Neymar e o futebol arte


Tarde de domingo, debaixo de chuva. A água corria solta pelo telhado e se arrebentava no quintal. O sol tinha desaparecido e dava impressão de nunca mais retornar. De repente, a sala encheu-se de luz, de claridade. A tarde escura e chuvosa transformou-se. Encheu-se de luz. A TV exibia o jogo entre PSG (abreviação de Paris Saint Germain) e Toulouse. Em campo, Neymar.
Responsável pela conquista do ouro olímpico (sonho sonhado por tantas gerações) em cima dos impiedosos alemães, Neymar vale cada centavo dos famosos 222 milhões de euros que o milionário Al-Khelaïfi, dono do PSG, pagou por ele.
Contra o Toulouse, time bem armado e honesto dentro de suas limitações, Neymar fez dois gols, deu passe de trivela em escanteio, sofreu pênalti e fez um gol arrebatador, digladiando-se contra cinco defensores toulousianos. Nesse lance, brigou pela bola, puxou daqui, tirou de lá, driblou mais um, driblou outro e ficou frente a frente com o goleiro, arrematando de forma impiedosa, certeira, cirúrgica marcando o sexto tento da goleada. Só vi Pelé fazer igual. Coisa de craque, a plenitude do futebol arte.
A TV aberta exibia, no mesmo horário, Avaí e São Paulo. Os dois lutando para sobreviver na série A. Comparado com o PSG e Toulouse, o jogo do time paulistano contra o catarinense era o mesmo que você estar hospedado em um hotel cinco estrelas e, de repente, ser transferido para uma pensão modesta na Barra Funda, daquelas com faixa suja de fuligem na porta: "Aluga-se quartos". Assim mesmo com erro de português para ficar mais deprimente.
O dinheiro do árabe milionário colocou na prateleira do PSG brasileiros selecionáveis como Daniel Alves, Thiago Silva, Marquinhos e Lucas (Thiago Motta agora virou "italiano", por causa da dupla nacionalidade).
O dinheiro multinacional tirou todos os craques do Brasil. Hoje, o Brasileirão é um campeonato medíocre, disputado por equipes medíocres, sem craques, sem atrações. Levantamento feito por esse comentarista que gosta de números - PVC (Paulo Vinícius Coelho) - revela que, em apenas 27 por cento das partidas, o time vencedor teve mais posse de bola. São times defensivos, medrosos, despidos de talento e de brilho. O futebol brasileiro é o espelho de um país que perdeu o rumo, a arte, a alegria.         

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