Redação do Dipo (7)


Repórteres e editores do Dipo costumavam frequentar o bar e lanchonete Estadão, bem em frente ao prédio do jornal. O nome era ainda uma referência ao antigo ocupante do prédio da Major Quedinho, que havia se mudado para a marginal Tietê. Ao final de um dia estafante, morto de fome, um sem número de vezes, fui me arrastando ao Estadão para engolir o famoso sanduíche de pernil. Saturado de gordura, com várias camadas de carne enfiadas no pão francês, aquele sanduíche tinha o sabor de dever cumprido.

Próximo ao Estadão, havia o Mutamba, um boteco sujinho, com mesas de bilhar e alcoólatras de plantão. Raramente, aparecia no Mutamba. Uma noite, quando precisei tirar uma dúvida com um colega, que enchia a cara ali, presenciei uma cena passional. Um talentoso repórter negro, boa pinta, que cobria política e começava a aparecer em um telejornal noturno da TV (além de cumprir meio período no Dipo), discutia com alguém sobre ser bicha ou não ser bicha. Os dois estavam bêbados e era aquele horror, fácil de se imaginar.

O repórter negro ficou com o saco cheio de ser chamado de viado e não teve dúvida. Baixou a calça, baixou a cueca e com a bunda de fora, em pleno Mutamba, mandava o colega comê-lo: "Você é macho? Então me come", ele mandava, com a voz trôpega. O outro, sem conseguir parar em pé, agarrou o negrão e começou o movimento de vai e vem, enquanto o pessoal em volta ria de chorar. Como evidentemente o outro não conseguiu fazer nada, o repórter ergueu a calça e a cueca e pontificou: "Não falei que era você o viado..." Assim eram as noites no Mutamba.

Esse repórter negro, amigo divertido e fraterno, foi atravessar a rua da Consolação, perto da Paulista, e foi atropelado. Ficou entre a vida e a morte. Sofreu várias transfusões de sangue. Teve uma recuperação lenta e, ao tentar recuperar sua carreira, contraiu Aids e veio a falecer (na época, não havia controle de contaminação do sangue pelo vírus HIV). Uma perda lamentada por todos nós que o conhecíamos e admirávamos seu talento e generosidade.

Além do Estadão, quando as matérias exigiam que eu saísse de madrugada do jornal, sempre morrendo de fome, gostava de ir ao Longchamp, um bar-restaurante, que ficava na rua Augusta. Longchamp é um hipódromo francês, situado no Bois de Boulogne. O bar-restaurante tinha um balcão em forma de ferradura e era decorado com temas de corridas de cavalo. O garçom que me atendia, um gordinho sempre sorridente, costumava se meter nos meus pedidos. Eu falava: "Quero uma lasanha ao sugo". Ele balançava a cabeça, em sinal de incredulidade. "São três horas da manhã. Você vai dormir daqui a pouco. Uma lasanha vai cair que nem um paralelepípedo em seu estômago. Pede um bife com rúcula. É mais leve e digestivo." Eu aceitava a sugestão. O Longchamp era frequentado por boêmios, músicos e cineastas em início de carreira, como Sérgio Bianchi. Em 1988, eu o entrevistei no lançamento de Romance. E a entrevista foi ali no Longchamp.

O Sujinho, na rua da Consolação, próximo ao cemitério, também matava a nossa fome. Comia-se uma costela gigante, assada na brasa, com batatas coradas, pagando-se muito pouco. O pessoal dizia que o Sujinho era frequentado por "putas, policiais e jornalistas". De fato, a frequência era eclética. Rapazes de terno bem cortado, acompanhados por moças de minissaias curtas e sapatos de salto alto, misturavam-se a trabalhadores, grupos familiares, casais apaixonados, gente de boa e má fama. Nas mesas, servia-se um molho acebolado, que a gente comia com pão fresquinho. Era bom e barato. Hoje, o Sujinho virou uma franquia. Nunca mais pisei ali.     


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