Hugh Hefner, Dany le rouge, Ho Chi Minh e as coelhinhas

Articulistas feministas meio que comemoraram a morte aos 91 anos do fundador da Playboy, Hugh Hefner. Suzane Moore, do The Guardian, reafirmou sua opinião sobre o publisher. Suzane chamou novamente Hefner de "cafetão". Em artigo anterior, a mesma Suzane qualificava o editor de explorador de mulheres. Na época, os advogados da Playboy ameaçaram processá-la. Ficou só na ameaça. Para a feminista do The Guardian, Hefner era um homem que "comprava e vendia mulheres para outros homens". "Não seria isso uma definição para cafetão?".

Sou feminista desde que li A resistência do Vietnã, de Ho Chi Minh. O revolucionário vietnamita dizia o seguinte: "Se metade da sociedade é composta de mulheres, então, os direitos entre homens e mulheres devem ser iguais". Isso me parecia tão espantosamente claro e evidente que virei feminista lá por 1970.

Era um tempo bom aquele. Sonia Braga aparecia nua e peluda, no Teatro Bela Vista, cantando Good Morning Starshine na peça Aquarius. Norma Bengell fazia o primeiro nu frontal da história do cinema nacional, em Os Cafajestes.A Seleção tinha um ataque formado por Jairzinho, Gerson, Tostão, Pelé e Rivelino, um dos maiores times que já viu atuar na minha vida.

Só o que estragava era a política. A gente vivia debaixo de uma Ditadura Militar...Com o tempo, a Ditadura foi sufocando, apertando a nossa garganta, tirando o nosso ar até que ficamos com o saco cheio e demos um pontapé na bunda de todos aqueles generais. Como projeto político, social, econômico, cultural, a Ditadura Militar deu errado. E não foi só no Brasil. Deu errado em todos os países. Deu errado sempre. Assim, quem pede o retorno da intervenção militar, faltou na aula de história.

As décadas de 1960 e 70 foram de liberação. A nossa geração detestava as gerações anteriores. Queríamos revirar o mundo de cabeça pra baixo. A música de Marcos Valle, que dizia "não confie em ninguém com mais de 30 anos", era seguida à risca. A pílula anticoncepcional permitia às mulheres se relacionar sexualmente com seus amantes, sem correr o risco de uma gravidez indesejada. O casamento não era mais intocável. Casais se separavam e, a partir de 1977 no Brasil, podiam se divorciar. O mundo ocidental no que se refere a costumes passava por uma tempestade. Vivia-se uma revolução sexual.

Em Paris, liderados por Daniel Cohn-Bendit, o Dany le rouge, os estudantes da Sorbonne e da Universidade de Nanterre dão início a uma revolta estudantil histórica, que iria paralisar a França. A imaginação ao poder; É proibido proibir; escrevia-se nos muros. Na Sorbonne, comentava-se, as pessoas escorregavam em esperma. Nesse clima de liberação, surgiu a Playboy no conservador Estados Unidos.

Quando era adolescente não havia nudes, internet, nem mesmo revistas sobre sexo. A molecada comprava escondido nas bancas os catecismos de Carlos Zéfiro. Eram histórias em quadrinhos, em preto e branco, que mostravam homens e mulheres trepando. E só. Então, surgiu a Playboy que mostrava fotos coloridas de mulheres nuas, em poses sensuais. Outras revistas - Status, Ele Ela, Sexy - aproveitaram a onda e foram disputar o público masculino nas bancas. Além das mulheres nuas, as publicações traziam entrevistas interessantes, contos, resenhas de livros. Eu lia regularmente Ele Ela, gostava particularmente das narrativas em primeira pessoa.

Anos mais tarde, seria colaborador da Sexy, a convite de Felix Fassone, marido da amiga e companheira de DGABC, Rosangela Espinossi, uma das editoras mais competentes com quem tive o prazer de trabalhar. Na Sexy, veja como é a vida, tive meus dias de Carlos Zéfiro.

A Playboy nunca foi a minha preferida. As mulheres eram tão retocadas, tão maquiadas, tão produzidas, que não pareciam reais. Isso bem antes do photoshop virar moda. As matérias da Playboy brasileira visavam um público classe A, gente que pedia informações sobre turismo do tipo "gostaria de fazer uma viagem volta ao mundo em 80 dias, dinheiro não é problema". Ou seja, a revista e meu poder de consumo não tinham qualquer parentesco.

O que me incomodava mesmo na Playboy era o dono dela, Hugh Hefner. Aquele chapeuzinho dele de piloto de iate aposentado, aquele ridículo robe de chambre de veludo vermelho, o cachimbo poseur, aquelas multidões de loiras clonadas, a mansão onde se vivia uma eterna festa crônica, as coelhinhas com o rabinho falso espetado no traseiro...Hefner representava um pesadelo cafona, com o qual eu não queria proximidade.

Voltando ao início, Hugh Hefner seria um cafetão? A ofensa é atraente, mas não, real. Se Sebastião Salgado tivesse inimigos, um deles poderia chamar esse monumental fotógrafo de "cafetão de pobres". É forçar muito a barra. Hefner criou um produto, que atendeu uma demanda de seu tempo e sua geração. Enfrentou a censura e o conservadorismo norte-americano. Criou um império. E como todo império tornou-se decadente. Com as vendas em queda, a desesperada Playboy produziu edições até sem suas outrora tão cobiçadas nudes. A Playboy, quem diria, acabou vestida.                  




      

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