A Redação do Dipo (4)



A Redação do Diário Popular recebia visitas diárias. Quase todo dia aparecia, quase sempre na hora do fechamento, uma figura pública, uma celebridade, alguém que queria divulgar algo ou simplesmente ia lá para fazer uma média com os jornalistas. O mestre Assis, de Embu das Artes, era figura querida e carimbada. Volta e meia aparecia na Redação para tomar um café com a gente. Hoje, ele é nome de um Centro Cultural em Embu. Morreu há oito anos.

Uma tarde, estávamos entretidos com nossas pecados diurnos, quando entra na Redação a atriz Christiane Tricerri, em pleno vigor muscular e escultural de seus 26 anos. De calcinha e sutiã pretos, meia arrastão, sapato salto 7/8 de verniz preto, chicote em punho, óculos escuros, ela percorria as mesas, enrolando os pescoços alheios em sua chibata. Havia aqueles mais exibidos que pediam uma breve chicotada no bumbum para guardar de lembrança. Christiane divulgava a peça Mara Tara, baseada no personagem de HQ, criado pelo Angeli.

Uma visita não muito cordial era de um colega, um jornalista que todos adoravam. Era festejado ao entrar na Redação. As meninas corriam para abraçá-lo, beijá-lo, apalpá-lo. Os rapazes o cumprimentavam com alegria. Assim que ele ia embora, começava o desespero. "Roubaram a minha carteira", gritava uma repórter. "Levaram meu relógio", informava outro. "A minha bolsa? A minha bolsa?", se desesperava uma editora. Todo mundo sabia quem tinha sido o ladrão, mas ficava por isso mesmo. A gente esquecia o ocorrido e seis meses depois ele voltava e era recebido com muita festa e propriedade.

Comida não faltava. Eram as garotas da Feira da Uva de Jundiaí que vinham distribuir cachos e cachos de niágara rosada, thompson, rubi. A princesa e a rainha da Festa da Uva desfilavam com seus vestidos coloridos de misses e as respectivas faixas cruzadas no peito. Distribuíam uvas como fariam as discípulas de Dionísio. No dia seguinte, a cena se repetia com as misses da Festa do Figo. No fim de semana, era o pessoal da Festa do Caqui. E seguíamos em frente.

Talvez a figura mais querida nessas visitas era o padre Patarello. Ele chegava sempre por volta de 18h, em pleno horário de fechamento, e percorria a Redação, dando pãezinhos de Santo Antônio para o reportariado. "Padre Patarello!", alguém dava o alarme lá na frente. "Padre Patarello! Padre Patarello!", começava a gritaria.O padre acenava, rosto vermelho, ciente de sua celebridade. Naquela hora da tarde, início da noite, a gente morrendo de fome, os pãezinhos do padre Patarello eram sempre um quitute indispensável.
"PADRE PATARELLO!!!"


     

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