A Redação da FT - "o Império do Mal"



Depois de seis anos tinha saído do Diário Popular e estava sem emprego. Era 1990, com Collor, "caçador de marajás", na Presidência. Fui falar com meu amigo, o escritor Wladyr Nader, que editava o caderno de Cultura da Folha da Tarde.

Conhecia o Wladyr desde os anos 70 quando tive um livro finalista, em um curso promovido pela Revista Escrita, da Editora Vertente, que ele dirigia. Em 1977, Wladyr precisava de um redator e cheguei a trabalhar alguns meses para a Vertente, antes de a editora entrar no vermelho.

Wladyr era ousado. Como editor de Cultura da FT, publicou uma entrevista com o autor "maldito" Glauco Mattoso, saindo com a manchete, que dizia mais ou menos o seguinte: "Escritor diz que gosta de chulé de homem". Deu o que falar.

A FT, criada em 1967, tinha um passado nebuloso, apoiando o golpe militar e até mesmo "prevendo" mortes de guerrilheiros, antes mesmo que elas acontecessem. Nos anos 90, o jornal era outro. Aproveitava basicamente o material produzido pela Folha, usava muito as agências e tinha alguns repórteres de talento e expressão em seu quadro. Um deles era Marco Rosa (1955-2016), repórter investigativo, que vivia mais nas ruas do que na Redação. Quando Marco Rosa entrava na FT, a gente sabia que também estava chegando a manchete do dia seguinte. Um dia, ele tinha comprado um revólver com número de série raspado em um departamento da polícia. Em outro, ele se fantasiava de mendigo, morava em favelas, mergulhava fundo em busca do furo e da notícia. Outra estrela da Redação da FT era Mauro Beting, que escrevia uma coluna de esportes. Além de ser filho do grande Joelmir, Mauro exibia um texto brilhante, passional e sempre inteligente.

Wladyr me apresentou a Helio Mauro Armond, braço direito do diretor de Redação, Adilson Laranjeira. Consegui um frila fixo e semanas mais tarde fui integrado como pauteiro do jornal. Entrava às 7h e não tinha hora para sair. Quando comentei com uma amiga que estava trabalhando na FT, ela balançou a cabeça em sinal de incredulidade: "Você aderiu ao Império do Mal".

Adilson Laranjeira dividia o aquário com Carlos Brickmann, que publicava uma coluna diária na FT e revisava diariamente o jornal. Só que a revisão era posterior à edição. Armado de uma caneta marcadora vermelha, Brickmann circulava o que ele considerava erros. Pegava o jornal "corrigido" e expunha nas janelas do aquário para os editores e repórteres observarem as bobagens que haviam feito. Era o "Vermelhão do Brickmann", como o pessoal chamava. A primeira vez que vi aquilo, fiquei assustado e fui conversar com Helio Mauro, que desconversou: "Esquece", ele me disse, "isso não tem a menor importância, deixa ele escrever o que quiser, ninguém dá a mínima".


A FT era um jornal em crise de identidade. Tendo por trás um passado onde aderira de corpo e alma à Ditadura Militar, não podia ser muito popular, nem sensacionalista, porque quem fazia isso era o Notícias Populares, do mesmo grupo. Ficava em um meio termo, utilizando de forma parasitária o material jornalístico produzido pela Folha e conseguindo furos de reportagem, graças a um punhado de repórteres de talento, como o já citado Marco Rosa.

Eu entrava cedinho na FT e corria para a reunião de pauta da Folha, comandada pelo sempre competente Marcelo Beraba. Participavam dessa reunião, pauteiros de todas as publicações do grupo e também o pessoal das sucursais, que entrava na base do viva voz telefônico.

Descia. Retornava à FT e me reunia com Adilson Laranjeira e Helio Mauro, que já estavam a postos. Eles decidiam o que a FT utilizaria na edição. Eu fazia um relatório que seria distribuído aos editores.

A FT funcionava como uma fábrica, dividida em seções. Imagine a matéria-prima entrando por uma porta e sendo transformada em automóvel lá na frente. Era mais ou menos assim. Por esse tempo, os computadores já tinham desbancado as máquinas de escrever. Assim, ficava mais fácil adaptar e reutilizar o material jornalístico. O que um repórter produzia, várias publicações podiam sugar à vontade. Quando as matérias chegavam das agências e da Folha, eram retalhadas em várias editorias. Os editores cortavam, adaptavam e fechavam as páginas.

Quando saía um erro, o editor dificilmente era perdoado. Helio Mauro chamava o infeliz no canto e começava: "O que eu vou dizer vai doer mais em mim do que em você, mas sou obrigado a te demitir".

O prédio da Barão de Limeira era revestido de pastilhas coloridas. Mesmo material utilizado na construção da antiga Rodoviária de São Paulo (construída pelos donos da Folha Carlos Caldeira Filho e Octávio Frias de Oliveira). Não sei se eram as pastilhas, mas só de entrar no prédio sentia mal-estar. Havia ali uma tensão permanente. Era como navegar em um rio sabendo que ele vai terminar em cachoeira. Os editores passavam mal. Viviam doentes. Espalhavam remédios ao lado dos computadores. Em um determinado momento, vários jornalistas começaram a ter diarreia. Inclusive, Adilson Laranjeira. Descobriu-se que era um bebedouro sujo o causador da caganeira generalizada.

Nessa época, a FT trabalhava com o que o pessoal chamava de "táxi frila". Além do pessoal fixo, que encolhia a cada dia, a FT dispunha de um grupo de repórteres, sem ligação fixa com o jornal. Eles se sentavam na última mesa da Redação e aguardavam. Alguns conseguiam uma pauta e iam para a rua. Eram mal remunerados e se sujeitavam a condições indignas. Lá pelas 14h, eu chegava na mesa e falava para os quatro ou cinco "táxi frilas", que haviam sobrado: "Pessoal, hoje não tem mais nada. Podem ir embora". Eles levantavam e saíam, retornando no dia seguinte.

Havia uma lenda na Redação da FT sobre Adilson Laranjeira receber o espírito de um caboclo. Comentava-se que uma jornalista ao entrar no aquário recebera naquele momento o espírito de um índio velho. E aí o índio dela teria começado a brigar com o caboclo que Adilson havia incorporado. No meio, Helio Mauro tentava segurar as pontas: "Sai daqui, índio velho!", ele gritava, "deixa o caboclo em paz!". Pessoalmente, nunca presenciei nada semelhante.

Agosto de 1991 foi um mês turbulento na minha vida. Meu pai sempre quis ser advogado, mas nunca pôde cursar uma faculdade. Curiosamente, no dia 11 de agosto de 1991, ele veio a falecer. Onze de agosto, como se sabe, é o Dia do Advogado. Dois dias depois, em 13 de agosto, recebi aquela carta que todo mundo sonha. Havia ganho uma bolsa de estudos para escrever minha tese de doutorado na França. Havia sido aceito pelo professor Michel Maffesoli, da Sorbonne, e iria integrar o grupo de estudos dele em Paris.Foi tudo muito rápido. Pedi demissão da FT e embarquei para a capital francesa.

A FT encerraria sua história em 1999, transformando-se no Agora São Paulo (um misto de NP e FT). Adilson Laranjeira e Helio Mauro passariam a integrar a assessoria de comunicação de Paulo Maluf. Laranjeira tornaria famoso o bordão, repetido milhares de vezes: “Paulo Maluf não tem nem nunca teve conta no exterior”.

            

       

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