A Redação do Dipo (3)



A música "Prá não dizer que não falei das flores", de Geraldo Vandré, se transformou em um hino que simbolizava a luta contra a Ditadura Militar. Vandré era um símbolo icônico. Alguém que havia sido torturado pelo regime e se transformado em vítima do governo opressor. Nos anos 80, os jovens que se opunham aos generais no poder, em pleno ocaso da Ditadura, viam na figura de Vandré um herói mítico. Da mesma estatura de Chê Guevara.

A Redação do Dipo em 1984/85/86 não dormia. Tinha sempre alguém de plantão. Havia um editor,  repórter e fotógrafo preparados para o que desse e viesse noite a dentro. Um editor plantonista mantinha sempre um copo cheio de Coca-Cola. Uma madrugada, morrendo de sede, peguei o copo e dei um gole. Saí cuspindo labaredas de fogo. Aquilo tinha 1% de refrigerante e o resto devia ser uma mistura de Fogo Paulista com Conhaque de Alcatrão e sabe Deus mais lá o quê.

 Certa noite, depois de uma exaustiva e interminável reportagem, cheguei lá pelas 3h da manhã na Redação. O lugar estava escuro, com apenas uma luz sobre o editor de plantão. Próximo dele percebi alguém que martelava a máquina de escrever. Achei que fosse um repórter, metido em outra cobertura noturna. Mas não era. A fisionomia me pareceu conhecida, mas como estava morrendo de cansaço, tratei de escrever minha matéria e ir embora pra casa.

 A gente escrevia em laudas, que eram umas páginas com marcadores, que facilitavam o trabalho da diagramação. O sujeito que escrevia perto de mim ia bem rápido. Devia estar inspirado àquela altura da madrugada.

Depois que terminei o texto, entreguei para o editor. Ele deu uma olhada e ficamos conversando um pouco, naquele momento de relaxamento que vem em seguida à produção de uma reportagem e nos dá aquela sensação de dever cumprido. Nisso, o sujeito levanta-se. Põe o paletó, que estava atrás da cadeira, vem até nós e nos cumprimenta. Dá boa noite e vai embora.

"Sabe quem é ele?", o editor pergunta.
"Não tenho a menor ideia", respondi.
"É o Geraldo Vandré."

Fiquei gelado. Como era possível ter ficado alguns metros de um dos maiores ídolos da minha geração e não tê-lo reconhecido.

O editor me contou que Vandré, que morava ali no Centro, costumava ir de madrugada na Redação do Dipo e escolhia aleatoriamente uma máquina e escrevia durante horas.

Depois que Vandré se retirou, o editor foi até a mesa onde ele tinha ficado e recolheu as laudas. Eram várias delas. Talvez umas dez ou quinze. Escritas de uma ponta a outra. Será que era uma nova versão de "Prá não dizer que não falei de flores"? Um capítulo de um livro? Memórias do cárcere? O que Geraldo Vandré poderia ter escrito naquela madrugada?

Quando fui ler, percebi que o texto não tinha lógica. Não fazia sentido. Eram palavras atiradas a esmo, sem começo nem fim. Uma algaravia muito doida. Fui para casa como se tivesse sonhado aquilo tudo.

Depois daquela noite, nunca mais vi Geraldo Vandré.           

 (a foto que ilustra o relato é do Diário de Pernambuco, que guarda certa semelhança com a Redação do Dipo)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Redação do Dipo (11)

A Redação do Dipo (12)

O Facebook - esse vampiro insaciável