A Redação do Dipo (11)

Em 1987, quando nasceu meu segundo filho, eu trabalhava em três redações. Entrava às 7h na TV Gazeta para ler os jornais do dia e produzir "cabeças" (resumos das principais notícias) que seriam debatidas no programa, liderado por Alberto Helena Jr. Saía da televisão ao meio dia e corria para o Diário Popular, onde entrava às 13h (na época, o "expediente" do jornalista era de cinco horas). À noite, lecionava jornalismo no então Instituto Metodista de Ensino Superior, em São Bernardo do Campo (hoje Universidade Metodista de São Paulo).

Era uma vida corrida e satisfatória. Gostava do que fazia. Vivia o jornalismo 24h por dia, sempre atento a tudo, notícia circulando na veia. Foi mais ou menos por essa época que passei a trabalhar na editoria de Cultura, comandada por Oswaldo Faustino. Figura gentil e carinhosa, militante do movimento negro, Faustino também tinha uma vida complicada. Dava expediente na madrugada, como plantonista de Polícia, para o Estadão. Escrevia livros, gibis. Interpretava personagens. Era multitarefeiro.

Boa praça, trabalhador, Faustino foi também sacrificado, quando os cariocas de O Dia ocuparam a Redação. O motivo de sua demissão foi risível. Ele fez uma brincadeira com o bordão de Hebe Camargo e manchetou: "Que pena que esse jornal não é em cores" sobre uma matéria que tratava de uma exposição de quadros ou algo parecido. O Dipo não era mesmo em cores, nunca tinha sido colorido, mas isso foi caracterizado como uma ofensa gravíssima ao jornal, ao prefeito, ao governador, ao papa e Oswaldinho, como era conhecido, perdeu o emprego. Na realidade, foi um álibi para demiti-lo, porque o diretor de Redação, recém-empossado, não ia com a cara dele. "Esse preto filho da puta!", era a frase mais afável usada pelo chefão para se referir a Oswaldinho.

Enquanto Oswaldinho ainda editava Cultura, passei a escrever críticas de filmes que seriam lançados na semana. Na quinta ou sexta-feira, quando as produções entravam em cartaz, o Dipo publicava as críticas, trabalhando a edição com as fotos que os estúdios distribuíam para divulgação. Parece gostoso, mas não é. Você entra na cabine de exibição do distribuidor às 14h e sai até quatro horas depois, vendo dois ou três filmes simultaneamente. Conheci Edmar Pereira, crítico do Jornal da Tarde, que havia contraído o vírus HIV e enfrentava sérios problemas de saúde, vindo a falecer posteriormente, em 1993. Conheci também Rubens Ewald Filho. Admirava os dois. Pedia referências a eles e tentava me enturmar. Rubens me passou indicações de livros de autores norte-americanos, que traziam sumários e críticas breves sobre a cinematografia mundial. Rubens era cordial, porém, me parecia estava sempre com um pé atrás, desconfiado, tentando adivinhar as intenções de seu interlocutor.

Uma geração anterior à minha havia idolatrado a Cahiers du Cinéma. Particularmente, eu gostava da revista Premiere. A publicação trazia entrevistas com diretores, atores e atrizes. Não via a hora de buscar a revista em uma loja, que vendia essas publicações importadas, numa galeria da avenida São Luis. Lia a Premiere de ponta a ponta. Lia também a revista inglesa Concert que trazia Cds com lançamentos.

Quando a gente encerrava a edição, o general Moziul, que ainda era o diretor de Redação, me chamava no aquário e pedia indicações de filmes. Ele adorava cinema e ia regularmente assistir aos últimos lançamentos com a mulher.

Nessa correria, saindo da TV, indo para o Dipo, de lá para a faculdade, lembro de uma noite em que eu circulava pela avenida Juntas Provisórias, de olho no relógio para não chegar atrasado na aula (começava às 19h30), quando vi aquele garoto, de seus 14 ou 15 anos, parado na ilha, que divide a avenida. Do outro lado, fica a gigantesca favela de Heliópolis. O garoto tirou uma arma do bolso. Apontou na minha direção e atirou. A bala bateu na base do espelho retrovisor e abriu um semitúnel na carcaça. Acelerei o Chevette com vontade, olhando apavorado para ver se ele faria novos disparos.


Por que ele atirou? Quem era ele? Nunca saberei. Para quem havia passado a tarde em um mundo de fantasia, iluminado, cinematográfico, roteirizado, aquele acontecimento era uma ruptura brutal da realidade.

       

 

     

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