A Redação do Dipo (12)


A redação romântica do Diário Popular começa a desaparecer em 1988, quando o jornal é vendido para Orestes Quércia. Quércia era governador de São Paulo e desmentiu várias vezes ser o real proprietário da publicação. Para todos os efeitos, quem havia comprado o Dipo era Ari de Carvalho, de O Dia. O Estadão dizia que não, não era verdade que Ari de Carvalho fosse o proprietário do Dipo. Seu proprietário era o governador Orestes Quércia, afirmava o jornal, que elencava uma série de denúncias de corrupção contra o governador paulista.

O fato é que os cariocas de O Dia ocuparam a Redação. Naquele ano, o general Moziul Moreira Lima perde o cargo de diretor de Redação, que passa a ser ocupado por Jorge Miranda Jordão. Jornalista experiente, bem rodado, com passagens por várias redações, Miranda transformaria o Dipo em uma cópia piorada da Última Hora.

Centralizador, autoritário, ditatorial, Miranda foi cortando várias cabeças. Oswaldo Faustino, que editava Cultura, foi um deles. Fui convidado para assumir a editoria de Cultura no lugar de Oswaldinho. Gostava de ser repórter, de entrevistar pessoas, descobrir histórias e escrever. Nunca me dei bem com trabalho burocrático. Mesmo assim, fui em frente.

Demorou algum tempo - não saberia precisar quanto - para Miranda aceitar a sugestão de criar um caderno específico para Cultura. Na época, vários jornais investiam em cadernos. Eu tinha viajado aos Estados Unidos, em 1986, e me deslumbrei com um jornal chamado USA Today, que era todo organizado em cadernos. Colorido e dinâmico, o USA Today era vendido em pontos de venda automáticos.

Finalmente, Miranda bateu o martelo e o projeto da Revista, que passaria a ser o caderno de variedades do Dipo, foi em frente. Para formar a equipe, entrei em contato com o professor da Eca/USP  Bernardo Kucinski, que me indicou alguns nomes de profissionais recém-formados e talentosos.

Além da garotada saída da Eca, faziam parte da Revista, o amigo de longa data e texto brilhante Luiz Augusto Michelazzo, autor de um livro excepcional sobre esse período chamado Notícias da Matilha.

Fabian Chacur, que assinava Fabian DC, era um prodígio na elaboração de textos sobre música. Fabian conhecia todo mundo na área. Certa vez, precisando preencher um espaço grande na Revista, pedi a Fabian para escrever quatro laudas sobre rock australiano. Ele sentou-se diante da máquina de escrever e em menos de meia hora me entregou as inacreditáveis quatro laudas sobre rock australiano. Fabian era um velocista na produção de textos informativos e de muita qualidade.

Dagoberto Bordin, que também veio se agregar ao time por indicação do amigo Wladir Nader, era um jornalista promissor, com texto elegante, sabendo o ponto certo para usar a ironia.

O subeditor da Revista era Nei Souza. Sindicalista, Nei protagonizou uma história constrangedora. Em campanha salarial, Nei postou-se na frente do prédio do Dipo com o carro de som do Sindicato dos Jornalistas. Falou sobre as reivindicações da categoria, mandando ver no microfone. Encerrou a manifestação e veio trabalhar. Eram umas 14h, quando Miranda chegou ao jornal. Indignado com a presença do subeditor da Revista no carro de som do Sindicato, Miranda me chamou no aquário. "Demite esse preto fdp!" ordenou.
"Vou demitir por quê?", perguntei inocente.
"Porque ele fica fazendo manifestação aqui na porta. Não dá, cara! Manda esse preto embora". Falei que não podia demitir o Nei, porque, além dele ser bom funcionário, era sindicalizado e tinha imunidade. "Não quero saber de porra de imunidade. Manda ele embora!"  Soava estranho, porque Miranda tinha um perfume esquerdista, sendo aquele cara que conduzia Carlos Marighella, a bordo de um Karmann Ghia esportivo durante a Ditadura Militar, quando o guerrilheiro mais procurado do País estava na ilegalidade e fugia da repressão.
Chamei o Nei e falei que Miranda tinha mandado despedi-lo. Nei não se conformou. Perguntou se poderia ir falar com o diretor de Redação. Falei: "Vai em frente. Não sou eu que estou te despedindo. É ele". Dez minutos depois, Nei retornou. De cara amarrada, desconfiado, disse que não estava demitido. "O Miranda me disse que foi você, Danilo, que queria me demitir".

Foi a minha vez de ir ao aquário. Abri a porta e entrei na sala. Miranda olhava umas fotos e sorriu quando me viu. "Que história é essa, Miranda? Não sou eu que estou mandando o Nei embora. É você". Sorrindo, ele disse que ninguém tinha sido mandado embora.
"Esquece. Como é que está o fechamento? Qual vai ser a manchete da Revista para amanhã?", desconversou.
Imagino que ele tivesse ligado para o RH e sido informado que não poderia demitir Nei, simplesmente, por causa da manifestação salarial. Quando foi procurado por Nei, desconversou e jogou a bomba para o meu lado. Nos meses seguintes, Miranda chamaria Nei de meu segurança particular. "Ele não é teu subeditor. É o teu segurança". Não sei por que dizia isso. Quando tentei melhorar o salário de Nei, Miranda rejeitou abruptamente. "Não vou dar aumento pra ele gastar mais com maconha", foi a resposta.

Nesse tempo, era a febre dos vídeos. Você ia a uma locadora e saía carregando sacolas com cinco ou seis vídeos que eram assistidos no fim de semana. A minha locadora preferida ficava em uma galeria, próxima ao jornal. Eles tinham filmes de arte, "de autor", que eram muito procurados. Miranda preferia filmes pornôs, mas devia ter vergonha de entrar na locadora e escolher esse gênero de filme. Então, ele me pedia para alugar filmes específicos. Certa vez me deu instruções bem claras: "Tem um filme, que não sei o nome, é de um travesti negro que tem um pinto enorme. Ele fica pulando e o pinto dele gira como se fosse uma hélice".

Nenhuma decisão era tomada no jornal antes de Miranda entrar na Redação. Ele saía de madrugada e chegava à Major Quedinho por volta de 14h. O jornal ficava paralisado, enquanto ele não chegasse. A autonomia dos editores era mínima, quase inexistente.

Coisas simples como publicar a foto de um casal, que está se separando, com aquele recorte que sugere uma foto rasgada, viravam um batalha num jornal pobre de recursos gráficos e técnicos. Certa feita, o jornal atrasou o fechamento, porque eu havia solicitado que a foto da capa, com o casal em processo de divórcio, tivesse aquele desenho de rasgado. No dia seguinte, Miranda me chamou no aquário e me deu aquela comida. "Essa porra de recurso ninguém mais usa", gritava. O responsável pela diagramação, ao lado, cabisbaixo, mas feliz da vida, porque sabia que no futuro "novidades" como aquela não iriam mais tirar seu sono. Dias depois, a Folha publicava uma foto exatamente com aquela mesma arte. Fui mostrar para Miranda, que balançou os ombros. "Quero que se foda a Folha".

Ciumento, ele não suportava boas criações. Lembro de uma capa da Revista sobre a morte de Samuel Beckett, em 1989. A capa reproduzia uma foto gigante do rosto marcado, enrugado de Beckett. Trazia apenas a data de nascimento e morte do dramaturgo. O texto ficava na página interna. Foi uma criação excelente do nosso diagramador, que, infelizmente, não me recordo o nome. Era uma capa inspirada, visualmente chamativa. Miranda disse que a capa não servia. "E quando morrer o Roberto Carlos", ele disse, "de que tamanho vai ser a foto?".

Esse critério de tamanho e projeção era discutível. Uma tarde, fechei a Revista e fui embora para casa. No dia seguinte, abro o jornal e encontro uma matéria de capa inteira sobre uma sindicalista absolutamente desconhecida. Ele havia retirado a matéria que eu havia editado e trocado por uma capa que trazia fotos da moça e um texto generoso. Entro no aquário e Miranda me diz que tinha decidido mudar o conteúdo, porque aquela matéria tinha "mais apelo". Percorri a Redação, tentando saber quem era a tal da sindicalista desconhecida que tinha virado capa da Revista. Alguém me disse que era "uma mina que o Miranda quer comer". Verdade ou não nunca tinha visto nada parecido.

Chegou a um ponto em que trabalhar com Miranda começou a me fazer mal. Não conseguia mais olhar para a cara dele, nem conversar com ele. Se na época assédio moral estivesse na moda, acredito que ele seria recordista em processos. Pedi para voltar para a reportagem. Ele aceitou a minha solicitação. Fiquei como repórter especial por um curto período até ser desligado do jornal. Eu havia ganho uma bolsa para fazer doutorado na USP e dei graças a todos os deuses por não ter de repartir mais meu oxigênio naquele ambiente.

Minha próxima redação seria a da Folha da Tarde...



  

    



 

  

  

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