O conservadorismo da Netflix

Assisti ontem na Netflix Jogo Perigoso. Casal apimenta a relação com encontro sadomasô. Algemas, casa isolada, Viagra, clima perversivo. Quando terminou, lembrei de uma série de filmes produzidos pela conservadora Hollywood em fins dos anos 70 e 80. Em Vestida para matar, a mulher casada faz sexo casual com um desconhecido e descobre, depois da transa, que o parceiro tem doença venérea. À procura de mr. Goodbar, com a ótima Diane Keaton, uma professora que à noite frequenta bares para sair com vários homens é assassinada brutalmente por um ex-homossexual. Atração Fatal mostra o pobre Michael Douglas sofrendo o diabo nas mãos da maluca personagem de Glenn Close. Tudo porque ele era casado e foi arrumar uma amante.

Em todos esses filmes, a gente percebe o conservadorismo norte-americano pronto a castigar quem sai fora dos trilhos. Os anos 80 foram uma época de sexualidade exacerbada e repressão violenta. Em junho de 1983, Notícias Populares dava a manchete: Peste gay já apavora São Paulo, referindo-se aos primeiros casos de Aids, registrados na cidade, informando mal e porcamente, como o NP sempre fez.

De um lado, nos anos 80, estavam aqueles que gostariam de prolongar indefinidamente a revolução sexual, iniciada nos anos 60; e no lado oposto, um muro conservador, tentando sufocar os libertários. Hollywood fazia a parte dela, produzindo filmes, como os descritos acima.

Em 2017, a bilionária Netflix, com seus 100 milhões de assinantes, mantém esse ranço conservador. Jogo Perigoso é na prática uma advertência do velho superego freudiano: "Não faça essas coisas proibidas, menino, que você vai se dar mal". Outro filme produzido pela mesma Netflix, Eu, tu e ela, brinca com a possibilidade de um ménage à trois. Mas acontece tanto imprevisto, tanta situação constrangedora, que a brincadeira nos deixa com um gosto amargo. Se Eu, tu e ela fosse uma produção francesa nem te conto o que iria rolar.

O documentário Lady Gaga Five foot two mostra uma cantora enferma, com dores insuportáveis no corpo, sendo assistida por um séquito de massagistas, médicos, enfermeiros, paramédicos, padres, parentes, pai, mãe, avó. É tudo, menos aquela imagem sensual, alta moda, que a intérprete de Bad Romance nos passava  lá atrás no distante passado de 2009. Lady Gaga, descobrimos, é uma coitada de shortinho rampeiro que diz frases sem o menor sentido.

Rita, uma produção interessante, vinda da Dinamarca, mostra uma professora mãe solteira, que fuma, bebe, transa com o diretor, transa com imigrantes sem nome, mas - apesar desse comportamento pouco educativo - é excelente profissional, a melhor professora do colégio. Rita termina a séria numa boa? Ou será punida? Precisa responder?

Como estamos nas mãos dos algoritmos desses conservadores norte-americanos, somos obrigados a conviver com uma rede social que censura quadros centenários, obras de arte célebres, que se encontram à vista de milhões de visitantes nos museus mais visitados do mundo. Refiro-me à página Todo dia uma obra de arte para ofender o MBL que sofre a tesoura puritana periódica do Facebook.  No domingo, o autor desta página, que bate de frente com o MBL, fez um pedido desesperado: "Facebook removeu (mais) uma publicação e me impediu de usar a caixa de mensagens da página. Mandem um e-mail no arteofensiva@gmail.com. Também estou em twitter.com/arteofensiva."

 Dar murro em ponta de faca machuca, mas faz um bem danado para a alma da gente.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Redação do Dipo (11)

A Redação do Dipo (12)

O Facebook - esse vampiro insaciável