A corrupção nossa de cada dia

Um conhecido, que comemorou recentemente 80 anos de vida, estacionava no shopping dia desses e foi surpreendido por uma jovem que lhe passou uma descompostura. "Para na vaga de idoso", ela mandou, "você está ocupando vaga que não é sua". Surpreso, ele disse que depois de oito décadas de vida tinha o direito de parar na vaga de idoso e nas demais existentes, "menos nas vagas das gestantes". A resposta dela veio fulminante: "Vai se foder!".

Não sei a quem surpreende a notícia de que o Brasil tem "os piores políticos do mundo", segundo manchete de hoje da Folha, baseando-se em levantamento do Fórum de Davos. Se os fatos comprovam que a classe política foi comprada pelo poder econômico, para atender interesses que não são os da população, existe no intestino das relações sociais brasileiras um sistema de corrupção latente, crônico, que não pode ser deixado de lado.

Hoje mesmo: entrei no estacionamento do shopping, obedecendo à sinalização. O luminoso mostrou que havia uma vaga disponível naquele piso. Entrei. Vi a vaga, indicada pela luz verde, e quando fui fazer a manobra, surgiu uma senhora na contramão. Ela acelerou e ficamos embicados. Um olhando para o outro. Ela abriu a janela e perguntou: "Vai parar aí?". Eu disse: "A senhora está na contramão". Ela saiu acelerando, muito irritada, me mostrando aquele dedo malvado.

Na rua onde fica meu escritório, o departamento de trânsito colocou umas três placas informando que ali é proibido estacionar. É aquele famoso "E" cortado por um X. Todos os dias - repito - todos os dias, mas todos os dias mesmo, a rua fica cheia de carros estacionados, debaixo das placas de proibição.

Como a gente pode exigir honestidade da classe política, se diariamente rompemos regras básicas de civilidade e enviamos sinais de corrupção consentida, enfiada em nosso DNA?


Exemplos singelos. A grande questão é que o poder público - mergulhado em falcatruas e esquemas bilionários - não faz a parte dele. A classe política que comanda o poder público não cumpre com seus deveres. A prefeitura chega na sua casa com o carnê do IPTU. Você vai ao banco e paga direitinho. Você cumpre seu dever de cidadão. Já a prefeitura não faz a parte dela. Ela não faz o dever de casa. As ruas são esburacadas; a sinalização, precária; as calçadas, armadilhas. Fora os demais serviços que nunca funcionam quando você mais precisa deles. Um dia caiu uma árvore em cima de casa e não vinha ninguém retirar. Era uma árvore colossal. Majestosa. O peso dela esmagava lentamente as telhas e a sustentação. Os bombeiros diziam que era responsabilidade da Defesa Civil e a Defesa Civil empurrava o problema para os bombeiros. Um deus nos acuda.

O que adianta falar em combate à corrupção, quando 51% dos professores da rede estadual de ensino de São Paulo já foram agredidos. O professor apanha na sala de aula. Apanha no recreio. Apanha na saída da escola. Quem leciona para crianças de 6 a 14 anos, na prática, é um separador de brigas. Esses números, divulgados pela Apeoesp, nos informam o inegável: a base social do Brasil está corrompida. A gente sabe que o aluno agressor vive em um cenário devastado pela miséria e exclusão. E, lá em cima, o poder público fecha os olhos e a Secretaria de Educação não dá a mínima para o mestre agredido, que se sente desprotegido e abandonado.

Um fim de mundo. E o pior é que é o lugar onde a gente vive.

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