aproveitar de uma situação. O macaco grita: "Cuidado com o leão"; o outro macaco, que estava no chão e ia comer uma banana suculenta, sobe correndo na árvore, apavorado, enquanto o macaco esperto aproveita para pegar a banana abandonada pelo fujão medroso. Apesar dessa esperteza, os macacos são incapazes de criar algo inexistente. Isso, salienta o autor, é uma característica única e exclusiva dos humanos.

Graças à capacidade de se comunicar, de criar histórias e fazer com que outras pessoas acreditem e confiem nelas, a civilização teve origem. 

Harari cita a criação do dinheiro, como uma bem-sucedida obra ficcional dos humanos. O dinheiro veio resolver um problema fundamental que era a questão do escambo. Se sou fazendeiro e preciso de um sapato, quantas vacas valem um sapato novo? O sapateiro, por sua vez, não precisa de uma vaca. Ele já tem uma. Ele gostaria de ovelha, mas quantas ovelhas valeriam a troca por um sapato novo? E se o fazendeiro não tiver ovelha, apenas vacas, como ficaria o escambo?

Harari mostra como a invenção do dinheiro colocou um ponto final nesse imbróglio, chegando até a atualidade em que o dinheiro é algo intangível, quase ficcional. Se todas as pessoas que têm conta em banco, sacassem seu dinheiro ao mesmo tempo, o banco não teria moeda corrente suficiente. Ou seja, aqueles valores, aqueles números nas contas correntes, não existem de fato. São uma ficção  econômica, inventada pelos sapiens

O autor elogia os impérios, o imperialismo e o capitalismo, que, em seu entender, foram essenciais para o avanço econômico, social e político do século 20. Muita gente foi explorada, é verdade, muita gente foi triturada pelo capital, mas foram sacrifícios que valeram a pena. "Podemos não gostar do capitalismo, mas não podemos viver sem ele."

Harari afirma que "a única tentativa séria de governar o mundo de uma forma diferente - o comunismo - foi tão pior em praticamente todos os aspectos concebíveis que ninguém tem estômago para tentar de novo". Ele esquece de mencionar a China - a segunda maior economia do mundo - que é um país comunista, com bandeira vermelha, estrelas e tudo. 

Beleza. Na China, a política é comunista e a economia, capitalista. De qualquer forma, lembrar apenas da União Soviética, esquecendo a China vermelha, é um lapso imperdoável.

Sapiens - uma breve história da humanidade comete outro deslize ao defender uma postura conformista. Para Harari, o budismo tem a melhor resposta para a eterna busca humana da felicidade. Ele cita Buda que concluiu que desejar algo é eternizar o nosso martírio. Quem não deseja será feliz. Ao invés de enfrentar as ondas do mar, a melhor postura é ficar na praia e observar o movimento contínuo de ir e vir das ondas. 

Assim, se você fosse um pobre miserável, vivendo na França em 1789, ao invés de ir para a Bastilha, botar fogo na prisão e derrubar a monarquia parasitária, cortando a cabeça do rei e da rainha, o melhor caminho, talvez, naquele 14 de julho, seria continuar em casa, observando o rei Luis 16 desfilando a peruca nova e a rainha Maria Antonieta mastigando seus brioches amanteigados. Você continuaria pobre, miserável e privado do essencial, mas seria feliz, porque não desejaria nada mais, além de observar poeticamente as ondas quebrando na areia da praia. Poderia até compor uma música: "O mar, quando quebra lá na praia, é bonito, é bonito".    

  
            





quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Waze leva a gente passear na Favela de Paraisópolis



Adoro tecnologia. Sou fã dos computadores e afins. Quando era repórter, lá no século passado, sofria escrevendo no papel. A máquina de escrever tinha fita que gastava e precisava ser trocada, justo na hora em que o relógio era nosso maior inimigo. 

Você tirava a lauda da máquina, desesperado para entregar a reportagem ao editor, e ela rasgava bem na metade. Tinha que correr para grudar com durex. Ficava um horror.  

Às vezes, você se lembrava de uma informação importante que precisava entrar no meio da lauda 5. Armado de tesoura e cola, o repórter cortava aqui, grudava ali. O editor corrigia. Anotava com a caneta por cima e o resultado era quase sempre lastimável. 

Com a chegada dos computadores, o texto pode ser alterado à vontade. Tira daqui, sobe ali, altera, volta. Errou? É só retornar ao ponto de origem. Uma maravilha!

E quando você precisava sair do ponto A, em São Paulo, para chegar ao ponto B? 

Nossa, tinha que recorrer ao Guia 135 mil Ruas da Editora Abril. Achava o lugar de destino e ia meio dirigindo, meio olhando o Guia, até bater na traseira daquele caminhão, onde se lia no para-choque: "Pobre é que nem pneu: quanto mais trabalha, mais liso fica". 

Para a nossa alegria, Uri Levine, Ehud Shabtai e Amir Shinar  - três empreendedores israelenses, auxiliados por 80 pessoas, - criaram, em 2008, o aplicativo Waze, uma corruptela em inglês, significando "ways", caminhos.

Em 2012, o Waze chegou ao Brasil e, no ano seguinte, o Google o comprava pela bagatela de 1 bilhão de dólares. 

O Waze sabe a hora que você vai chegar no seu destino. Ele sabe o caminho que você fará e vai informá-lo onde estão os radares, os policiais, os carros quebrados. O Waze é um sabe-tudo do trânsito e similares. 

Na segunda-feira, três dias depois daquela ponte ter caído na marginal Pinheiros, o Waze me levou por um longo passeio por São Paulo. Estive em bairros, que nunca havia visitado. Entrei em ruas que espero nunca mais entrar novamente. Cortei à direita, à esquerda. Subi e desci. Passei por avenidas, por ruas largas e estreitas. Tudo isso em meio a uma chuva inclemente. 

A cereja do bolo foi o Waze ter me levado dar uma volta pela favela de Paraisópolis. Aquilo foi o crème de la crème. O bairro, onde moram 100 mil pessoas, tem ruas estreitas, com carros estacionados em ambos os lados. Comerciantes colocam caixotes e peças de mobiliário para impedir o estacionamento em determinados locais. Não há sinalização, nem bom senso. Os motoristas ficam simplesmente travados, sem poder ir, nem voltar. Caminhões de médio porte não conseguem fazer conversões. Precisam exercitar uma série de manobras árduas, em espaço diminuto.

O Waze é sensacional, mas não é à prova da estupidez humana, nem da omissão das autoridades. 

A circulação é delirante. Imagine você criar o pior sistema de tráfego da história da humanidade? Pensou em algo que não dá certo, que não funciona? 

Pois é, assim foi é o trânsito na favela de Paraisópolis.

É interessante como o poder público, no caso o Departamento de Trânsito municipal, não faz o menor esforço para pôr ordem na bagunça. Como é um bairro de gente pobre, então, deixa os coitados se ferrarem.

Por que a Prefeitura de São Paulo não se mexe? Não amplia as ruas, não as sinaliza, não transforma aquele desastre urbano, em um lugar digno a seus moradores? 

Resumo da ópera: foram 30 minutos encapsulado na favela.

Em conversa com um prestador de serviço, ele me disse que, quando tem pancadão no bairro, os motoristas ficam presos dentro dos veículos e são obrigados a dormir ali mesmo, esperando o dia amanhecer para se locomover. 

Tecnologia é bom, o Waze é demais, mas tem hora que a gente lembra do caipira de Monteiro Lobato que dizia: "Soltar o saci de dentro da garrafa é fácil, quero ver colocar ele lá dentro de novo".

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Tem um espírito dentro do meu celular


O meu celular tem vida própria. Ele manda mensagens. Altera nomes de grupos do WhatsApp. Liga para amigos. Comete desatinos. Faz loucuras impensáveis. Por isso, cheguei à conclusão óbvia: tem um espírito dentro do meu celular.

Um parça fotógrafo me liga e pergunta:

"Cara, que mensagem é essa que você me enviou?"

"Que mensagem?"

"Essa: rpztxxvllkeke czmidlltdnadkk"

"Não fui eu. Foi o celular."

O parça fica um minuto em silêncio e sugere:

"Você já pensou em benzer esse negócio?"

Uma amiga me liga:

"Oi, estou retornando a sua ligação."

"Não liguei para você", respondo prevendo o que tinha ocorrido.

"Ligou, sim. Eram 11h30."

"Então, só que não fui eu... Foi o celular."

"O que o celular queria falar comigo?"

"Não sei. Precisa perguntar pra ele."

Nossa empresa - Escritório de Mídia - tem um grupo no WhatApp, que se chama Escritório de Mídia, é claro. Por que cargas d´água a gente colocaria outro nome? Pois bem, o celular não gostou do nome e mudou para: Kkkdlmbvmelpdldpdkwwwxxvkk. Não contente com isso enviou uma mensagem para todos os participantes do grupo:

"Escritório de Mídia mudou seu nome para: Kkkdlmbvmelpdldpdkwwwxxvkk

Outro dia, fui entrevistar um padre no bairro da Mooca e contei para ele essa história do celular. O padre refletiu. Pôs a mão no queixo e diagnosticou: "É um espírito de um polonês. Usa muitas consoantes".

Na semana passada, o celular encaminhou para o grupo da família esta foto:


A minha filha me ligou preocupada:

"Pai, pegou fogo na casa? Está tudo queimado?"

"Não, filha. O celular estava preso no meu bolso. Provavelmente, ele se revoltou e tirou uma foto do cativeiro..."








terça-feira, 13 de novembro de 2018

Hoje, Trump proibiria Stan Lee de entrar nos EUA


Stanley Martin Lieber, mais conhecido como Stan Lee, era filho de um casal de judeus romenos que havia emigrado para os Estados Unidos e se radicado em Manhattan, Nova York. Se fosse hoje, Donald Trump deixaria Stan Lee na fronteira. Os EUA ficariam sem seu Homem Aranha e os demais personagens da franquia Marvel.

A família de Stan Lee emigrou para os EUA nos anos 1920. Naquela época, ainda fazia sentido o poema de Emma Lazarus que a gente lê no pedestal da Estátua da Liberdade: "Dai-me os seus fatigados, os seus pobres, as suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade..."

Hoje, Trump envia um exército, fortemente armado, para impedir os pobres, "as massas encurraladas", que vêm de El Salvador, Honduras, Nicarágua de entrar no país. Brasileiros pobres também não são bem-vindos. Mexicanos, em igual situação social, igualmente são jogados do lado de lá da fronteira.

O próprio Trump não teria nascido nos EUA, se sua meia dúzia de parentes imigrantes tivesse sido impedida de passar pela "imigra", como os latino-americanos chamam a polícia de Imigração "border protection".

A foto que ilustra esta postagem refere-se a uma cena do filme Homem Aranha. O criador do personagem - Stan Lee - cruza acidentalmente com Peter Parker (interpretado por Tobey Maguire, de longe o melhor Homem Aranha), em uma rua de Nova York, e fala aquela frase que sintetiza a filosofia dos super-heróis: "Uma pessoa pode fazer uma grande diferença".

Fã de quadrinhos, o Homem Aranha sempre foi o meu preferido. Acredito que todo adolescente se veja representado naquele personagem problemático, mal compreendido, que quer fazer o bem, mas sente-se soterrado pelas dificuldades financeiras e amorosas. Peter Parker é pobre. É explorado no trabalho precário. Sente-se culpado pela morte do tio (culpa, aliás, é o sentimento que predomina na adolescência). E morre de paixão por uma garota, que vai se casar com outro sujeito.

Não sei se foi influência do Homem Aranha, mas participei de movimentos sociais, acreditando, fervorosamente, na mensagem de que "uma pessoa faz a diferença". Quando você consegue reunir algumas pessoas em prol de um benefício comum, em geral, é visto com desconfiança. Como o cinismo impera, é quase inacreditável que alguém possa fazer algo pelos demais sem querer nada em troca. 

A vida me provou que a fala clichê do criador do Homem Aranha pode ser verdadeira. Se você não se omitir, se for à luta, se conseguir reunir pessoas que pensem como você e querem melhorar a comunidade, é possível, sim, fazer a diferença.

O discurso do super-herói pode remeter à individualidade. É verdade. Só que a vida também nos mostra que alguém sozinho não faz coisa alguma. 

Cabe abrir um parêntese. Desde que os homo sapiens aprenderam estratégias de caça conjunta para matar mamutes gigantes e outros mamíferos peludos de grande porte, a história comprova que unidos somos mais fortes. Pesquisadores apontam a extinção dos neandertais como consequência de seu isolamento. Geralmente, o caçador-coletor neandertal andava sozinho e não era páreo para seus primos - os homo sapiens - caçando sempre em grupo e em maior vantagem estratégica e numérica.

Fechando o parêntese, voltando ao Homem Aranha e outros super-heróis, o prazer do consumo de produtos da indústria cultural é sempre vicário. Nós nos colocamos na posição do super-herói que vai realizar algo que, inconscientemente, gostaríamos também de concretizar. 

Quando o Homem Aranha consegue submeter seu adversário, depois de uma luta que parecia perdida; quando Peter Parker seduz Mary Jane, o leitor coloca-se no lugar do personagem e vive as mesmas emoções de forma vicária. Esse é o segredo das HQs, dos contos de fada, das novelas e dos bem-sucedidos filmes de Hollywood.  Mas essa é uma outra história que fica para uma outra vez.

Ademã de leve que eu vou em frente...


   


   

terça-feira, 6 de novembro de 2018

"O fim do livro físico é a vitória da tecnobarbárie"




Autor dos livros Incas venusianos (poesia), O médico das palavras (romance) e coautor de A história sob a terra (arqueologia), o jornalista e escritor Fabio Malavoglia fala nesta entrevista sobre os riscos do desaparecimento do livro físico



Fabio Malavoglia, 64 anos, paulistano, au­tor de três livros, apresentador do progra­ma Rádio Metrópolis na Rádio Cultura FM, considera o fim das livrarias e dos livros físicos “um desastre da cultura, da civiliza­ção, do espírito”.
“Estamos vivendo a época da tecnobarbá­rie. É uma terra arrasada”, ele afirma.
Com sua voz grave e profunda de radialis­ta, sob a proteção de milhares de obras, expostas nas prateleiras da acolhedora Li­vraria Nove Sete, na rua França Pinto, 97, Vila Mariana, em São Paulo, Malavoglia faz um diagnóstico desses novos tempos som­brios. Leia a entrevista, feita por mim com foto de Paula Franco, publicada pelo Infografs, jornal do Sindicato das Indústrias Gráficas do Grande ABC e Baixada Santista:


Quando teve início seu amor pelos livros?
FABIO MALAVOGLIA - Minha família é ita­liana. Fui criado entre livros. Fui e sou deve­dor dos livros. A palavra livro vem do latim liber, que é a parte mais interna da árvore. Livro é, a rigor, uma metáfora da nossa pró­pria alma, aquilo que existe internamente em nós. Se você frequentar as livrarias com devoção, elas vão mudar a sua alma.
Qual a importância do livro para a huma­nidade?
MALAVOGLIA - Há um livro na base de toda civilização. Os chineses têm o Tao Te Ching, os judeus e cristãos têm a Bíblia, os muçulmanos, o Corão. Nessa época de vir­tualização de tudo, a realidade material do livro está ameaçada. É um desastre para a cultura, para a civilização, para o espírito. Toda cultura procurou, ao longo dos sécu­los, materializar as ideias. O artista tem um sonho e corporifica em palavras, em escul­tura, em uma tela. O que a cultura digital faz é desmaterializar tudo. É um desastre que aponta para a dissolução.
Mas com a digitalização isso não aumenta­ria nossa oferta?
MALAVOGLIA - Não, porque você não tem mais escolha. A Netflix, por exemplo, que tem milhares de filmes para serem vistos... Quem determina a seleção da Netflix? São criados perfis virtuais que limitam as esco­lhas. Sem falar que a experiência do livro físico e do livro digital são completamente diversas.
Como assim?
MALAVOGLIA - O contato com o livro físico é próximo do aprofundamento, da contem­plação, da meditação, do pensamento. O livro interioriza. Já o livro digital é diluidor, é voltado para o exterior. As alegadas van­tagens da cultura digital sobre a física são ilusórias. As pessoas oscilam ao sabor dos trending topics, do twitter ou outra boba­gem semelhante.
O que vai ocorrer se o livro físico desapa­recer?
MALAVOGLIA - Essa é uma ameaça à cultura humanista, uma ameaça à nossa liberdade, à realização humana em seu sentido mais profundo. É um desastre que as livrarias estejam fechando e os livros fí­sicos, rareando. É o quadro da tecnobarbá­rie. É uma terra arrasada.
Há algum paralelo na história?
MALAVOGLIA - O Império Romano ruiu diante das invasões bárbaras. O conhecimento, no entanto, foi preservado em mosteiros, em ilhas de cultura, lugares de abrigo no qual a tradição precisou ser resguardada para atravessar um período de escuridão e, posteriormente, dar à luz a Renascença. Estamos na mesma situação.
A civilização está sendo invadida por novos bárbaros?
MALAVOGLIA - As pessoas precisam acordar para o que está acontecendo. Os novos meios de comunicação criam formas de escravidão mental. Nenhum senhor de escravos do século 19 sequer teria imaginado algo semelhante. Você está no metrô, com 100 pessoas no vagão, e todas estão naquele estado de hipnose, grudadas, olhando para uma tela. Os tecnobárbaros querem ocupar a nossa alma. Os bárbaros também eram inimigos dos livros.
A cultura digital emburrece?
MALAVOGLIA - A cultura digital faz você ficar sabendo, aos pedaços, de mil coisas diferentes, mas não se aprofunda e nem chega à raiz. A cultura digital é ignorante. Ela determina esse nosso período de trevas. Precisamos manter nossa fé, coragem e firmeza, porque tem muita tempestade pela frente.
O que pode ser feito?

MALAVOGLIA - Precisamos criar bunkers de cultura. Todos podemos fazer algo, seja pessoal ou profissionalmente. As livrarias são templos de nossa realização humanis­ta. As bibliotecas devem ser preservadas. Necessitamos ter a veemência de fazer algo e transmitir essa necessidade aos nossos filhos. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Uma Bienal assexuada


A 33ª Bienal de São Paulo - Afinidades afetivas deve ter sido feita para marcianos. Tem pedra, pedregulho, pedra em pé, pedra deitada, pedra pendurada, pedra que não acaba mais. Você se sente o robô Curiosity, passeando pelo solo arenoso e pelos pedregulhos de Marte.

Não tem seio, pênis, vagina, beijo, casal...Nada! Só pedra sobre pedra. 

A Bienal parece ter ficado com medo de ofender aquele pessoal que tentou proibir a exposição Queermuseu, cancelada em Porto Alegre e reaberta no Rio. "Vamos colocar um monte de pedra, assim ninguém enche o saco", devem ter pensado os organizadores. 

Você vê um quadro interessante. Vai dar uma olhada e parece que faltou inspiração para a autora, que escreveu: "Sem título", "Sem título", "Sem título", em todas as suas obras. Se ela não sabe o que está fazendo, pobres de nós que estamos ali para apreciar o trabalho dela. 

No passado, a Bienal era fonte inspiradora. Pelo menos para mim. Devo confessar que tive empregos pouco criativos na vida. Aos 15 anos, trabalhei em uma adega, carregando caixas de refrigerantes e bebidas. Entre os 16 e os 18 anos, fui pesquisador de institutos de pesquisa. Tocava a campainha na casa das pessoas e o cidadão aparecia com o humor de quem precisa pôr um supositório de purgante. As primeiras dez perguntas ele até que respondia bem. Dali em diante, o sujeito falava: "Escreve qualquer coisa aí. Põe o que você quiser. Se algum perguntar, eu confirmo. Pelamordedeus, me dá licença que preciso fechar a porta". 

Trabalhei em banco. Fui também "auxiliar de contabilidade 4" na Varig, uma empresa de aviação poderosa entre os anos 1950 e 70. Na Varig, a gente passava o dia fazendo lançamentos contábeis. Éramos uns 100 auxiliares. O trabalho era repetitivo, monótono, insuportável.

Como diz o professor de filosofia Merli, na série homônima: "Alguns, os que tiverem sorte, trabalharão em algo que os agrada. Mas a maioria apenas contará os dias que faltam para tirar férias". 

Era assim no Departamento de Contabilidade da Varig: contávamos os dias, as horas, os minutos, os segundos para a sexta-feira, para o próximo feriado. 

Saí da Varig e fui trabalhar em outra empresa de contabilidade, chamada Augustus. O espaço era menor, apertado, claustrofóbico. Sem janelas!

Então, fui visitar a Bienal. Lembro de uma instalação que mostrava um escritório coberto por teias de aranha, com muito pó, onde figuras mumificadas, imóveis, tinham sido congeladas, enquanto batiam carimbo, assinavam documentos, escreviam a máquina. O tempo tinha parado naquele escritório, que lembrava a empresa escura e sufocante de Scrooge, personagem de Dickens que inspirou Tio Patinhas. A rotina de um dia qualquer havia sido preservada para a eternidade. E era um dia sem inspiração, um dia absolutamente comum, sem qualquer importância. Era exatamente assim que eu me sentia. 

Não era mais o mesmo, quando saí da Bienal. Na segunda-feira, a primeira providência que tomei foi pedir demissão do emprego. 

Dias depois, estava trabalhando na Revista Escrita de Literatura, dirigida por Wladyr Nader. Começava aí a minha outra vida, meu renascimento. 

Em todos os anos seguintes, atuando em jornais, nunca mais "contei os dias que faltam para tirar férias". E tudo graças à Bienal.

Lembro de uma Bienal que trazia um projeto individual com cerca de 50 telas exibindo pênis. Havia naquele espaço pintos de todos os tipos, cores e formatos. Imagine o que diriam esses caras do MBL diante de tantas jebas? 

A Bienal me apresentou Gregório Gruber, com seus óleos sobre telas que retratam melhor do que ninguém a solidão da pessoa diante da monumentalidade de São Paulo.

A gente saía satisfeito da Bienal ou, em outros momentos, pensativo, tentando entender determinada peça; em dúvida sobre certa manifestação artística.

Esta última Bienal assexuada, "afinidades afetivas", me deixou com gosto de pó na boca. Não alterou a minha frequência cardíaca. Não me fez rir, nem chorar, nem questionar. É mais ou menos assim que deve ser dar um passeio temático pelo deserto.

Em tempo, a 33ª Bienal vai até 9 de dezembro e é "de grátis".     

   

       

sábado, 3 de novembro de 2018

Como é ser ateu entre 200 milhões de crentes


Simone de Beauvoir dizia que "ninguém nasce mulher, torna-se mulher".  Parafraseando a filósofa, escritora e mulher de Jean-Paul Sartre, diria que "ninguém nasce ateu, torna-se ateu".

O ateu no Brasil tem uma vida difícil. A pesquisa aponta que, entre os eleitores tupiniquins, eles votariam em um negro para a Presidência. Também não veriam problema em eleger uma mulher ou um homossexual para o cargo mais alto do País, mas não seriam capazes de votar em um ateu. 

"Deus é brasileiro", disse um papa certa feita. Somados todos os ateus brasileiros, eles totalizam 740 mil "almas". Menos de 1% da população. 

Em países "menos desenvolvidos de espírito", os ateus são maioria. 85% dos suecos não têm religião. Na Dinamarca, eles são 80% que afirmam não acreditar em um ser superior. 

A propósito, Dinamarca e a Suécia estão na lista dos países "mais felizes do mundo". Certamente, a ausência de religião tem aí algum fator a ser estudado.

Estudei em colégios religiosos. Por isso, só vim conhecer Darwin e a Origem das Espécies, quando era velhinho. O currículo também não mencionava Karl Marx, alguém que só vim a conhecer na pós-graduação. 

No Arquidiocesano dos irmãos maristas, a gente aprendia que Deus criou o mundo em sete dias. Tirou uma costela de Adão para fazer Eva e por aí em diante. O irmão que lecionava biologia ficava numa encruzilhada difícil, quando algum aluno perguntava sobre os dinossauros. A saída mais fácil para o irmão era dizer que "Deus tinha espalhado os restos de dinossauros para os homens se divertirem pesquisando".

Criança era arrastado pela minha mãe para a missa, na época, rezada em latim. Todo aquele cerimonial, aquela parafernália medieval me provocava tédio. Tinha vontade de sair correndo da igreja pra ir jogar bola no campinho com os amigos. Minha mãe dizia que esse desejo de evasão era "o diabo agindo". Eu pensava: "se Deus é tão poderoso, porque ele não dá um fim nesse demônio chato?"

A morte do "filho de Deus" para aliviar a humanidade do pecado original, cometido por Adão e Eva, se tornava sem sentido, depois que os próprios padres nos diziam que "Adão e Eva era uma parábola, uma história antiga sobre o início da humanidade". Não era para levar aquilo a sério, com todas as letras.

O Deus que criava e depois matava quase todo mundo em uma inundação parecia sem lógica. "Se ele é Deus, como é possível se arrepender? Não prever que os homens iam ferrar com tudo", punha em dúvida as passagens bíblicas mais famosas. 

Pragas divinas matavam 14 mil e 700 pessoas, 24 mil...

Na série West Wing, o personagem interpretado por Martin Sheen questiona uma ativista religiosa, que afirma que a homossexualidade é uma abominação, de acordo com Levítico 18:22. 

Sheen passa a questioná-la: "Em Exodus 21:7, diz que posso vender minha filha mais nova como escrava. Ela fala italiano, por isso posso pedir um valor mais alto?. Em Exodus 35:2, afirma-se que quem quiser trabalhar aos sábados deve ser morto. A gente mesmo pode matar essa pessoa ou precisa chamar a polícia?".

Sheen lembra que "a Bíblia também afirma que quem plantar vegetais diferentes, lado a lado, deve ser apedrejado até a morte. Em outra passagem, se a mãe usar roupas de cores diferentes deve ser queimada em praça pública".          

Depois de velho, li A Origem das Espécies e lá tem uma passagem bem interessante. O autor, que era clérigo, afirma: "Todos os animais existentes hoje na Terra são originários de animais que existiram anteriormente - inclusive o homem". Era a teoria evolucionista, dando seus primeiros passos, destronando o deus criador e vingativo de judeus e cristãos.

Quando você diz para alguém que é ateu a reação é sempre estranha. Lembro de uma senhora, sorrindo e falando, "mas em Deus o senhor acredita, não é?" 

Mesmo sabendo que sou ateu, amigos me enviam votos de bom dia e boa noite, garantindo que Deus vai me abençoar e me proteger. Outros falam em anjos, andando ao meu lado, mesmo contra a minha vontade. 

Autores contemporâneos têm trabalhado a desconstrução desse ser extraterrestre, onipotente, onisciente etc. Recomendo as obras de Christopher Hitchens (Deus não é grande), Richard Dawkins (Deus é um delírio) e Freud, é claro.  Em Totem e Tabu, Freud faz uma análise, ao mesmo tempo psicológica e antropológica, sobre o nascimento da religião, decorrente do assassinato do pai primevo. 

Agora, o pior em ser ateu é viver em um País, em que o presidente eleito afirma que "Deus está acima de todos". A República ainda é laica, mas, certamente, isso vai ser derrubado nos próximos quatro anos. 

A nota que a gente usa para pagar o pão na padaria vem impressa com a inscrição religiosa: "Deus seja louvado", por ordem e graça do então presidente José Sarney, católico praticante e, recentemente, denunciado 11 vezes pela Procuradoria Geral da República por maus-feitos.

Tenho dito...






   

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Essa gente ingênua mostrou o seu valor


Lula foi condenado a 12 anos de prisão, por causa de um apartamento onde ele nunca morou, nem nunca foi dele. Dilma foi afastada da Presidência, levando o carimbo do impeachment na testa, não por ser corrupta, mas por culpa de um erro burocrático, chamado "pedalada". Os golpistas seguiram Maquiavel ipsis litteris: "Aos amigos os favores, aos inimigos, a lei".

A mídia arregimentou as massas, saturando telespectadores, ouvintes, leitores, com notícias sobre corrupção. Grupos de extrema-direita, como o MBL, promoveram manifestações.

Indignado com as denúncias da mão grande agindo na Petrobrás, o povo foi para as ruas. Carregou cartazes. Entoou gritos de ordem. "Fora Dilma!", gritavam, com toda a força de seus pulmões.

Esse MBL, que estava por trás das manifestações, seria um movimento de jovens, que tinham assistido à série da Globo Anos Rebeldes e se entusiasmado com formas de protagonismo político?

Tudo indica que não. O MBL, segundo o jornal The Guardian, é um braço tupiniquin do norte-americano Students for Liberty: 

"A Students for Liberty e a Atlas Network receberam financiamento de Charles Koch, que com seu irmão David controla a Koch Industries – a gigante de energia, combustíveis fósseis e petroquímicos dos EUA. 

"Fabio Ostermann, cientista político independente de Porto Alegre, no sul do Brasil, ajudou a fundar o MBL e também foi membro do ramo brasileiro da Students for Liberty. Ele teve aulas no Koch Institute for Human Studies na Virgínia por três meses", informa o The Guardian.

"Meu Deus! Então houve dinheiro norte-americano por trás do solapamento do governo Dilma Roussef?", perguntaria o ingênuo da bermuda, chinelo de dedo e barrigão de fora no churrasco, enquanto beberica o copo de cerveja. 

Para aqueles que usaram broche da estrela vermelha petista na lapela, que colocaram adesivos do PT nas janelas de suas casas, que agitaram bandeiras e participaram de boca-de-urna em prol de candidatos do Partido dos Trabalhadores, o Mensalão e o Petrolão tiveram o mesmo impacto que a facada de Brutus em Júlio César. Para um partido que pregava a ética na política, foi imperdoável. 

Surgiu em cena o juiz Sérgio Moro, que copiou o programa italiano Mãos Limpas, no comando de caça aos corruptos. No Brasil, a operação ganhou o nome de Lava Jato. Coube à Lava Jato processar e prender toda a cúpula petista (Lula, José Dirceu, Delúbio Soares, Palocci, João Vaccari Neto, entre outros). Empresários do porte de Marcelo Odebrecht e dos irmãos Joesley e Wesley Batista, da JBS, também foram alcançados pelo "longo braço da lei". 

O juiz Sérgio Moro deixou de ser um integrante do Judiciário para ganhar perspectiva de super-herói. Moro e o ministro Joaquim Barbosa (que condenou os réus do Mensalão) viraram uma espécie de Vingadores. Eles deixaram a categoria humana para se transformar em personagens de filmes e séries. Barbosa era chamado de "Batman", por causa da toga, que lembrava a capa do homem-morcego.

Vieram as eleições presidenciais de 2018 e o PT construiu um muro de erros. Foi tijolo sobre tijolo de decisões equivocadas. O PT errou ao procrastinar a candidatura de Fernando Haddad. Até o último momento, a última hora, o último minuto, o candidato seria Lula. Só que Lula estava na cadeia. Até o habitante do exoplaneta Ross 128b sabia que Lula não iria concorrer, por causa da Lei da Ficha Limpa. Mesmo assim, o partido insistiu no erro. 

Quem anda nas ruas; quem toma ônibus, trem, uber; quem entra em boteco; quem vai em campo de futebol, na igreja, no shopping; em suma, quem estava vivo e morava no Brasil, sabia que o PT seria um ímã que atrairia o ódio de milhões de eleitores, inconformados com os escândalos de corrupção. 

Se ao invés de Bolsonaro, o PSL tivesse escolhido o Coringa para ser adversário de Haddad, o Coringa se elegeria fácil com 57 milhões de votos. Isto porque o PT está atravessado na garganta. 

A opção mais lógica e sensata seria abrir mão de ter um candidato à Presidência e fechar acordo com alguém mais palatável ao eleitorado, como Ciro Gomes, o Cirão da Massa. Na construção de seu muro de erros, o PT apostou no candidato único, um vice, alçado às pressas para a posição de majoritário. Boi de piranha a ser consumido no pleito.

O PT precisa agora reconstruir sua imagem. Fazer um rebranding. Pedir desculpas. Vestir as sandálias da humildade. Tirar Lula da cadeia e começar de novo. "A luta continua."  

Para muita gente que via Moro como um paladino da Justiça, ao aceitar cargo no governo Bolsonaro, o símbolo maior da Lava Jato parece ter despencado do Céu. Tornou-se humano como nós. Perdeu o grau angelical. Ele era alguém que dizia que jamais entraria para a política e, veja só, foi mudar o governo para ele entrar correndo pela primeira porta aberta. 

Como escrevi em posts anteriores, há jornalistas partidários, que fazem seu nome e sobrevivem na mídia golpista, atacando determinado partido. E há também representantes do Judiciário que fazem política, ocultos pela toga. 

Ao comentar a escolha de Moro para o Ministério da Justiça, Ciro Gomes foi enfático: "Sérgio Moro não é um juiz. É um político que tem fraudado sua toga com intrusões na política".

De fato, ainda não me mostraram a escritura que mostra que Lula é o proprietário do tríplex no Guarujá. Para 47 milhões de eleitores, que votaram em Haddad, a prisão de Lula parece injusta, por ter sido condenado - é sempre bom repetir - por causa de um apartamento que nunca foi dele e onde ele nunca morou.    

    





       

    

Histórias da cozinha

Quando era criança, gostava de ficar na cozinha. Via minha avó preparar o almoço. Concentrada, ela circulava ao redor do fogão. O arroz ...