A Redação do Dipo (2)


Nos anos 80, o Diário Popular era ainda produzido com linotipos (foto). Essas máquinas em funcionamento lembravam um inferno incandescente. Resumidamente, derretiam chumbo para produzir linhas de tipos, que eram colocados em caixas. Daí faziam-se placas. Tirava-se um molde maleável que ia para a rotativa. Era um processo demorado, arcaico e fumegante.

O linotipista aposentava-se cedo. Depois de 20 anos de serviço, os pulmões desse profissional pesavam uns 20 quilos, por causa do chumbo aspirado. No Diário Popular, lia-se no degrau do linotipo gravado em aço: "W.R.Hearst, The NewYork Journal". Era uma máquina herdada do magnata da imprensa norte-americana - William Randolph Hearst - no tempo em que ele dirigia o poderoso The New York Journal lá por volta de 1890. Os linotipos do Dipo tinham cem anos de vida.

Fazer jornal naquela época era "simples": o repórter vinha da rua e escrevia a matéria. O editor dava uma olhada e mandava para o copy-desk, que acertava pontos, vírgulas e, às vezes, reescrevia o texto. O editor dava um tapa final. Punha título. Escolhia a foto e vamos em frente. A matéria era enviada para a Linotipia para ser impressa. Tirava-se uma cópia que ia, em seguida, para a revisão. Faziam-se os acertos e o texto retornava para o linotipista fazer as correções. Era um vai e vem interminável, sujeito a catástrofes.

Quem entrava no 3º andar do prédio da Major Quedinho, onde ficava a Linotipia, mergulhava em um ambiente enfumaçado, fervente, sufocante. Eu saía da Redação, que ficava no 5º andar, e descia regularmente lá para conversar com o pessoal. Gostava daquele exército de linotipistas. Eles sempre ingerindo leite para evitar a contaminação pelo chumbo. Sabia que era questão de tempo para toda aquela gente perder o emprego, quando o processo fosse substituído pelas modernas impressoras offset. Fiz amizade com um linotipista palmeirense, que gostava de imprimir meus textos. Ele "digitava" com zelo e carinho, reduzindo assim bastante a possibilidade de erro.

A Linotipia tinha um chefe, o seu Eustáquio. Antes do jornal ser impresso, seu Eustáquio verificava se estava tudo nos conformes. Às vezes, a placa com o texto precisava ser cortada, por causa dos estouros. Esse procedimento quase sempre dava certo, porque naquela época havia lide, sublide e assim por diante, com as informações cruciais sendo colocadas nas linhas iniciais da reportagem. Só que, de vez em quando, o texto terminava em um suspense aterrador.

Não raro, o leitor ia ler o jornal no dia seguinte e topava com coisas do tipo: "O ministro da saúde disse que todas as medidas serão tomadas para evitar novas mortes, mas...". Mas o quê, meu Deus?

Ninguém nunca iria descobrir. O seu Eustáquio tinha topado com um estouro e, sem qualquer dor na consciência, havia botado a placa em uma espécie de guilhotina e eliminado as sobras do texto nos deixando para sempre com aquela dúvida secular: "mas..."? 
   

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