O defensor inabalável de Michel Temer

Reinaldo Azevedo tinha grande admiração por Paulo Francis. Em uma das redações que dirigiu, me contaram, Reinaldo havia colocado em sua sala um quadro de proporções generosas, em homenagem a Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, nome este que o diretor teatral Paschoal Carlos Magno achava longo demais e sugeriu encurtar para Paulo Francis.

Sou ouvinte regular, nem sempre fiel, da Band News FM. Por volta de 7h15, Reinaldo Azevedo dá o ar da graça e inicia sua metralhadora giratória. O estilo é parecido com o de Francis. Alinha uma série de argumentos e fatos, nomes e citações filosóficas, curvas e retas, chutes e caneladas, busca sempre surpreender o ouvinte, de tal maneira que você não sabe se ele está falando contra ou a favor. Vai e volta. Recarrega a metralhadora. Dispara, dispara e dispara.

Depois de ouvi-lo durante toda esta semana, cheguei a uma conclusão brilhante: o presidente Michel Temer tem um defensor inabalável, fiel, destemido, corajoso, irritado. Ele defende tanto o presidente Michel Temer, mas defende com tantas unhas e garras que a gente chega a confundir isso com uma coisa, assim, amorosa. Parece a defesa de um marido apaixonado, que não se conforma com o amigo que vai contar para ele que a esposa está tendo um caso.

Eu não saberia repetir aqui os argumentos de Reinaldo Azevedo, em defesa do presidente Michel Temer, porque Reinaldo é um senhor inteligentíssimo, dotado de uma cultura sobrenatural. Acredito que ele está dizendo, mais ou menos, o seguinte: "O presidente Michel Temer é o político mais honesto do Brasil. O presidente Michel Temer nunca derramou café na gravata. O presidente Michel Temer está sendo alvo de gente malvada, como esses procuradores da República, que só querem enlamear o nome cândido, imaculado, do nosso querido representante político máximo".

O pobre do procurador Rodrigo Janot, antes de deixar de usar bambu para fazer flecha, sofreu igual Cristo na cruz nas mãos (ou na boca) de Reinaldo Azevedo. O jornalista chamou Janot de "cadáver adiado que procria". As denúncias dele eram uma "ruindade assombrosa". O procurador "vomitava totalitarismo". As ações de Janot eram "patuscadas". Acho que Reinaldo chegou a chamar Janot até de "feiticeiro", se não me falha a memória falha.

Tive o prazer de trabalhar lado a lado, ombro a ombro, beiço a beiço, com Reinaldo Azevedo. Isso aconteceu na Redação do Diário do Grande ABC. Em janeiro de 1994, o presidente do Sindicato dos Condutores Rodoviários do ABCD, Oswaldo Cruz Júnior, foi assassinado em Santo André.

O suposto assassino José Benedito de Souza, o Zezé, teria cometido o crime. Mas por qual motivo?

Na hora de fazer a manchete, Reinaldo Azevedo - que o pessoal da Redação chamava carinhosamente de Piu-Piu (não sei por que) - mandou bala em cima do PT: "Morte é queima de arquivo". Foi a manchete do Diário do Grande ABC.

No entender de Reinaldo Azevedo e de um repórter do DGABC que havia sido excomungado do PT, a morte de Oswaldo teria sido encomendada pelo Partido dos Trabalhadores, por causa de denúncias contra a CUT e o próprio PT.

Reinaldo não quis nem ouvir a versão de um repórter policial investigativo que garantia que a morte de Oswaldão (como o dirigente sindical era conhecido) tinha um ingrediente menos político e mais prosaico: dinheiro. Oswaldão havia cortado uma mamata que rendia uns trocados a Zezé, que, revoltado, despachou o presidente do Sindicato ao encontro de Jesus.

Não se foi coincidência, mas pouco depois desse episódio, Reinaldo Azevedo foi defenestrado da Redação do DGABC e liberado para conquistar o mundo e os microfones da Band News FM.

Esse episódio turvo, complexo, equivocado, que aconteceu a poucos passos da minha pessoa, me fez entender o seguinte: renascia ali uma nova geração de lacerdistas, jornalistas a serviço de um partido, de uma ideologia e de si mesmos. Os novos lacerdistas não fariam oposição ao cadáver de Getúlio Vargas, mas iriam mirar no Partido dos Trabalhadores e seus asseclas até expurgá-los do poder para todo o sempre.

Já os leitores, os ouvintes, os telespectadores, em busca de uma opinião menos parcial e menos partidária, aquilo que nas faculdades de jornalismo a gente chamava de "imparcialidade", estariam no mato sem cachorro dali em diante. Por falar nisso, é onde parece que estamos todos nós neste exato momento.     

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