Como é viver na cadeia

No exterior, um amigo que vivia em Brighton (Inglaterra) costumava me perguntar: "Quando você vai voltar para a cadeia?". A cadeia, no caso, era o Brasil. Corria o ano de 1982. Eu tinha me autoexilado e trabalhava como general help em um bed & breakfast. General help era o sujeito que fazia um pouco de tudo no hotel. Chegava às 7h. Ajudava a preparar o café da manhã. Arrumava as camas. Passava aspirador. Fazia as reservas dos hóspedes. Levava as malas pra cima e pra baixo. Às 13h, pontualmente, descia ao subsolo, onde tomava uma pint morna com o dono. Saía do trabalho e ia almoçar um sanduíche com a minha mulher no parque, se o tempo estivesse bom. Às 14h, entrava na escola. À noite, no apartamento que havíamos alugado, assistia à programação da BBC, sempre excepcional. Era uma vida gostosa a que eu levava no exílio. Era estranho, mas eu vivia melhor como faxineiro na Inglaterra do que como jornalista no Brasil. Não era só o salário que era melhor. Na época, sentia uma sensação de liberdade indescritível por ter saído de um país sob jugo de uma Ditadura Militar.

Terminado o autoexílio, voltei para a "cadeia". Em outros anos, tive a oportunidade de viver novamente no exterior, mas sempre retornei para a "cadeia", expressão que nunca me saiu da cabeça.

Fazendo um retrospecto, não me lembro de uma época boa, passada no Brasil. Às vezes, você está feliz, de bem com a vida, sorridente e é só andar na rua para a realidade brutal acabar com seu bom humor. O cordão de miséria envolve nossas cidades, envolve nossas ruas, nossos pescoços. A miséria não é somente opressora, ela é dominadora. Mesmo nos governos bem-sucedidos de FHC (primeiro mandato) e Lula (os dois mandatos), a miséria continuou prevalecendo, embora tenha sido minimizada.

Como jornalista, a serviço da FT, ganhava um salário ridículo, mas pelo menos os proprietários do grupo jornalístico conseguiam manter uma conta polpuda na Suíça, fiquei sabendo anos mais tarde, pós-escândalo do HSBC. Sorte deles, azar o meu que nunca tive conta na Suíça e nem polpuda.

Não é só a miséria da exploração do trabalhador que nos aflige. Existem outras misérias, maiores e mais robustas. Começa nas periferias das cidades. São bairros novos que surgem de um dia para o outro, sem planejamento, sem infraestrutura. As casas vão se amontoando, o esgoto circulando pelas vielas, a criançada crescendo no meio do caos urbano, sem lazer, sem perspectiva. O poder público se omite - como sempre - e a criminalidade impera.

Tem a miséria crônica das prefeituras que nunca cumprem com seus deveres. Enquanto você paga o IPTU e as multas de trânsito, as prefeituras obrigam você a trafegar por ruas esburacadas, escuras, a caminhar por calçadas impróprias (pobre do deficiente que anda de cadeira de rodas). As prefeituras brasileiras não fazem o elementar, que é a zeladoria. Tapem os buracos pelo menos já que não conseguem fazer o resto, bando de incompetentes!

Tem a miséria da educação...Essa é imperdoável. Outro dia, fui em uma escola estadual de um bairro periférico e me vi cercado de grades. O portões eram fechados com cadeados e correntes. Falei para a diretora: "Isso aqui parece uma cadeia e não uma escola". Ela me respondeu: "É para eles irem se acostumando. A maioria vai ser presa mesmo".

Agora, vivemos em um momento de miséria extrema. Ela é purgativa. Temos um presidente que é apoiado pela esposa dele, pelos ministros e o Congresso e por um jornalista. São os 3%, indicados pela pesquisa da CNI/Ibope. Temos milhares de políticos que foram eleitos a dedo pelo poder econômico e - portanto, descobrimos do alto de nossa imensa ingenuidade - não nos representam.

Como naquele livro famoso de Kafka, existe um processo em curso, que parece longe do final. Quem circula pelas ruas - e não a bordo de carros blindados ou de helicópteros - topa diariamente com a miséria dos 13 milhões de sem-emprego, com os zumbis da Cracolândia, com os pedintes e miseráveis de sempre limpando os para-brisas nos faróis.

A miséria tem o som ensurdecedor do funk, que é ditatorial e opressivo, porque obriga você a ouvi-lo, mesmo contra a sua vontade. É uma miséria totalitária, difusa, capilar, que coloca como preferido na lista de prováveis candidatos um político que defende torturadores.

Nesse país, que se diz laico, o dinheiro em circulação estabelece que "Deus seja louvado". A TV aberta é um show de horrores, aceito passivamente pelo telespectador embrutecido, molenga, apático, sonolento, embriagado de suas próprias limitações intelectuais.

A última do país miserável é uma polêmica sobre uma perfomance em um museu. Um artista peladão atraiu sobre sua manifestação ondas de ódio, que espumavam repressão e censura. Esse pessoal não está preocupado com os bairros da periferia, ocupados pela desgraça dos sem-dinheiro. Está pouco se lixando para as escolas cercadas de grades por todos os lados e para os professores agredidos e humilhados. Não dá a mínima para o trabalhador explorado - os 99% que sustentam o 1%. Não, nada disso! Eles querem proibir o pinto. O pinto à mostra é hoje o maior problema do Brasil. E naquele restaurante onde o pinto e a pinta foram jantar...Adivinhe quem pagou a conta? A pinta. O pinto estava duro.        

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